Pedalando em San Francisco e Marin County

Pedalando em San Francisco e Marin County

Eu já havia estado alguns vezes em San Francisco (SF), tanto a trabalho, como em férias. Numa das vezes, em férias com a minha minha mulher, alugamos bikes e cruzamos a Golden Gate, chegando em Sausalito e voltando de ferry para SF. É um roteiro muito legal, que qualquer pessoa consegue fazer. Não exige nenhuma condição atlética especial. E pedalar pela Golden Gate é uma experiência que vale a pena.

Em maio de 2017, eu iria a trabalho para San Francisco e Vale do Silício. Ficaria duas semanas por lé. Duas semanas quer dizer que haveria um fim de semana no meio. 😉

Comecei a planejar o que fazer com esse fim de semana. Vi que havia muitas opções de trilhas do outro lado da Golden Gate, numa região chamada Marin County, cheio de trilhas para MTB e caminhadas, mais especificamente, no parque Marin Headlands. Para quem atravessa ponte para Sausalito, fica do lado esquerdo.

O mountain biking nasceu nessa região de Marin County e, não por acaso, existe até hoje a marca Marin Bikes. Outras marcas, como a Gary Fisher e a Ritchey, também nasceram lá nos anos 1970 e 80.

Além do Marin Headlands, existe também uma montanha chamada Mount Tamalpais, com 780 m de altitude (e de ascensão, pois sai do nível do mar) por trilhas de terra. Também havia ciclovias por Sausalito e Tiburon, de onde sai outro ferry para SF.

Opções não faltariam para eu pedalar. Pesquisei várias empresas que alugavam bicicletas e a Blazing Saddles parecia ser a melhor. A Blazing Saddles tem pontos de retirada de bike por toda SF, mas normalmente são bikes híbridas, para um pedal urbano. Para bicicletas de MTB, a loja da Blazing Saddles que tem essas bikes é a de North Point Street, perto do Fisherman Wharf.

Reservei o domingo para pedalar todo o dia. O tempo ajudou, amanhecendo ensolarado e fresco. Como já sabia que o tempo muda bastante em SF, levei uma capa corta-vento, manguitos, e outros acessórios para poder pedalar em trilhas.

A loja só abriria as 8:00 da manhã. As 7:45, eu já estava na porta esperando para pegar a bike e cair na estrada. Peguei a magrela e fui seguindo pela avenida costeira até o parque Crissy Field, no pé da Golden Gate.

Golden Gate e Marin County, do outro lado

Golden Gate e Marin County, do outro lado

Apesar te já ter pedalado pela Galden Gate e ter passado de carro várias vezes por ela, passar novamente pedalando era uma emoção especial. Cruzei a ponte, parando no ponto de visitantes, no outro lado a baía.

Vista da Golden Gate e de SF do centro de visitantes

Vista da Golden Gate e de SF do centro de visitantes

Depois, segui a saída para Sausalito, mas pegando a esquerda por um viaduto que passa embaixo da estrada, no sentido oposto ao de Sausalito. Depois de subir um pouco, já aparece a placa de Marin Headlands. Um pouco mais adiante, entrei numa trilha a direita, a Smith Trail. Tem outros pontos de início de trilhas mais para frente também. O Marin Headlands é um emaranhado de trilhas, com bastante gente caminhando e pedalando nos fins de semana.

As trilhas são bem sinalizadas, com placas com nome, direção. Fui pegando trilhas diferentes, da Smith (ou Coastal) fui para a Rodeo e depois para a Miwok. A Miwok é bem longa e cruza toda a região. Eu saí dela, pela Old Springs Trail, indo em direção à Tennessee Trail. As trilhas são cheias de subidas e descidas, com alguns pontos bem íngremes. Em alguns, precisei descer para empurrar. Além disso, passava uma garotada de bike a todo vapor.

Sinalização de trilhas no Marin Headlands

Sinalização de trilhas no Marin Headlands

Cheguei a um ponto que deve ser popular para caminhadas e corridas, que iria até a praia de Tennessee, a 1.8 milhas dali. Resolvi ir conhecer a tal praia. Valeu o desvio, a praia de Tennessee tem uns 200 metros e é bem bonita.

Nas trilhas de Marin Headlands

Nas trilhas de Marin Headlands

Tennessee Beach

Tennessee Beach

Depois voltei pelo mesmo caminho e depois peguei novamente a Miwok, para a esquerda. Depois de algum tempo, peguei a estrada asfaltada a direita Marin Drive, passando por bonitas casas no meio de bosques, na encosta da montanha. Taí um lugar para se morar. Imagino que os preços sejam estratosféricos, mesmo para os padrões da Califórnia.

Parque Bothin Marsh, em Almonte

Parque Bothin Marsh, em Almonte

Desci pela Marin Drive, até o parque Bothin Marsh, em Almonte, onde havia dezenas de ciclistas fazendo o seu pedal dominical. Dica: se eu voltasse lá, não desceria à cidade para subir novamente. Seguiria pela trilha Miwok e depois pela Panoramic Highway, que sairia na trilha para o Mt Tamalpais.

Segui até Mill Valley, onde parei numa lanchonete para comer algo. Segui até a Old Mill Drive, um lugar espetacular, com casas no meio da floresta de pinheiros. Dali, comecei a minha subida até o Mt Tamalpais (ou Mt Tam, para os íntimos). É uma subida longa e bem inclinada pelas ruas do bairro.

Algum tempo depois, o asfalto acaba e o pedal continua por um precária estrada de terra, morro acima. O lugar tinha bastante de corredores de montanhas, famílias e ciclistas.

Subindo o Mt Tam e o skyline de SF no centro da foto

Subindo o Mt Tam e o skyline de SF no centro da foto

As vistas de San Francisco e da baía ficavam cada vez mais bonitas. Como o dia estava aberto, dava para ver bem longe. Mais acima, na crista do morro, dava para ver o Oceano Pacifico e a Baía de San Francisco. A trilha continuava serpenteando morro acima. No topo do Mt Tam tem algumas construções, que dava para ver do ponto que eu estava.

A baía de SF a esquerda e o Pacífico a direita

A baía de SF a esquerda e o Pacífico a direita

Meu plano era pedalar até o topo, por outro lado, teria que pegar um ferry em Tiburon para SF, chegando até as 17:00 para devolver a bike. Já eram mais de 3h da tarde. De onde estava a Tiburon eram uns 20 e tantos quilômetros. Comecei a ficar preocupado com o horário e resolvi voltar, antes de chegar no topo. A descida foi super rápida e bacana. Achei o caminho para Tiburon e fui pedalando, as vezes por ruas, as vezes por ciclovias.

Chegando em Tiburon peguei a Old Rail Trail, um antigo trecho de ferrovia que virou uma ciclovia e pista de caminhada. Um pouco mais adiante e cheguei no ponto de embarque do ferry. Vários outros ciclistas também esperavam para voltar para SF.

Embarcando em Tiburon

Embarcando em Tiburon

Normalmente o pessoal da Blazing Saddles já vai te oferecer um ticket do ferry quando você pegar a bike. É mais prático do que ter que comprar em Tiburon e o preço é o mesmo.

Ilha de Alcatraz

Ilha de Alcatraz

Como Tiburon está mais adentro da baía do que Sausalito, o ferry passa bem perto da Ilha de Alcatraz, dando para ver os detalhes dos prédios do presídio. Chegando em SF, foi devolver a bike e pegar um táxi até o hotel, pois as pernas estavam cansadas (e felizes) do dia pedalado.

Lobos marinhos no Pier 39

Lobos marinhos no Pier 39

Resumo do dia

roteiro pedalado

  • Distância: 65 km
  • Ascensão: 1.700 m

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Pedalando pelas quebradas e vales de Salta

Pedalando pelas quebradas e vales de Salta

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Ir direto paras fotos (Google Photos): https://photos.app.goo.gl/2R9tt05cmMftjKkp2

Viagem feita entre 25/11/2017 e 03/12/2017

Planejamento

Em 2017 tínhamos (eu e meu irmão) um novo alvará das patroas para uma viagem de bike. Uma semana, ou 9 dias, contando os dois dias do fim de semana anterior. Tanto eu como o Ricardo temos trabalho, família e filhos que demandam bastante. Não dá para esticar muito o tempo sem o mundo nos lembrar de nossos papéis de “pessoas responsáveis”.

Tínhamos alguns novos interessados em fazer parte da viagem. O Brian, parceiro de outras viagens, e outros amigos estavam a fim de ir conosco, animados com os relatos das viagens anteriores. No final, por contingências do dia-a-dia, não puderam ir.

Eu, que era o responsável por pesquisar e planejar as rotas, buscava opções que fossem a altura do rolê de 2016, nos Lagos Andinos. Igualar a viagem a Bariloche e região seria um desafio grande, pois o volume de atrativos por km rodado naquela região é impressionante.

Primeiro pensei em cruzar o Salar de Uyuni e ir até o Salar de Atacama, pelo caminho de Ollague, passando por outros salares. Depois de ler vários relatos, que falavam do vento, do frio, dos caminhos de areira, da altitude e de outras dificuldades, fiquei desanimado. Mesmo assim esse roteiro continua na minha lista de desejos. Mais prá frente, com mais tempo, ainda passo por lá

Depois veio a ideia de cruzar os Andes pelo Paso Água Negra, de La Serena (Chi) a San Juan (Arg). Seriam 7 dias de dura viagem, passando por um passo de quase 4.800 m de altitude, com vários dias camping selvagem. Muitos dias isolados e a grande altitude pareciam um pouco over, com o risco de tornar a viagem mais sofrida do que prazerosa.

Dei uma olhada no site Bikepacking, que tem várias rotas pelo mundo, com vários destinos legais para a América do Sul. Acabei escolhendo uma rota recomendada pelos argentinos do site La Vida de Viaje, a rota de Cafayate a Salta. Eu já tinha passado por essa região numa viagem de carro com a família em 2011 e tinha ficado com vontade de voltar.

A região norte da Argentina tem várias características sensacionais para uma viagem de aventura. Ela conjuga a infraestrutura e segurança da Argentina, com uma paisagem andina majestosa e uma cultura que lembra muito a Bolívia e o Peru.

O roteiro original do La Vida de Viaje começava em Cafayate, seguia pela mítica Ruta 40, atravessando os Valles Calchaquíes e depois cruzava o Parque Nacional Los Cardones e descia pelas imperdíveis Cuesta del Obispo e Quebrada de Escoipe. Achei que dava para melhorar o roteiro, começando antes na Ruta 68 e cruzando a Quebrada de Cafayate. Em muitos lugares, essa quebrada é identificada por Quebrada de Las Conchas. Como concha é a gíria chula para o órgão genital feminino, imagino que o pessoal do turismo mudou o nome para Quebrada de Cafayate. Assim não há o risco de atrair um turista interessado em outras coisas menos familiares. 😉

Começaríamos na Puente Morales. Se você assistiu o filme Relatos Selvagens, é a ponte onde acontece a briga entre os dois motoristas. Se não me engano, na terceira história. Vale assistir.

Puente Morales, no filme Relatos Selvagens

Puente Morales, no filme Relatos Selvagens

Rota completa

Rota completa

Fechado o roteiro, teríamos 400 km de pedal em 6 dias e uma ascensão acumulada de 5.000 m, com o ponto mais alto a 3.500 m de altitude. Como poderíamos ter que fazer camping selvagens em duas noites, levaríamos equipamento de camping.

E o quadro da bike quebrou 20 dias antes da viagem

Num pedal com um grupo de ciclistas de Campinas, comecei a sentir o selim jogar demais, para a esquerda e direita, conforme eu pedalava. Fui ver o e havia um pequeno trinco na solda entre o seat tube e top tube. Putz, era tudo que eu não precisava a menos de 3 semanas da viagem. Falei com algumas pessoas sobre a possibilidade de soldar o quadro. Pesando os riscos e o quanto custaria, resolvi comprar um quadro semelhante ao finado Access XCL de tantas aventuras. Comprei um Giant ATX no Mercado Livre. Pela cor azul celeste, a magrela já ganhou o apelido de Celestina.

RIP Access XCL (no Caminho da Fé)

RIP, Access XCL! (foto no Caminho da Fé)

Bienvenida, Celestina! (em ação no Valle Chalcaquí)

Bienvenida, Celestina! (em ação no Valle Chalcaquí)

A viagem

O nosso voo saía de Guarulhos as 8:30 no sábado, com uma parada de 4 horas em Buenos Aires e chegando em Salta as 17h. Eu já tinha combinado com um remis (tipo de táxi argentino) para pegar a gente no aeroporto de Salta e levar até o centro.

Montando as bikes no hostel em Salta

Montando as bikes no hostel em Salta

Chegamos no hostel, montamos as bikes e fomos dar uma volta na bonita praça central de Salta. Nosso objetivo para o dia seguinte era pegar um ônibus de Salta até a Puente Morales, na Ruta 68, escapando do trecho urbano, movimentado e feio, de Salta e cidades vizinhas. Fomos ao terminal de ônibus e compramos as passagens. Só deu tempo ainda de comer umas empanadas no Mercado Público e voltar para o hostel arrumar os alforjes.

Dia 1 – Puente Morales a Cafayate

Dia 1 - Km66-Cafayate

Dia 1 – Ruta 58 Km 66 – Cafayate

Domingo, 26/11/2017

O ônibus sairia as 6:50. Acordamos cedo, ainda deu tempo de comer algo no café da manhã do hostel e fomos pedalando até a rodoviária. Eu já tinha visto na internet que na Argentina existe a figura do maletero, uma pessoa responsável por pegar a sua bagagem e colocar no ônibus, mesmo que você possa fazer isso por sua conta. E que inevitavelmente teria que deixar uma propina (gorjeta) a ele. Nos custou AR$ 50 por bike (uns R$ 10). Dica: não tente não pagar que será dor de cabeça na certa. No máximo, negocie, se achar que estão cobrando muito.

Ruta 68, Km 66 - preparando para cair na estrada

Ruta 68, Km 66 – preparando para cair na estrada

O dia estava bonito e o ônibus saía da zona urbana, com uma paisagem ainda bem verde, que ia ficando mais árida a medida que íamos para o sul. Ao mesmo tempo, também ficava mais bonita. Ficou tão bonita que resolvemos descer numa parada no Km 66,  antes da Puente Morales. Estávamos ansiosos para começar a pedalar. Passamos pela ponte, seguimos por um vale cercado de montanhas áridas.

Puente Morales

Puente Morales

Mais adiante, na formação Garganta del Diablo, encontramos uma família de franceses. Pai, mãe, um filho de uns 12 e o mais novo com 6 anos. Estavam viajando pelo mundo de bicicleta (cada um na sua) por um ano. Da América do Sul iriam para Austrália e sudeste asiático. Eles falaram de um outro grupo franceses que estava um pouco mais adiante.

Família de franceses na Ruta 68

Família de franceses na Ruta 68

Garganta del Diablo

Garganta del Diablo

Paramos na formação Anfiteatro. É impressionante como camadas de rocha foram entortadas por sismos como se fossem panquecas. Fizemos uma parada para um lanche rápido no Mirador 3 Cruzes, com uma bonita vista para o vale.

Grupo de franceses

Outro grupo de franceses. O garoto de vermelho tem 4 anos

Mais adiante encontramos o tal grupo de franceses. Duas mulheres e 4 crianças. Eles iam bem separados pela estrada, com uns pequenos para trás e as duas mulheres mais adiante. O menor dos meninos tinha 4 anos e também tinha que pedalar, só que num pedal reclinado na bike da mãe. Eles iriam até Santiago (Chi), mais de 1.400 km ao sul! Esses franceses são fodas. Era a segunda viagem que encontrávamos cicloviajantes franceses que impressionavam a gente. Na última viagem, encontramos o Roger, um francês de 76 anos que pedalava por um mês pelo Chile e Argentina. Já escolhi nascer francês na próxima encarnação.

Quebrada de Cafayate, Ruta 68

Quebrada de Cafayate, Ruta 68

Seguimos pedalando pela Quebrada de Las Conchas, ops, de Cafayate. Como era o primeiro dia de pedal, a bike parecia mais amarrada do que o normal. O trecho todo era de um aclive suave, sem grandes subidas.

Alguns quilômetros antes de Cafayate começa uma ciclovia que vai bordeando os vinhedos da região e passando por algumas vinícolas.

Cafayate é uma cidade pequena (10 mil habitantes) e simpática, com mais de 20 vinícolas. É a segunda maior produtora de vinho da Argentina, depois de Mendoza. O vinho típico de lá é o torrontés.

Achamos o nosso hostel, tomamos um banho de piscina gelada, mesmo numa tarde ensolarada de novembro, e fomos comer um cabrito com vinho torrontés na praça. Cabrito pelo jeito é o prato tradicional de lá. Não decepcionou.

Para comemorar o primeiro dia de pedal, compramos uma garrafa de vinho e empanadas. Ficamos batendo papo noite adentro no pátio do hostel.

Resumo do dia: 71 km, 17 km/h, ascensão de 1.193 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1291829277

Dia 2 – Cafayate a Angastaco

Dia 2 - Cafayate-Angastaco

Dia 2 – Cafayate-Angastaco

Segunda-feira, 27/11/2017

Rotina de cicloturista: acordar cedo, arrumar as coisas, tomar um café da manhã reforçado e pegar a estrada. O plano do dia era dormir em Santa Rosa (seria camping selvagem) ou seguir para Angastaco, já depois da Quebrada de las Flechas.

Vinhedos de Cafayate ao lado da Ruta 40

Vinhedos de Cafayate ao lado da Ruta 40

Pegamos a Ruta 40, com asfalto até o vilarejo de San Carlos. O lugar é bem simpático, com wifi gratuito na praça e um bem cuidado camping municipal, onde pegamos água.

Alguns quilômetros depois de San Carlos, começa o maledeto rípio. O rípio dos Valles Calchaquíes consegue ser ainda pior. Ou você vai pela borda arenosa ou pelo meio com costela de vaca, conhecido por lá por serrucho. O esforço para pedalar aumenta muito.

Ruta 40 com rípio e costela de vaca

Ruta 40 com rípio e costela de vaca

Eu tinha estudado antes o Google Maps para ver quais seriam os pontos para comer ou dormir no caminho. Havia muitas localidades com nome no mapa. Várias dessas localidades eram vilarejos, como Animaná, San Carlos e Payogastilla. Várias outras eram somente uma placa na estrada e algumas casas de adobe, como San Felipe, San Rafael, La Merced, Las Viñas, Santa Rosa e Los Sauces. Nada de vendas, restaurantes ou pousadas. As vezes, nem gente tinha.

Bem vindo a San Rafael! #SQN

Bem vindo a San Rafael! #SQN

A paisagem e as casas de adobe lembravam um cenário de filme mexicano. Se o Zorro ou o Sargento Garcia aparecessem no caminho, não estranharia. O que chamava a atenção é que o vale era muito verde e cultivado, porém, alguns metros para fora dele, era uma paisagem seca de deserto.

Capela de La Merced, Ruta 40

Capela de La Merced, Ruta 40

Paramos para comer um lanche em La Merced. Um morador local nos falou que tinha água atrás da capela. Fomos lá e enchemos as garrafas.

Chegamos em Santa Rosa, que também era só um punhado de casas. Até tinha uma opção de hospedagem, da “Red Turística Campesina”, mas estávamos bem e resolvemos cruzar a Quebrada de Las Flechas para chegar em Angastaco.

Casa abandonada depois de Santa Rosa

Casa abandonada depois de Santa Rosa

A Quebrada de Las Flechas é um daqueles lugares espetaculares que, por si só, vale a viagem. Parece uma paisagem lunar ou marciana, sei lá, com placas de rocha que foram levantadas por sismos. Eram várias cores de rocha e uma secura ainda maior do que antes.

Um belga parou o carro e nos ofereceu água, puxando conversa, animado por nos ver ali. Ele tinha feito uma cicloviagem pela Colômbia, uma tal Ruta del Café, de Medellin a Bogotá. Eu não conhecia essa e me pareceu outra opção interessante para um rolê na América do Sul.

O trecho da Quebrada de Las Flechas tem algumas subidas mais íngremes e arenosas, mas conseguimos passar por todas pedalando. Tudo bem que contamos com a ajuda de um vento de cauda em alguns momentos.

Um pouco adiante, aparecem as placas indicativas para Angastaco, que fica alguns quilômetros fora da Ruta 40. Eu não tinha reservado nada lá e fomos achar algo. Como é um vilarejo minúsculo (1.000 habitantes), não foi difícil (mas também não tinha muita opção).  Wifi público na praça para os dependentes. 🙂

A cidade parecia vazia. Tivemos que passar nuns 4 restaurantes até achar algum aberto. Mas valeu a busca, encaramos um saboroso matambre para repor as proteínas.

Resumo do dia: 74 km, 12 km/h, ascensão de 1.180 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1293096686

Dia 3 – Angastaco a Molinos

Dia 3 - Angastaco-Molinos

Dia 3 – Angastaco-Molinos

Terça-feira, 28/11/2017

O dia seria relativamente curto, com pouco mais de 40 km até Molinos, sem grandes subidas. Só teria o chato serrucho para dificultar um pouco.

Ruta 40, entre Angastaco e Molinos

Ruta 40, entre Angastaco e Molinos

Seguimos pela Ruta 40, onde era gritante o contraste entre os campos verdes irrigados por canais e as montanhas secas. Passamos por uma fazenda chamada Finca del Sol, que parecia um cenário de filme de cowboy: montanhas avermelhadas, cavalos soltos, árvores ressequidas e um ar de lugar esquecido por deus.

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Encontramos um senhor argentino de uns 60 anos chamado Pablo. Ele pedalava uma MTB com o câmbio quebrado, na prática, com uma só marcha. Puxamos conversa. Do Brasil, ele só conhecia o Neymar. Ele morava em San Carlos, uns 50 kms antes, e fazia a verificação do uso da água pelos agricultores. Quando notei que ele não trazia uma garrafa de água, ofereci um pouco da minha, que ele prontamente aceitou. Antes de beber, despejou um pouco no solo. Fez o mesmo após beber. Perguntei o que era e ele falou “Uma oferenda para Pachamama, para que nunca nos falte“. É impressionante que, mesmo depois de 500 anos da chegada dos espanhóis, a cultura incaica ainda sobreviva.

Pablo e eu pela Ruta 40

Pablo e eu pela Ruta 40

Como a distância do dia era curta, as 12:30 já estávamos em Molinos. Como chegamos cedo, o quarto na pousada não estaria pronto até as 14:00. Fomos para a pracinha da cidade usar o wifi e mandar notícias para o Brasil. Tinha um motorhome com placa da suíça, provavelmente usando o wifi também.

Molinos, um brinde à viagem!

Molinos, um brinde à viagem!

Uma coisa que começava a chamar a nossa atenção era que, mesmo em lugares tão pequenos, numa região pobre (dá para pensar que é equivalente ao Sertão Nordestino), as cidades eram bem cuidadas, com escolas bem mantidas (muitas vezes escolas rurais no meio do nada), ruas sem buracos, sensação de segurança e uma infraestrutura visível, como os campings municipais e o wifi público. Era evidente a diferença se comparássemos ao Brasil. Isso tudo, mesmo com a Argentina estar em crise desde os anos 70…

Um pouco mais tarde fomos conhecer o camping municipal e lá estava o motorhome, com um casal de uns 60 anos. Nos deram um “hola” e fomos conversar. Eram suíços aposentados, o Robert e a Ursula. Ficariam 3 anos viajando por toda a América do Sul. Um casal gente boa e de bom papo. Nos convidaram para ir lá a noite para continuar a conversa, o que fizemos. Conversamos bastante, trocamos umas dicas de viagem, demos boas risadas e combinamos de nos encontrar alguns meses depois em São Paulo, que eles já conheciam e gostavam muito.

Andando por Molinos descobrimos que havia duas opções de estrada até Seclantás, o próximo vilarejo. Uma era a Ruta 40, que ia por altos e baixos, longe do vale. Segundo o Robert, não tinha atrativos especiais. A outra opção era a velha Ruta 40, que seguiria pelo vale e passaria por El Churcal, onde tem ruínas dos povos Chalchaquíes. Não pensamos duas vezes. Se a Ruta 40 já é bacana, imagina a antiga Ruta 40!

Resumo do dia: 42,6 km, 13,5 km/h, ascensão de 670 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1294088092

Dia 4 – Molinos a Cachi

Dia 4 - Molinos-Cachi

Dia 4 – Molinos-Cachi

Quarta-feira, 29/11/2017

Saímos da pousada e seguimos a dica do Jesus, um guia local: passamos pela igreja, pegamos uma pequena ponte e seguimos pelo leito do rio Molinos, que tinha muito mais areia do que água. Aliás, só areia e plantações no leito. Um pouco mais adiante, cruzamos a Ruta 40 e pegamos a velha ruta que passaria por El Churcal.

Saindo de Molinos, pelo atalho

Saindo de Molinos, pelo atalho

Pedalamos por bonitos vales, casas de adobe, escolas rurais e até encontrarmos outro senhor de bicicleta. Ele estava com rodas de bicicleta de estrada numa estrada arenosa. Se com os meus pneus 1.75″ já era duro de pedalar…

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Perguntei sobre as ruínas e ele nos indicou o lugar correto (uns 2 Km depois da escola). Deixamos as bikes sob uma árvore e subimos o pequeno morro para conhecer as ruínas. Esse lugar foi um dos últimos redutos de resistência dos povos calchaquíes contra os invasores espanhóis. As ruínas ficam no alto de uma colina, com ampla visão do vale, mas longe da água. Quem quiser conhecer mais sobre os Calchaquíes, esse verbete da Wikipedia em espanhol tem bastante coisa.

Vista da estrada das ruínas de El Churcal

Vista da estrada das ruínas de El Churcal

Seguimos o pedal e chegamos num local curioso, onde antigamente era um moinho de grãos. Havia mais de 10 pedras de moinho por lá e cada uma delas deve pesar mais de uma tonelada. O lugar estava abandonado, provavelmente porque a água havia sumido.

Antigo moinho abandonado

Antigo moinho abandonado

Pedalamos mais alguns quilômetros e chegamos a Seclantás, mais um bonito vilarejo com menos de 1.000 habitantes. De novo a sensação de coisa pública bem cuidada era evidente. Entramos numa escola para pegar água. Ela era tão bem cuidada que duvido que as escolas de São Paulo (o estado mais rico) sejam tão bem cuidadas assim.

Aproveitamos que já era quase hora do almoço e fomos comer umas empanadas no El Rancho. O Ricardo já pediu uma “Coca-Cuela”, no mais castiço portunhol. Batemos um papo com o dono e seguimos viagem. Havia duas opções para seguir ao norte, a Ruta de los Artesanos e a Ruta 40. Elas se juntam 12 km mais adiante. Resolvemos seguir pela dos artesãos.

Na Ruta de Los Artesanos

Na Ruta de los Artesanos

Voltando a Ruta 40, parecia que ela estava mais seca do que já era. Passamos por mais alguns vilarejos e logo mais chegamos a Cachi.

Cachi é a cidade mais interessante e visitada do vales Calchaquíes. É um lugar realmente muito bacana, com muitos prédios coloniais caiados, todos brancos, com muitos bares, restaurantes e turistas de muitos lugares. Depois de tomar um bom banho para tirar a poeira, fomos comer um belo sanduba na praça e visitar o museu arqueológico e a igreja.

Igreja de Cachi

Igreja de Cachi

Era a final (segundo jogo) da Libertadores, entre Grêmio e Lanús. Entramos num bar, pensando em assistir com uns tiozinhos argentinos, mas mudamos de ideia. O Grêmio já estava ganhando, os muchachos estavam bebendo bem. Ter que explicar que, mesmo sendo brazucas, não éramos hinchas do Grêmio parecia meio arriscado. Fomos assistir o resto do jogo no hostel.

No dia seguinte dormiríamos num camping selvagem no Parque Nacional Los Cardones, sem comida e provavelmente sem água. Compramos água extra e mantimentos para os dois dias seguintes.

Resumo do dia: 52,2 km, 12,6 km/h, ascensão de 905 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1295557886

Dia 5 – Cachi a Piedra del Molino

Dia 5 - Cachi-Piedra del Molino

Dia 5 – Cachi-Piedra del Molino

Quinta-feira, 30/11/2017

Esse era o dia mais desafiador da viagem, pedalar por um lugar remoto, sem água, a mais de 3.000 m de altitude e encontrar algum lugar para montar a barraca. Eu tinha pesquisado nas imagens de satélite do Google Maps e parecia que havia algumas construções antes de chegar na Piedra del Molino e lá seria o provável destino do dia. Também tinha lido que existiam alguns pontos de ônibus que seriam bons pontos para dormir com a barraca, por serem quase fechados, protegendo contra o vento.

Nosso local de camping na RP 33

Nosso local de camping na RP 33

Saímos de Cachi com as bikes mais carregadas do que o usual e seguimos para Payogasta, último posto da civilização. Paramos lá para pegar mais água e usar o wifi público. Logo depois de Payogasta, nos despedimos da Ruta 40 e pegamos a Ruta Provincial 33. A boa nova é que seria tudo asfaltado até a Piedra del Molino.

Subindo pela RP 33

Subindo pela RP 33

Subindo pela RP 33

Subindo pela RP 33

Começamos a subir sem cessar e ganhar altitude. Já estávamos a 3.000 m e tudo parecia estar normal. Comemos um lanche num ponto de ônibus, onde havia uma placa para um lugar chamado Tonco. Se onde estávamos já era bem desolado, imagino o que seria Tonco, que seguia por uma estrada de terra aparentemente para o meio do nada.

Recta de Tin Tin

Recta de Tin Tin

Um pouco depois chegamos na famosa Recta de Tin Tin, com seus 16 km, construída pelos Incas há 500 anos. É um trecho completamente reto, que fazia parte do chamado Qhapaq Ñan, um conjunto de estradas incaicas com mais de 30.000 km pela América do Sul! Mais sobre o Qhapaq Ñan aqui, aqui e aqui.

 

Campo de cardones, no Parque Nacional Los Cardones

Campo de cardones, no Parque Nacional Los Cardones

Assim que entramos na Reta de Tin Tin, apareceu um desafio extra, um vento frontal que nos acompanhou por 30 km até o fim do dia. A velocidade média caiu bastante. Era muito difícil tanto pedalar como até conversar. O vídeo abaixo dá uma ideia.

A melhor coisa nessa hora é ter uma postura estoica, não se abalar e tocar em frente. Afinal, nós escolhemos estar ali e estávamos fazendo o que gostávamos.

Cachipampa, RP 33

Cachipampa, RP 33

Após o fim da reta de Tin Tin, parou uma camionete de um guardaparque. Ele perguntou se estava tudo bem conosco. Dissemos que sim e perguntamos se ele tinha água. Ele não tinha e seguiu viagem. Uma hora e tanto mais tarde, ele voltou com uma garrafa PET cheia de água para nós. Ele havia dirigido até a casa dele, a 25 km e buscado água. Muito bacana! Com certeza, isso não está na descrição do cargo dele.

Guanacos selvagens em Cachipampa

Guanacos selvagens em Cachipampa

Cruzamos uma região chamada Cachipampa, o vento continuava inclemente, a temperatura caía e já estávamos cansados, sem saber o quanto faltava para o lugar do acampamento e se poderíamos acampar lá. Para nos animar um pouco, apareceu um rebanho de guanacos selvagens, que nos olhavam com desconfiança.

Centro de visitantes no PN Los Cardones

Centro de visitantes no PN Los Cardones

Finamente chegamos no ponto que dormiríamos. Descobrimos que as construções nas imagens de satélite eram o Centro de Visitantes do PN Los Cardones. Tudo estava fechado e não havia ninguém. Entramos e achamos um local coberto para montar a barraca.

Centro de visitantes no PN Los Cardones

Barraca no centro de visitantes no PN Los Cardones

Fomos dar uma explorada no local e havia 3 casas para os guardaparques. Elas estavam mobiliadas, como se morassem pessoas ali, com mesas com pratos sujos, brinquedos pelo chão e coisas assim. Parecia que tinham abandonado o lugar às pressas. Para completar o quadro de suspense, tinha um velho cemitério há uns 100 m de onde estávamos.

Cemitério do lado do nosso acampamento

Cemitério do lado do nosso acampamento

Além de estar tudo fechado nas casas, parecia que o lugar foi projetado para não deixar qualquer banco para se sentar ou uma torneira para pegar água. Era a prova de visitantes não convidados.

Centro de Visitantes por outro ângulo

Centro de Visitantes por outro ângulo

A noite já estava chegando, improvisamos um lugar para ascender o fogareiro, fizemos a comida e já entramos nos sacos de dormir, pois a temperatura começava a cair mais rápido com o sol baixando.

No meio da madrugada, ouvimos um barulho perto da barraca. Parecia um jumento pastando. Minha bike estava protegida entre a barraca e uma carreta, mas a do Ricardo estava mais exposta. Meio sério, meio para sacanear, falei que o jumento estava comendo o selim da bicicleta dele. O Ricardo soltou um palavrão e saiu apressado da barraca para espantar o jumento. Eu fiquei rindo da situação.

Resumo do dia: 53,2 km, 9 km/h, ascensão de 1.305 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1297891728

Dia 6 – Piedra del Molino a El Carril

Dia 6 - Piedra del Molino - El Carril

Dia 6 – Piedra del Molino – El Carril

Sexta-feira, 01/12/2017

Depois de tudo que havíamos pedalado até ali, o sexto dia de viagem seria só alegria. Pedalaríamos pouco mais de 1 km, subindo até a Piedra del Molino, ponto culminante da viagem, a quase 3.500 m de altitude. Depois seria uma longa descida de 60 km pela Cuesta del Obispo e Quebrada de Escoipe. O plano original era pedalar até Salta, mas o Ricardo acordou meio doente e resolvemos seguir direto para El Carril, mais perto, onde pegaríamos um ônibus ou carro até Salta.

Acordamos bem cedo, umas 6 h. Havia uma grossa neblina cobrindo tudo. Resolvemos voltar para a barraca e esperar abrir, pois a vista da Piedra del Molino era muito bonita para se perder.

O Centro de Visitantes continuava sem ninguém, mesmo as 8h da manhã. Esquentamos um café e comemos algo. O tempo já tinha aberto e caímos na estrada.

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Chegamos rapidamente na Piedra del Molino. Paramos para tirar várias fotos e então começou a diversão da descida, agora de novo em estrada de terra, o que até prefiro, pois fica mais aventureiro. As vistas das curvas que iam serpenteando vale abaixo eram impressionantes. Esse é o tipo de lugar que de passar pedalando já vale a viagem do Brasil.

Cuesta del Obispo

Cuesta del Obispo, o ponto no meio da estrada é o Ricardo

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Zigzags na Cuesta del Obispo

Era uma sequência sem fim de zigue-zagues. A medida que descia, a paisagem mudava. No alto era mais árido e, mais abaixo, ficava mais verde. A Quebrada de Escoipe era uma mistura de verde vegetação e vermelho das montanhas. Depois ficava ainda mais verde, lembrando a Serra do Mar paulista.

Quebrada de Escoipe

Quebrada de Escoipe

Quebrada de Escoipe

Quebrada de Escoipe

Paramos para comer uma quesadilla num restaurante de estrada, onde muitas excursões turísticas paravam. Nessas horas você vira um misto de herói e louco para as tiazinhas aposentadas.

Quebrada de Escoipe

Depois de bastante descida, a estrada fica plana e segue por Chicoana até El Carril. Chegando lá, perguntamos se dava para pegar um ônibus para Salta. Tivemos respostas contraditórias. Uma moça disse que sim, mas um policial disse que não, que teríamos que pegar um ônibus metropolitano, mas que esses ônibus não levariam as bikes. Como tínhamos algum tempo até o horário do ônibus passar, fomos comer empanadas e avisar as famílias que havíamos acabado a viagem sãos e salvos, sem sequer um pneu furado.

O busão da Flecha Bus passou e não parou, com o motorista fazendo sinal de negativo com o dedo. Fomos procurar uma remisera para negociar um carro até Salta. O problema foi achar um carro que coubesse nós e as bikes. Depois de um tempinho, achamos um por um preço justo.

Uma hora depois já estávamos no nosso hostel em Salta. Depois do banho, fomos comer alguma e tomar umas cervejas Salta para comemorar mais uma cicloviagem realizada.

Resumo do dia: 66,8 km, 20.4 km/h, ascensão de 363 m e descenso de 2.536 m!

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1297890248

Bônus – Salta e rolê de carro por Jujuy

Era sábado tínhamos o dia livre. Fomos ao Museu de Arqueologia de Alta Montanha e demos uma volta de bike por Salta, depois compramos carne, carvão e cerveja para fazer um asado argentino no hostel, que já é uma tradição nas viagens pela Argentina.

No domingo alugamos um carro e fomos em direção a fronteira com o Chile, via Paso Jama. Seguimos até as Salinas Grandes, passando por Purmamarca e a Cuesta de Lipan, outra estrada impressionante.

No retorno ao hostel encontramos um grupo de 7 brasileiros. Eles vinham de Ribeirão Preto numa Kombi e ficariam viajando por 3 semanas pelo norte da Argentina e Atacama. Era um pessoal super animado, viajando num estilo realmente raiz. Para dar um ideia, traziam uma panela de pressão para fazer feijão nas paradas. 🙂

Conclusão

A província de Salta é uma região espetacular em termos de paisagens e cultura. É segura, com boa infraestrutura e perto, para nós brasileiros. Dá para se chegar de avião, ônibus ou até com o seu carro (dá para ir de SP a Salta em 4 dias de viagem). Ou pedalando, se você tiver mais tempo.

O roteiro que percorremos junta vários pontos imperdíveis da região, como a Quebrada de Cafayate, a Ruta 40, os vilarejos dos Valles Calchaquíes, a Quebrada de las Flechas, a Recta de Tin Tin, a Piedra del Molino, a Cuesta del Obispo, a Quebrada de Escoipe e a cidade de Salta. Colocar alguns dias a mais e visitar (de carro ou excursão) as Salinas Grandes, Purmamarca e as cidades da Quebrada de Humahuaca fazem desse roteiro um top mundial.

Pedalar pela Ruta 40 pelos Valles Calcaquíes tem um gosto de aventura que poucas viagens proporcionam. Dito isso, é uma viagem dura. A secura, o rípio, a altitude, o vento e a temperatura (muito calor ou frio, dependendo da época) dão uma dificuldade extra à viagem. Não é para principiantes. Também não precisa ser superatleta, coisa que estou longe de ser. É importante estar preparado para longos dias de pedal, em condições muitas vezes adversas. E até achar graça dos perrengues. Se você estiver com esse espírito, vai ser uma viagem para ficar na sua memória!

Dicas e recomendações

Quando ir

Por ser uma região seca, quase sem chuvas, dá para ir quase o ano todo. Eu evitaria os meses de janeiro e fevereiro, tanto pelo calor como por ser alta temporada de férias, com muito movimento de carros. Imagino que deva fazer bastante frio no inverno, pela altitude. Não pesquisei sobre o inverno, porque iríamos em novembro.

Com que bicicleta?

Fui com uma MTB aro 26″, 27 marchas, freio v-brake, suspensão dianteira e pneus 1.75″. É uma configuração bem versátil, para terra e asfalto. No serrucho e na areia da Ruta 40, um pneu 2.0″ (ou mais largo) seria bem mais confortável.

Não espere encontrar bicicletarias nos vilarejos dos Valles Calchaquíes. Se tiver alguma coisa, será só o básico. Se precisar de algo um pouco diferente, procure em Salta Capital.

Onde dormimos

Todos tinham wifi e roupa de quarto e toalha. Quase todos reservados pelo Booking ou HostelWorld.

Transporte

Gastos

Por pessoa:

  • Passagem SP-Salta-SP: LATAM, ~US$ 300
  • Parte terrestre: tudo, incluindo também as despesas no Brasil para ir até o aeroporto: ~US$ 450

O câmbio estava:

  • R$ 1 = AR$ 5,35
  • US$ 1 = AR$ 17,45, os cambistas de rua pagavam AR$ 18 por US$ 1.

Dicas sobre a Argentina

Valem as mesmas da outra cicloviagem, que estão aqui.

O que levamos

Basicamente o mesmo que listei aqui. A mais, levei um fogareiro e uma caneca de camping.

É isso aí, pessoal! Boas cicloviagens!

Cicloviagem Lagos Andinos – Dicas e considerações

Cicloviagem Lagos Andinos – Dicas e considerações

Preparação

Preparação física

Diferentemente de uma cicloviagem de longa duração (meses ou anos), onde o preparo físico se adquire na própria viagem, um roteiro com tempo curto e contado requer um certo preparo prévio.

Os meses que antecederam a viagem foram bem atribulados para mim, com muitas viagens profissionais, compromissos e outras coisas que atrapalharam uma rotina de treino regular. Com 30 dias de antecedência comecei a fazer treinos mais longos nos fins de semana, pedalando de 60 a 90 km. Durante a semana, eu fazia pedais mais curtos ou corridas. Isso foi suficiente para a viagem, talvez pela memória do corpo de vários anos de prática de atividades de endurance (esforço médio, longa duração).

De todo modo, recomendo que se faça uma preparação adequada. Começando uns 4 meses antes e aumentando a frequência dos treinos e aumentando também a quilometragem.

Preparação psicológica

Estar preparado psicologicamente para longos dias de pedal, subidas, vento contra, possíveis problemas mecânicos,desconforto físico, chuva, frio, calor e outras dificuldades comuns numa cicloviagem é tão importante quanto a preparação física.

Acredito que as pessoas que se interessam por cicloviagem sabem lidar bem com essas dificuldades, mas é importante testar essa capacidade antes de se meter no meio dos Andes. Fazer pedais longos ou travessias (Cunha-Paraty, Estrada da Petrobrás em Salesópolis, etc) são situações boas para testar a sua capacidade de lidar com o perrengue. E é bem mais fácil abortar a viagem e voltar para casa se isso não for a sua praia.

Quando ir

A melhor época para ir a região de Bariloche é entre outubro e abril. Nos outros meses, a chance de pegar muito frio ou chuva é muito maior. Mesmo assim, é importante saber que o tempo muda muito por lá por estar próximo da cordilheira e por ser mais exposto às massas polares. Já peguei 5º C em janeiro. Um dia pode fazer sol e céu azul e no próximo amanhecer frio e chuvoso.

Vá preparado para essas mudanças de tempo, com roupas adequadas. Vale consultar sites de meteorologia para checar a quantidade de chuva e temperatura média para o período que pretende ir.

Temporada de férias de verão

A temporada de verão começa em dezembro e vai até fins de fevereiro. Os hotéis e estradas estarão mais cheios e os preços serão mais altos. Se puder, tente ir de outubro a novembro ou de março a abril.

Horas de luz solar

Uma coisa muito importante numa viagem de bicicleta é o período de luz natural. Via de regra, quanto mais, melhor. Em novembro o nascer do sol é logo após as 6:00 e o por do sol às 21:00, ou seja, 15 horas de luz!

Este site abaixo mostra o horário de nascer e por do sol em qualquer lugar numa determinada data.

Nascer e por do sol em Bariloche em novembro:

http://www.timeanddate.com/sun/argentina/bariloche?month=11&year=2016

Custos

Direto ao ponto, a nossa viagem custou US$ 520 para cada um. Isto considerando absolutamente tudo, desde que saí do portão da minha casa e voltei. Ou seja, da gasolina de casa ao aeroporto até as cervejas tomadas e qualquer outro gasto. Foram 9 dias inteiros de viagem. Poderíamos até ter gastado menos se tivéssemos ficado em campings (só ficamos em pousadas), feito a própria comida e economizado em pequenas coisas. Além desse custo, tivemos o da passagem aérea (ver abaixo).

Comparativamente, tem uma empresa do interior de São Paulo que organiza uma viagem de cicloturismo na região de Bariloche com uma duração semelhante. O pacote custa US$ 1.800 (sem aéreo), além de outros custos que você certamente terá durante a viagem.

Referência de câmbio

Em novembro de 2016 a referência de câmbio era:

Pesos argentinos:

  • R$ 1 = ~AR$ 5
  • US$ 1 = ~AR$ 15

Pesos chilenos:

  • R$ 1 = ~CHP 200
  • US$ 1 = ~CHP 650

Passagens aéreas

Compramos as passagens aéreas São Paulo/Buenos Aires/Bariloche pela Aerolineas Argentinas. Compramos com 5 meses de antecedência. Saiu US$ 250 mais taxas de embarque.

Eu nunca tinha voado com a Aerolineas. Ela não deixou uma impressão boa: poltronas apertadas, serviço de bordo fraquíssimo e ausência completa de entretenimento de bordo.

Regras de bagagem da Aerolineas:

  • Somente um volume despachado de até 23 kg (a mala-bike, com alforjes, saco de dormir e outras coisas, pesou 19 kg)
  • Uma bagagem de bordo até 5 kg (ninguém verifica se você está com duas ou mais)
  • Cada volume extra despachado custa US$ 120 (fuja como o diabo da cruz!)

Argentina e argentinos

Esqueça todas as besteiras que você já ouviu do Galvão Bueno sobre a rivalidade Brasil-Argentina. Vá com a mente aberta para a Argentina. É um país espetacular em termos de paisagens, provavelmente com mais variações do que o Brasil. Eles só não têm praias tropicais.

Os argentinos normalmente gostam de brasileiros (nos veem como um povo alegre) e, se você também for simpático, verá que temos muitíssimo mais coisas em comum do que imagina. Além do mais, a Argentina tem algumas coisas muito bacanas, como alfajor, a carne (as raças de bois são diferentes dos do Brasil), empanadas, doce de leite, sorvete e outras coisas que descobrirá.

Além de me sentir muito bem recebido na Argentina, em geral me sinto muito seguro. Nessa viagem, em momento algum segurança foi uma preocupação. Não nos sentimos em risco de sermos roubados em lugar algum.

Língua espanhola

Apesar do português e do espanhol serem línguas bem próximas, vale a pena estudar um pouco de espanhol para se virar melhor e conquistar a simpatia dos argentinos e chilenos, mesmo que sejam apenas algumas frases mais comuns. Será um investimento que se pagará rapidamente.

Hospedagem

A infraestrutura de hotéis, pousadas, hostels e campings é muito desenvolvida na Argentina e no Chile. Uma coisa diferente do Brasil é que existem muitas opções de camping em todos os lugares. Os argentinos gostam de acampar. Não é como no Brasil, onde camping é um tipo de hospedagem para quem não tem dinheiro para um hotel. Os campings geralmente ficam em lugares bonitos e espaçosos.

O preço médio que pagamos para um quarto para dois, com banheiro e café da manhã foi de R$ 120. Seria impossível achar lugares parecidos a esse preço no Brasil.

Estradas

As estradas que passamos (coloquei os códigos das estradas nos posts dos dias de viagem) eram muito bem mantidas, sem buracos, e com pouco movimento. Por outro lado, os acostamentos asfaltados, como existem nas rodovias paulistas, não existem por lá. Em alguns lugares do Chile as estradas tinham ciclovias.

Os motoristas eram bem cuidadosos, se afastando das bicicletas. Muitas vezes eles buzinavam para nos incentivar.

Transportando a bike no avião

Empacotar a bike para a viagem é um ponto bem importante, pois chegar com um equipamento danificado é um pesadelo para qualquer cicloturista. Ainda mais se você tiver um tempo contado como nós.

O método que uso é simples e eficiente. Comprei um mala-bike pelo eBay que é feito de uma lona sintética. É um sacolão, mas é leve, barato e fácil de guardar. Existem opções rígidas, que protegem melhor a bike, mas são pesados, caros e volumosos.

Além de desmontar a roda da frente, guidão e pedais, nessa viagem desmontei também a gancheira, deixando o câmbio traseiro solto e salvo de impactos. Na viagem para Cuba, a gancheira da minha bicicleta entortou um pouco, pois o câmbio traseiro fica saliente e absorve os impactos.

É fundamental também proteger os tubos, stays e demais partes com papelão. Isso evita riscos na bicicleta e as partes pontiagudas as peças não furarão (melhor, furarão pouco) a mala-bike.

Murche os pneus para eles não estourarem durante o voo, pois o compartimento de carga do avião não é totalmente pressurizado.

O Antonio Olinto tem um vídeo bem legal sobre como empacotar a bicicleta:

Embalando a magrela

Embalando a magrela

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Bike embalada

Cicloviagem Lagos Andinos – O que levamos

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Não se esqueça de levar algo para comer durante a pedalada!

Para bagagem, em qualquer viagem, meu lema é “menos é mais”. Depois de algumas trips de bike, já tenho experiência para levar somente o essencial sem faltar nada no meio da viagem.

Começo a separar as coisas de cicloviagem umas duas semanas antes, pois são muitos itens e a falta de um deles pode de fato fazer uma diferença enorme.

Bicicleta

  • Mountain bike de alumínio, aro 26, freios v-brake, 27 marchas e suspensão dianteira.
  • Adaptações para a cicloviagem:
    • Suporte para alforjes (rack)
    • Alforjes com capacidade para 33 litros (o par)
    • Pneus 1.75″ mistos com proteção antifuro.
    • Troquei os pedais de encaixe por pedais comuns (plataforma)

Itens relacionados à bicicleta:

  • Canivete de chaves allen
  • Chave de corrente
  • Óleo lubrificante
  • Chave de boca para pedal
  • Elo de corrente
  • Manchão para pneus
  • Cadeado para bike
  • 1 câmara reserva
  • Kit remendo de câmara de ar
  • Bomba de pneu
  • Bolsa de quadro
  • Aranha para bagageiro
  • Iluminação dianteira e traseira
  • Ciclocomputador
  • Abraçadeiras (aka, enforca-gato, umas 10)
  • 2 caramanholas
  • Alicate pequeno
  • 4 parafusos extras (compatíveis com bagageiro e suporte de caramanhola)

Roupas e afins:

  • 1 corta-vento (anorak)
  • 2 bermudas de ciclismo
  • 2 camisas de ciclismo (manga curta)
  • Bandana (lenço para a cabeça)
  • 2 pares meias de ciclismo
  • 1 par de meia comum
  • Luvas
  • Capacete
  • 1  camiseta dryfit  (manga longa)
  • 1 blusa de fleece
  • 1 calça dryfit
  • 1 camiseta de algodão
  • 1 colete reflexivo de segurança (ver o que aconteceu conosco no primeiro dia)
  • 1 boné
  • 1 par de chinelos
  • 1 bermuda dryfit
  • 1 par de tênis (não levei sapatilhas de MTB, mas o Ricardo levou tênis e sapatilhas)
  • 1 toalha de trekking
  • Segunda-pele (calça e camisa)
  • Cuecas

Itens gerais:

  • Filtro solar
  • Protetor labial
  • Repelente de citronela (não levamos, mas pegamos emprestado e foi muito útil)
  • Purificador de água (Hidrosteril, Clor-in, etc)
  • Celular e carregador
  • Power bank
  • Câmera fotográfica e carregador
    • Provavelmente foi a última viagem que levamos uma câmera. A maior parte das fotos foi tirada com o celular.
  • Benjamim (adaptador T), com dois pinos cilíndricos
  • Saco de dormir
  • Isolante
  • Barraca para 2
  • Saco estanque
  • Canivete suíço
  • Bolsa de dinheiro (money-belt)
  • Kit de primeiros socorros
  • Mochila dobrável de bolso
  • Caderno de notas e caneta
  • Necessaire com itens de higiene pessoal
  • Rolo de papel higiênico

Apps no celular:

O celular é a maquininha que faz tudo. Depois da própria bicicleta, ele já é o item mais importante em qualquer viagem.

Os apps abaixo foram bem úteis.

  • Navegação: HERE WeGo e MAPS.ME
    • Dois excelentes apps com mapas offline, ambos gratuitos. A base de mapas deles é diferente, vale levar os dois com os mapas da Argentina e Chile.
  • Strava e Sports Tracker
    • Muito útil para informações de percurso, distância, velocidade média, ascensão, etc. Cada um de nós usou um para fazer o tracking das atividades. Os dois apps gravam o percurso mesmo quando não tem rede de dados.
  • Hostelworld, útil para achar e reservar os hostels nas cidades visitadas.

Referência extra

Essa planilha de checklist foi criada pelo André Schetino, do Até Onde deu para ir de Bicicleta. É uma lista bem completa de coisas para se levar.

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 5 – Ensenada a Bariloche

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 5 – Ensenada a Bariloche

Sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Acordamos mais cedo, 6:30, para preparar tudo e pedalar os 16 km até Petrohue, onde pegaríamos o primeiro barco do dia para fazer o Cruce Andino. As informações sobre o horário de saída do barco eram desencontradas. Em alguns lugares diziam que era as 10:00 e em outros as 10:30. Como seria o único barco do dia, começamos a pedalar as 8:00 para ter bastante folga.

Este seria o penúltimo dia da expedição. Já vinha aquela sensação estranha de viagem acabando, um misto de sentimento de realização com uma tristeza pelo fim próximo.

Originalmente planejávamos pedalar até o posto dos Carabineros chilenos, conhecido como Casa Pangue, que fica no início da subida mais pesada para o Paso Vicente Perez Rosales. O dia seria um pedal de 16 km até Petrohue, quase 1:30 horas de banco até Peulla, um pedal de 20 km até a Casa Pangue e dormir por lá. No dia seguinte, continuaríamos o pedal até Puerto Frias, já na Argentina, onde faríamos a aduana e pegaríamos um barco até Puerto Alegre. Dali, um pedal curto de 3 km até Puerto Blest, onde teríamos mais um longo trecho de barco até Puerto Pañuelo, já no município de Bariloche, mas a 26 km do centro da cidade.

Esta travessia de Petrohue até Puerto Pañuelo tem o nome comercial de Cruce Andino e é operado por uma única empresa, a TurisTour (www.turistour.cl). Ele pode ser feito em um ou dois dias. Para quem faz esse passeio usando os ônibus nos trechos de terra entre os barcos, o preço do ticket é US$ 280. Para quem vai de bike ou caminhando nas partes de terra, sai por US$ 108 (foi o que custou para nós, tem relatos com outros preços). É caro, mas é a única opção se você quiser cruzar por esse passo. Não existem outros barcos que façam esse roteiro. É um monopólio mesmo.

Minha opinião, se você estiver com esse dinheiro, vale a pena. Os lagos são muito bonitos, cercados por verde e montanhas nevadas. As estradas de terra cruzam dois parques nacionais, o Vicente Perez Rosales (Chile) e Nahuel Huapi (Argentina) e a combinação de barco e bike é algo que não encontramos em qualquer lugar.

Durante a travessia, decidimos fazer os dois dias em apenas um, o que vou contar mais adiante.

Seguem os roteiros no Bikemap:

Saímos da pousada pontualmente as 8:00. Pela primeira vez na viagem o dia amanheceu nublado. Se ficasse só nublado e não chovesse, estaria ótimo.

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Ciclovia na Ruta 225, de Ensanada a Petrohue

A estrada começa com asfalto, com ciclovia demarcada, mas logo adiante vira um caminho de rípio. O visual é bem interessante, pois a estrada vai margeando o Rio Petrohue, que nasce no lago de mesmo nome e desce com uma certa turbulência para o mar. É um lugar usado para fazer rafting e caiaque esportivo.

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Ruta 225, o asfalto vira rípio

O rio Petrohue forma corredeiras e quedas bem bonitas. Tem um lugar que dá para visitar as maiores quedas (pago), mas passamos batido. Em outros pontos da estrada dá para chegar bem da margem.

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Rio Petrohue

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Rio Petrohue

As 9:15 chegamos em Petrohue, bem antes das 10:30, como descobrimos que era o horário de saída do barco. Petrohue é um punhado de casas, nem sei se tem mercado ou restaurantes. O lugar recebe, além dos turistas do Cruce Andino, muitos pescadores de fly fishing. Também tem um camping ali, pelo que li em relatos de outros ciclistas.

Na sala de espera encontramos dois franceses, pai e filho, que viajavam por 30 dias pelo Chile e Argentina, o Roger (pai) e o Olivier. O Roger tem 76 anos e uma energia inacreditável. O Roger viaja de bike há décadas e já esteve na Ásia, África, Oriente Médio, Américas e Europa. Acabamos ficando amigos e pedalamos até Bariloche com eles.

Além dos franceses, um casal de argentinos também fazia a travessia. Eles tinham acabado de comprar as bicletas em Puerto Montt, onde era mais barato do que na Argentina.

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Roger, 76 anos e uma energia de 20.

A compra das passagens foi meio confusa. Pagamos os US$ 108 pelo trajeto de ida, próximo ao valor que eu tinha visto em outros relatos (uns US$ 100). É importante dizer que você vai fazer somente a ida e que quer um boleto mochilero, ou seja, vai fazer a parte terrestre por sua conta. No caso, pedalando. Diga também para colocarem se será um ou dois dias de travessia. Se bem que, acho que não implicam com isso. Os franceses compraram passagens para dois dias e foram em um. O preço não muda para um ou dois dias.

Parecia que os atendentes eram novatos e não sabiam com segurança quais eram as opções, que são muitas. Dá para pegar o barco até Peulla e voltar, seguir até Bariloche. Cruzar em um ou dois dias. Ir e voltar. Usar ou não o transporte para a parte terrestre. Etc, etc.

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Magrelas a bordo

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Visual num dia aberto (não foi o nosso caso). Foto de divulgação.

O primeiro trecho de barco dura 1:40 e em dias abertos dá para ter bonitas vistas do Osorno e Pontiagudo. Naquele dia nublado, conseguimos ver pedaços dos dois somente. No barco fomos conversando com os franceses. Tanto o Roger como o Olivier eram muito bacanas. O Roger falava espanhol, mas o Olivier falava somente um inglês básico, o que ele compensava com simpatia para se comunicar.

É muito bacana ver alguém com 76 anos e fazendo uma viagem dessa. A gente acha que já está ficando velho (tenho 45 no momento da viagem). Ver alguém 30 anos mais velho que tem desejo e energia para este tipo de viagem é algo inspirador.

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Lago Esmeralda

Chegando em Peulla, montamos os alforjes e fomos à aduana chilena registrar a saída. Perguntaram do registro de entrada da bicicleta, que estava escrito à mão em nosso documento de entrada. Os franceses não tinham a menção às bicicletas mas o pessoal da aduana liberou. A aduana fica a 1 km após o atracadouro, não tem como errar. Você só não pode passar direto. Se fizer isso, os Carabineros na Casa Pangue vão checar o passaporte e você terá que voltar para pegar o carimbo. Not good.

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De Peulla a Casa Pangue são uns 15 km relativamente planos, em rípio, seguindo vale do rio que desce da geleira do Tronador. É um pedal tranquilo.

Se o pedal é tranquilo, por outro lado aparecem os tábanos, uns moscões que chegam em bando e picam mesmo sobre a roupa. São parecidos com as mutucas brasileiras, só que mais agressivos. Uma solução simples para espantá-los é um repelente de citronela. O Olivier tinha trazido e nos emprestou. Não restou um tábano por perto durante a viagem.

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Chegamos à Casa Pangue e fizemos o almoço ali, na mesa de picnic. Era cedo e os franceses disseram que iriam para Bariloche no mesmo dia. Nós estávamos com energia e dormir numa cama macia em Bariloche parecia ser melhor do que acampar sem banho no gramado da Casa Pangue. Decidimos ir juntos.

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Vista do Tronador da Casa Pangue. A visão era parcial pelas nuvens

Foto do mesmo local em um dia aberto. Do blog "Ciclos, Letras e Quintais", https://ciclosletrasequintais.wordpress.com

Foto do mesmo local em um dia aberto. Do blog “Ciclos, Letras e Quintais”, https://ciclosletrasequintais.wordpress.com

Só que nisso chegou um outro argentino, vindo de Bariloche, e também o casal de argentinos, que estava um pouco atrás. Fizemos um almoço coletivo, dividindo as comidas e as vivências de viagem. Para completar a festa, baixou um helicóptero dos Carabineros para algum oficial fazer uma vistoria. Os pilotos foram lá papear conosco.

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Ricardo (de amarelo), Olivier, Roger e eu, em sentido horário

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A conferência de paz estava ótima mas tínhamos que seguir viagem, pois a parte mais dura estava por vir. Eu havia lido vários relatos sobre a subida após a Casa Pangue e eles eram meio assustadores. Na minha cabeça era algo com a Serra de Luminosa, no Caminho da Fé, ou a subida de Castelhanos (Ilhabela), do lado do oceano.

É uma subida longa, uns 6 km, com uns 700 metros de ascensão, mas é pedalável, mesmo com as muitas pedras soltas e a bicicleta com os alforjes. Por ser no meio na floresta e cheio de curvas, eu sempre achava que ela iria terminar depois da próxima curva. Sem exagero, tive essa certeza umas 30 vezes. Cheguei até um (falso) cume e esperei o meu irmão, achando que era o fim. Mas para o meu engano, não era. Deu até aquela desmotivada quando a estrada começou a subir novamente.

Quando finalmente chegamos ao cume e vimos as placas demarcando a fronteira entre os países, foi uma alegria só. Sabíamos que dali a Puerto Frias seriam 4 km de uma descida forte, com muitas pedras soltas. Como já estava frio, botamos as jaquetas corta-vento e mandamos ver.

Quando chegamos a Puerto Frias a aduana argentina estava quase fechando, pois já eram 16:45. Pedimos para eles religarem os computadores e fazerem a nossa entrada no país. Também falamos para eles esperarem mais uns 5 minutos (acabou sendo 10) para que os franceses fizessem a entrada. Ficou em cima da hora mas deu tudo certo.

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Embarque em Puerto Frias

Embarcamos as bikes e cruzamos o Lago Frias até Puerto Alegre. De lá seriam mais 3 km de um caminho relativamente plano até Puerto Blest, onde pegaríamos o último barco rumo a Puerto Pañuelo.

Nestes região, onde os lagos chegam no meio da cordilheira, os lagos formam braços longos cercados por montanhas, muitas delas com picos nevados e cachoeiras de degelo. É um visual muito bonito, com cara de fiordes noruegueses.

Para completar o espetáculo, algumas gaivotas vinham pegar bolachas que os passageiros davam no deck do barco.

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Chegando em Puerto Pañuelo, já eram 19:30. Montamos novamente os alforjes e fomos pegar um longo trecho urbano de 26 km até o centro de Bariloche. Era uma sexta-feira com bastante trânsito de fim de dia. E essa avenida (Av. Bustillo) tem pista simples e sem acostamento, além de ser a principal via da cidade. Fomos em fila indiana, eu, o Ricardo, o Roger e o Olivier. O Roger foi puxando a fila a maior parte do tempo, num ritmo muito forte. Realmente incrível para alguém em seus 76 anos.

Chegamos às 21:00 no centro. A nossa reserva no hostel Perikos era para o dia seguinte, conforme o nosso planejamento, e o hostel não tinha mais vagas para a sexta. Os franceses tinham uma reserva no Hotel Venezia, na mesma rua do Perikos. Ficamos lá também. O Roger era amigo de longa data do Ivo, o dono do hotel, um simpático italiano de Treviso.

Ainda tivemos energia para sair para jantar e comemorar o fim da viagem. Tomamos cervejas da região e comemos um bom naco de cordeiro patagônico.

No dia seguinte nos despedimos dos franceses depois do café e fomos ao nosso hostel. O sábado foi de descanso e de churrasco novamente. Afinal, estávamos na Argentina e tínhamos cumprido a nossa expedição até antes do tempo.

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Que venham muitas outras viagens!

No domingo, restava empacotar as bikes e assistir a final da Davis (Argentina e Croácia). A Argentina levou o caneco pela primeira vez na história.

Chamamos o Henrique, motorista de táxi, que nos levou ao aeroporto. De lá, era voar para o Brasil e encarar a semana de trabalho pela frente.

Adios mi Bariloche querido!

Adios mi Bariloche querido!

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 73,8 km
  • Média: 13,6 km/h
  • Ascensão: 2.060 m

Hospedagem em Bariloche

  • Hotel Venezia (www.hotelveneziabariloche.com), AR$ 600, quarto duplo, com banheiro e café da manhã. Wifi não funcionava direito.
  • Hostel Perikos (www.perikos.com), AR$ 600,quarto duplo, com banheiro, café da manhã e Wifi. Além da churrasqueira! Nosso top-pick em Bariloche.

Táxi para o aeroporto

  • Henrique
  • Whatsapp: +54 2944597485
  • A corrida custou AR$ 270

Mais fotos

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Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 4 – Entre Lagos a Ensenada

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 4 – Entre Lagos a Ensenada

Quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Mais um dia de sol e céu azul. Eu estava acompanhando a previsão do tempo antes de embarcar e dizia que choveria na quinta-feira. A previsão muda para melhor também!

O dia de hoje teria 80 km, sem grandes subidas, mas com bastante sobre e desce. Para os padrões que já estávamos nos acostumando, seria um dia “fácil”. É a prova que tudo na vida é relativo.

O roteiro do dia seria: www.bikemap.net/en/route/3389481-lagos-andinos-dia-4/

Dia 4 - Entre Lagos a Ensenada

Dia 4 – Entre Lagos a Ensenada

Passaríamos por estradas secundárias, começando pela U-51, passando pelas margens do Lago Rupanco e chegando até a U-99-V, onde viraríamos a esquerda e pedalaríamos literalmente rumo ao Vulcão Osorno, que parecia ser o fim da estrada.

As estradas chilenas que pegamos eram muito bem mantidas e muitas vezes com acostamento asfaltado para bicicletas.

Passamos por paisagens rurais, com fazendas e muito verde. Se tirasse o Osorno e o Pontiagudo do horizonte, daria para dizer que estávamos no sul do Brasil.

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Daria uma boa capa de disco

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Estrada U-51, a beira do Lago Rupanco

A atração do dia era mesmo o vulcão Osorno, que era visível de qualquer parte. É curioso como um vulcão exerce uma atração quase magnética na gente. Tiramos muitas fotos, pois o tempo estava aberto de manhã, com o topo nevado bem visível. Como o tempo muda rapidamente nessa região e a previsão anterior era de chuva, não queríamos arriscar. Só que o tempo continuou aberto e, quanto mais nos aproximávamos do Osorno, melhores ficavam as paisagens.

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Pescaria fly no rio que vaza o Lago Rupanco

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Pegando a U-99-V

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Paramos algumas vezes para pegar água e comer. Paramos também num antigo cemitério, com uma igreja ao lado. Os nomes nas lápides eram quase todos alemães. Essa região do Chile teve uma colonização alemã e vários traços são bem presentes, como os pães kuchen, um pão doce com frutas.

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Igreja alemã com cemitério ao lado e o Osorno espreitando

O primeiro povoado que passamos no dia foi Las Cascadas. Paramos para tomar um refrigerante e comer uma empanada. O dono do local falou que tem umas cachoeiras bonitas  a alguns quilômetros do povoado, mas não estávamos com pique para o desvio de rota.

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De Las Cascadas a Ensenada são 20 km. Existe uma ciclovia por todo o percurso. Em vários pontos tem mirantes para o enorme Lago Llanquihue, que é bonito. Como estávamos com a referência dos lagos argentinos, bem mais espetaculares, não demos muita bola.

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Ensenada

Eu tinha a expectativa que Ensenada fosse uma pequena cidade, mas é somente um apanhado de casas e comércio à beira de um entrocamento de estradas. Ali se juntam três estradas, a que vínhamos, outra que vinha de Puerto Varas e a terceira para Petrohue, que pegaríamos no dia seguinte.

Arrumamos um apartamento para ficar na beira do lago, no Cabanas Montana. Como o plano era atravessar os parques nacionais por dois dias para chegar em Bariloche, saímos para comprar comida para esses dois dias. E, claro, tomar uma cerveja chilena. Tanto o Chile como a Argentina têm muitas cervejarias artesanais. No sul do Chile tem muitas cervejas com frutas locais, umas berries deles.

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O local que ficamos também tinha um camping, que fica no caminho para o lago. Lá encontramos um casal de holandeses aposentados que viajavam com um motorhome. Eles ficariam 6 meses no Uruguai, Argentina e Chile. De novo o Brasil não fazia parte da viagem…

Alugamos dois caiaques no Barlovento, um camping/pousada ao lado do nosso, e fomos explorar o lago Llanquihue.

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Na volta, encontramos um casal de alemães que viajavam de bike por três meses pelo Chile e Argentina com um filho de um ano e meio, o Milo. Eles tinham um carrinho que era conectado na roda traseira da bike. Perguntei como o Milo se comportava e disseram que ele estava adorando a viagem, se sentindo em casa em todos os lugares e muito curioso com as coisas diferentes. O menino era uma figura, quando passamos puxando os caiaques para devolve-los, ele foi lá para ajudar a levar, com os seus um ano e meio.

É muito bacana como os europeus fazem isso. Já vi crianças viajando com os pais de bicicleta em vários países da América do Sul. Uma vez eu estava no Ecuador, indo de carro para um lago que ficava dentro da cratera de um vulcão. É o tipo de lugar que você se sente um verdadeiro aventureiro. Quando estava quase chegando no topo do vulcão, cruzamos com um casal de holandeses, cada um puxando um carrinho com uma criança. Lá sei foi a minha sensação de aventureiro.

E aqui no Brasil, quando comento de qualquer cicloviagem, o pessoal já fala “Nossa, que loucura! Mas você vai sem agência?”.

Câmbio

Também não precisamos trocar dólares por pesos chilenos, pois os lugares aceitavam cartão de crédito. Entramos e saímos do Chile sem ver a cor do dinheiro local.

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 80 km
  • Média: 18 km/h
  • Ascensão: 950 m

Hospedagem e caiaque

Aluguel de caiaque: CH$ 8.000 por uma hora de uso. Alugado no Barlovento.

Ficamos no Montana (www.turismomontana.comtatorehbein@hotmail.com), o quarto com banheiro, saiu por CH$ 20.000.O Wifi é bom. Não tem café da manhã. O lugar é somente aceitável, se eu voltasse lá ficaria no Barlovento, ao lado.

Outras opções:

Mais fotos

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Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 3 – Villa la Angostura a Entre Lagos

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 3 – Villa la Angostura a Entre Lagos

Quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Chegara o dia de cruzar os Andes e também fazer a nossa primeira fronteira internacional no lombo de uma bicicleta. Além disso, um distância hercúlea de 115 km pela frente nos dava alguma preocupação, até porque não havia pontos intermediários de parada no roteiro. A primeira cidade no Chile era Entre Lagos. Antes disso, algumas casas e, talvez, povoados.

O tempo continuou perfeito, com céu azul e temperatura amena. Tomamos um café reforçado, fizemos vários lanches, enchemos várias garrafas de água e fomos começar a jornada. Não haveria um único mercado ou restaurante no meio do caminho.

Dia 3 - Villa la Angostura (Arg) a Entre Lagos (Chi)

Dia 3 – Villa la Angostura (Arg) a Entre Lagos (Chi)

Roteiro do dia: www.bikemap.net/en/route/3389477-lagos-andinos-dia-3/

Seriam 12 km de Angostura até o trevo para a estrada que seguiria ao Chile, voltando pela Ruta 40, pelo mesmo caminho em que viemos de Villa Traful no dia anterior. E do trevo até o Paso Cardenal Samoré seriam mais 32 km pela Ruta 231.

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No cruzamento das Rutas 40 e 231

Logo após o trevo, tem um mirante para o Lago Espejo (espelho, em espanhol). O mirante está bem alto em relação ao lago e dá para entender a razão do nome do lago. Para deixar o cenário ainda melhor, dois caiaques cruzavam as águas praticamente paradas da manhã.

Lago Espejo Grande, Villa la Angostura

Lago Espejo Grande, Villa la Angostura

Lago Espejo Grande, Villa la Angostura

Caiaques flutuando no céu, Lago Espejo Grande

Começou uma longa descida. O que poderia ser um motivo de alegria (descida), gerou o pensamento que deveríamos subir aquilo que descíamos e mais o que deveríamos subir até o passo.

A floresta em torno da estrada era densa, com grandes árvores e com muito verde. Mais adiante foram surgindo os primeiros picos rochosos e nevados. Já era uma paisagem bem diferente das dos dias anteriores. Apesar de nunca termos ido ao Alasca, concluímos unanimemente que aquilo parecia o Alasca no verão.

Chegamos ao controle de aduana argentino, que fica vários quilômetros antes do Paso Samoré, numa região mais baixa e menos fria. A burocracia foi rápida e sem problemas. Perguntei ao policial sobre o número de ciclistas a que passavam diariamente: 20 durante o verão e 4 nas outras épocas do ano.

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Posto de aduana argentino, Ruta 231

Mais um pouco de pedal e estávamos no esperado Paso Samoré. Um belo visual e alguns turistas tirando fotos. Aproveitamos para pedir para alguém tirar uma fotos de nós dois, chance rara quando se viaja por lugares remotos.

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Paso Cadernal Samore, fronteira entre Argentina e Chile

Depois do passo é uma longa descida, pois estávamos a 1.300 m e chegaríamos a 200 m de altitude em Entre Lagos. Cheguei a pegar 70 km/h. Mas isso não quer dizer que é só descida, a estrada passa por muitos vales e muitos sobe-e-desce, alguns bem cansativos.

O trâmite na aduana chilena também foi rápido e tranquilo. A recomendação é que você peça para anotarem no papel de entrada que você entrou no país com uma bicicleta. Pediram isso na saída do Chile.

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Chile, Ruta 215

Uma coisa que chama a atenção é que as árvores estão mortas em boa parte da floresta chilena. A causa da morte das árvores foi a erupção do Vulcão Puyehue, em 2011. Ainda dá para se ver a camada de cinza vulcânica no solo. Até na região de Traful ainda dava para perceber a camada cinzenta. Essa região que passamos sofreu ainda mais, pois está a poucos quilômetros do vulcão, coisa de 8 km.

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Floresta morta pelas cinzas do Vulcão Puyehue, Ruta 215, Chile

A ruta 215 vai acompanhando o curso do Rio Gol Gol. Estes nomes com repetição de palavras são comuns na língua mapudungun, dos mapuches. Aqui tem uma página com várias palavras mapudungun com repetição. A medida que entrávamos no Chile e a altitude baixava, a vegetação mudava radicalmente. Já parecia quase a mata atlântica no Brasil, com muito verde, variedade de espécies e morros baixos cobertos de vegetação.

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Cachoeira no Rio Gol Gol, Rua 215

A paisagem era bonita, mas não era espetacular como as que passamos pela Argentina. Um pouco mais além temos a primeira vista dos vulcões Osorno e Pontiagudo. O Osorno nos vigiaria pelos próximos dois dias.

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Vulcão Osorno

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Vulcão Pontiagudo

O dia já ia longo, eram 18:00 e pedalávamos forte para chegar. Agora o terreno era plano, o que facilitava o pedal. Chegamos em Entre Lagos as 19:15 com uma sensação de dever cumprido e que seríamos capazes de pedalar qualquer outra etapa dessa viagem, viesse o que viesse.

A cidade de Entre Lagos é pequena, com uma aparência precária, com casas de madeira. Mesmo assim, ela tem uma boa oferta de hospedagem. Achamos uma cabana logo na entrada, que era razoável. Não tínhamos pesos chilenos, mas conseguimos pagar em pesos argentinos. Mas fica a dica, vale trocar alguns dólares por pesos chilenos em Villa la Angostura, na Argentina.

Um vez com teto, era a rotina tradicional de uma cicloviagem: tomar um banho, lavar as roupas do pedal, sair para comer e passar no mercado para comprar comida para o dia seguinte. Aproveitamos para jantar um baita filé de salmão e tomar umas cervejas chilenas. Depois fomos dar uma volta nas margens do Lago Puyehue, que banha a cidade.

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 113 km
  • Média: 16 km/h
  • Ascensão: 1.700 m

Hospedagem em Entre Lagos

Ficamos na Cabana Gladys, que basicamente é uma casa com dois quartos, cozinha e banheiro. Tem wifi mas não café da manhã. O preço era CH$ 25.000 mas pagamos AR$ 590. Valeu ficar lá. Ela fica numa rua paralela à Ruta 215, no lado direito, logo na entrada da cidade, vindo da Argentina.

Outras opções: