Recuperando o quadro – A pintura

Recuperando o quadro – A pintura

Na postagem anterior, contei como foi a solda da trinca feita pelo Klaus Poloni. Para quem não viu, está aqui. Agora era a vez de fazer a nova pintura, para renovar o quadro e esconder as marcas de uso e de solda.

Quadro Access XCL com a pintura original

Quadro Access XCL com a pintura original

Eu já havia feito uma pintura em outro quadro em 2013, que conto aqui. Entrei em contato com o Adilson, que se lembrava de mim, mesmo 5 anos depois, pois muitos clientes procuraram ele através do meu post. Fiquei bem feliz em tê-lo ajudado. Dá para ver que é um cara batalhador. Além do mais, o serviço que ele fez em 2013 está perfeito até hoje. Os riscos e raspadas que aconteceram foram pelo uso (e abuso) normal da magrela.

Fomos eu e o Rafa até a oficina dele para deixar o quadro e escolher a nova cor. O Rafa escolheu a Verde Parati, um verde metálico usado nas VW Paratis dos anos 1990. Não seria a minha cor preferida para a minha bike, mas como era para a dele, não interferi. Se fosse para escolher uma cor de carro, eu iria com o Laranja Boreal dos Opalões dos anos 70.

O Adilson explicou os passos da pintura: primeiro removeria completamente a tinta original, depois aplicaria uma camada de primer, em seguida, a nova tinta, e por último o verniz. Demoraria em torno de uma semana para ficar pronto. Acabou demorando duas semanas, pois ele é meio enrolado. Como eu não tinha pressa, sem problemas.

Adilson, que vai fazer a pintura nova

Adilson, com o quadro que receberá a pintura

Mais abaixo está o resultado da pintura, com o quadro com a nova cor Verde Parati. Ficou um trabalho bem feito, como dá para ver nas fotos dos detalhes.

O próximo passo será a montagem da bicicleta, mas isso ficará para o final do ano, pois o Rafa tem que crescer um pouco mais e eu preciso conseguir os componentes que faltam para a montagem.

O contato do Adilson é:

Quadro com pintura Verde Parati

Quadro com pintura Verde Parati

A pintura sobre a solda

A pintura sobre a solda

IMG_20180329_070610530

IMG_20180329_070630662

IMG_20180329_070829835

Anúncios
Rotas de cicloturismo no Brasil (Sudeste e Sul)

Rotas de cicloturismo no Brasil (Sudeste e Sul)

Acesso rápido:

Sempre quis organizar as opções que temos de rotas de cicloviagem. Escolher uma rota pré-definida poupa tempo e, supostamente, passa por lugares preparados para receber o viajante.

Escolhi circuitos (mais ou menos) organizados, que tenham sinalização, site informativo, etc. Escolhi também roteiros de múltiplos dias. Existem vários roteiros de um único dia que são muito bacanas, mas não era o propósito aqui.

Também existem várias rotas de múltiplos dias (Serra da Canastra, Jalapão, Chapadas Diamantina e dos Veadeiros, etc) que são superinteressantes mas que não possuem uma rota pré-definida ou têm raras informações. Outros dependem de agências, que devem ser obrigatoriamente contratadas para guiar o cicoloviajante. Também ficaram fora.

Minas Gerais, São Paulo e Santa Catarina concentram quase todas as opções que estejam nessas categorias. Isso não quer dizer não existam outras rotas, ou possibilidades pouco exploradas, em outros lugares.

Caminho da Fé (SP/MG)

Mapa do Caminho da Fé

Mapa do Caminho da Fé

Na minha opinião o Caminho da Fé é o mais difícil e o mais clássico roteiro de cicloturismo do Brasil. Por cruzar um longo trecho de Serra da Mantiqueira, as subidas são muitas e loooongas, com nomes que ficarão gravados na memória de quem passou (empurrou a bike) por elas. O trecho mais tradicional do Caminho da Fé começa na cidade de Águas da Prata (SP), entra em Minas Gerais e volta ao território paulista em Campos de Jordão, para de lá seguir para Aparecida.

Existem também vários outros ramais, que se juntam próximo a Águas da Prata. Os mais longos são os ramais de São Carlos e Sertãozinho, que tem, respectivamente, 536 km e 571 km, no total.

Eu pedalei um trecho do Caminho da Fé (entre Águas da Prata e Campos de Jordão), que conto aqui nesse post do blog. Talvez seja o pedaço mais bonito e difícil, mas é possível faze-lo em 4 dias. Daria até para chegar em Aparecida nos mesmos 4 dias, mas é preciso estar em boa forma.

O site do Caminho da Fé é bastante completo, tem dezenas de relatos na internet e existe também um guia de cicloturismo do Antonio Olinto (link aqui).

 

Estrada Real (MG/SP/RJ)

Do site do Instituto Estrada Real

Fonte: Instituto Estrada Real

A Estrada Real é a maior rota turística do país. São mais de 1.630 quilômetros de extensão, passando por Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo.  A sua história surge em meados do século 17, quando a Coroa Portuguesa decidiu oficializar os caminhos para o trânsito de ouro e diamantes de Minas Gerais até os portos do Rio de Janeiro. As trilhas que foram delegadas pela realeza ganharam o nome de Estrada Real. — tirado do site do Instituto Estrada Real

A ER conjuga muitas coisas que todo cicloviajante busca: boa sinalização do percurso (os famosos totens), paisagens naturais belíssimas, cidades históricas, povo acolhedor e muitos quilômetros para se pedalar. Esses caminhos cruzam os mares de morros de Minas Gerais (que deve conter uns 80% da ER).

O site da ER, mantido pelo Instituto Estrada Real, é bem completo e fácil de navegar. A ER pode ser percorrida em qualquer sentido, mas normalmente as pessoas fazem no sentido Norte-Sul (ou Oeste-Leste, para o Caminho Novo).

O que as pessoas chamam de Estrada Real na realidade são 4 caminhos diferentes:

Caminhos dos Diamantes

O caminho tinha a intenção de conectar  Ouro Preto à principal cidade de exploração de diamantes, Diamantina. Fiz esse caminho de bike em 2013, tendo o relato detalhado aqui nesse post.

Saindo da bonita Diamantina, a ER vai por regiões de campos rupestres de altitude com bastante subidas, muitas vezes passando muitos quilômetros por regiões isoladas. Uma coisa preocupante é que vários trechos estão sendo asfaltados, tirando muito da beleza da ER.

O Caminho dos Diamantes tem um guia de cicloturismo muito bem elaborado e útil, escrito pelo Antonio Olinto.

Existem algumas opções de caminho diferentes, principalmente entre Serro e Conceição do Mato Dentro, onde o caminho oficial não é a Estrada Real histórica. No meu post e no guia do Antonio Olinto tem mais detalhes sobre isso.

Com o acidente e destruição do vilarejo de Bento Rodrigues, é necessário tomar uma rota alternativa para ciclistas, caminhantes e cavaleiros de Santa Rita Durão até Camargos.

 

Caminho do Ouro (ou Velho)

Também chamado de Caminho do Ouro, foi o primeiro trajeto determinado pela Coroa Portuguesa e liga Ouro Preto a Paraty. Junto com o Caminho dos Diamantes, é o trecho mais popular e percorrido por cicloturistas na ER, com muitos relatos na internet.

Diferentemente do Caminho dos Diamantes, esse caminho passa por trechos com mais verde, já na parte da Serra da Mantiqueira, cruzando regiões mais povoadas de Minas, SP e RJ.

Um cuidado importante a ser tomado no Caminho do Ouro são os “mata-ciclistas”, versões dos mata-burros em que as barras são colocadas no sentido da estrada e que podem causar acidentes feios.

Também tem um guia de  cicloturismo do Antonio Olinto, com o link aqui.

 

Caminho Novo

Criado para servir como um caminho mais seguro ao porto do Rio de Janeiro, principalmente porque as cargas estavam sujeitas a ataques piratas na rota marítima entre Paraty e Rio.

Não é tão famoso e percorrido como o Caminho do Ouro e mas dá para encontrar relatos na internet de quem já o fez.

 

Caminho do Sabarabuçu

O mais curto e menos conhecido dos caminhos da ER. Liga Cocais a Glaura, distrito de Ouro Preto. Com é em Minas, não faltam subidas para os 160 km.

Aqui tem um excelente relato de 2018 do Miura: zaponeis.wordpress.com/2018/05/06/sabarabucu-2018/

Vale Europeu (SC)

Circuito Vale Europeu

Este circuito foi um projeto das prefeituras com o Clube de Cicloturismo do Brasil, com o objetivo de criar um roteiro de cicloturismo nos municípios de Timbó, Pomerode, Indaial, Ascurra, Rodeio, Dr. Pedrino, Rio dos Cedros, Benedito Novo e Apiúna. É um roteiro circular e, normalmente, a cidade de Timbó é escolhida para ser a base.

O Vale Europeu talvez seja hoje a rota de cicloturismo mais popular e também a mais oferecida por agências no Brasil, ou seja, o mais comercial deles. O outro lado da moeda é que ouve-se muitas reclamações sobre o alto preço das acomodações no roteiro. O Circuito Vale Europeu corre o risco de levar o “Troféu Nutela” da categoria. 😉

 

Circuito Costa Verde e Mar (SC)

Circuito Costa Verde e Mar

Circuito Costa Verde e Mar

O Circuito Costa Verde e Mar junta trechos de praia com serras com mata atlântica. O site é bem organizado também.

Texto de divulgação do site:

O Circuito Costa Verde & Mar traz a possibilidade de conhecer de bicicleta um dos mais recortados e belos litorais do país. Passa ainda por tranquilas cidades do interior, com matas preservadas e rios com belas cachoeiras.

Este roteiro é repleto de atrativos naturais, históricos e também gastronômicos e culturais. A paisagem é bem variada, alternando entre altos de serras a planaltos ou vales de rios. A Mata Atlântica é bem preservada, mesclada com florestas de imponentes e belas araucárias.

 

 Circuito das Araucárias (SC)

Rota das Araucárias

Os catarinenses pegaram gosto por organizar circuitos de cicloturismo, o que é ótimo.

O Circuito das Araucárias fica numa região vizinha ao Circuito Vale Europeu, com características semelhantes, sendo 10 Continuar lendo

Cicloviagem, por conta própria ou por empresa?

Cicloviagem, por conta própria ou por empresa?

Viajar de bicicleta está ficando cada mais popular. Mais pessoas fora dos círculos da cultura de bike querem experimentar. E muitas dessas pessoas não têm conhecimentos ou confiança para fazer uma cicloviagem por conta própria. Não estou falando aqui dos cicloviajantes die-hard, que cruzam continentes durante vários anos, com orçamentos diários de US$ 10 e coisas do gênero. Essa é uma linhagem diferente de pessoas. Estou falando daquelas pessoas (como eu e provavelmente você) que tem um trabalho 8×5, família e minguados dias de férias para usar.

Não acho que exista uma resposta correta de qual modo é melhor ou pior. A resposta varia de pessoa por pessoa e também das circunstâncias de cada um. Posso preferir as viagens independentes mas numa situação específica, fazer uma cicloviagem guiada pode ser a melhor escolha. Pode ser algo oportunista, como que dê para encaixar numa viagem de trabalho, ou para incluir alguém (companheira, amigo, etc) que não está tão preparado para encarar uma viagem independente. Ou o contrário, alguém que preferiria fazer parte de um grupo, mas para o lugar que ela quer muito conhecer, não existam operadoras de cicloturismo e ela tem que fazer por conta própria.

Fonte: Wikipedia

Fonte: Wikipedia

Minha preferência é sempre em fazer uma viagem independente. Primeiro porque gosto muito de pesquisar e de montar roteiros, de estar com pessoas que sei que tem preferências de viagem semelhantes, além de também gostar de lidar com situações inesperadas. Outra coisa que me vem a cabeça é que gosto de longos períodos sobre a bike, com vários quilômetros rodados ou com algum nível de dificuldade, coisa que dificilmente uma viagem organizada ofereceria.

Mas é a minha história. Sempre preferi viajar de maneira independente. De mochila quando era mais jovem e agora com minha esposa e filhos. Ou seja, é um viés meu.

Há uns 20 anos, numa conversa com um amigo, que tinha uma empresa de ecoturismo, ele dizia que, mais velho, eu viraria consumidor de empresas de turismo. O fato é que isso não aconteceu. Pelo contrário, acho que hoje é ainda mais fácil viajar por conta própria.

Por outro lado, as viagens organizadas são um portão de entrada para quem nunca viajou com a sua magrela e sente algum tipo de temor de cruzar essa barreira. Na cicloviagem seguinte, a pessoa poderá até fazer uma viagem por conta própria, pois percebeu que era mais fácil do que imaginava. Ou então contratar novamente um pacote, pois isso será o melhor equilíbrio de satisfação para ela.

Os benefícios de se viajar por conta própria são muitos:

  • Montar um roteiro sob medida (lugares, grau de esforço, tempo, custo, etc).
  • Ir quando quiser.
  • Liberdade para mudar as coisas no meio do caminho.
  • Prazer de planejar a viagem.
  • Ir com pessoas que você conhece. Ou sozinho.
  • Lidar com situações inesperadas.
  • Ter um contato mais natural com os moradores locais.
  • Custo menores. Mais adiante vou comparar duas viagens que fiz com viagens similares que empresas brasileiras ofereciam.

As vantagens de se viajar por uma empresa também são numerosos:

  • Não é necessário conhecer os detalhes do local que você irá e nem planejar o roteiro.
  • Não precisar ter o equipamentos e, talvez, nem mesmo a bike. Tudo pode ser alugado.
  • Nível de esforço ajustado para pessoas que não pedalam tanto.
  • Suporte, caso algo dê errado (problema mecânico, acidente, etc).
  • Alguém, provavelmente um guia local, vai lidar com as diferenças culturais. Você provavelmente nem precisará falar algo do idioma local.
  • Atividades extras esperando por você no fim do dia. Muitos tours fazem churrascos ou jantares.
  • Não ter que levar alforges, a bagagem vai numa van.
  • Conhecer novas pessoas que fazem parte do grupo.

Diferença de custos

O custo da parte terrestre pode ser uma grande diferença entre essas viagens. Vou comparar as duas últimas cicloviagens que fiz para a Argentina (regiões de Bariloche e Salta) com dois pacotes oferecidos por agências brasileiras. Os roteiros eram bem parecidos, tanto em tempo de viagem como por lugares visitados. Obviamente não vou mencionar os nomes as empresas. Também é importante citar que fico quase exclusivamente em pousadas e hostels, sempre em quarto privado. Levei a barraca muito mais para situações onde não tivesse uma cama macia para eu dormir.

Em ambas viagens gastei algo em torno de US$ 500 para a parte terrestre (tudo incluído), por uma viagem de 9 ou 10 dias.

A primeira comparação sobre a viagem de Bariloche. Uma empresa do interior paulista oferece uma viagem semelhante em termos de duração, mas com muito menos quilômetros pedalados e com outras atividades (churrasco, caminhadas, etc) por US$ 1.800, uma diferença de 3,5 mais cara.

A viagem na região de Salta tem uma discrepância ainda maior. Minha viagem ficou em menos de US$ 500 e o pacote oferecido por uma empresa de São Paulo custava mais de US$ 8.000. Ok, provavelmente ficariam em hotéis mais bacanudos e teriam outros mimos, mas mesmo assim, a diferença é muito grande. Estamos falando de 16 vezes mais.

Ressaltando que estou falando só da parte terrestre, a passagem de avião está fora dessa conta. Outros custos que estão na minha conta (aquela merecida cervejinha no fim do dia) podem não estar incluídos no pacote.

Conclusão

Eu prefiro muito mais viajar por conta própria, gosto de pesquisar bastante antes (internet, livros, filmes) e de me virar durante a viagem. Me sinto confiante para lidar com as situações que podem surgir e gosto de interagir com uma experiência, digamos, mais autêntica.

Por outro lado, acho que a chegada de empresas de cicloturismo são uma ótima novidade, que vai permitir que mais pessoas tenham contanto com esse tipo de viagem. Num segundo momento, essas pessoas podem decidir que tipo de viagem preferem fazer.

E você, qual é a sua?

Recuperando o quadro – A solda

Recuperando o quadro – A solda

Algumas semanas antes de minha cicloviagem para Salta, percebi um trinco no meu quadro, bem no local que o tubo do selim (seat tube) se encontra com o tubo superior (top tube). Naquele momento, resolvi não arriscar e comprei um quadro novo para fazer a viagem de bike.

Trinco entre o seat tube e top tube

Trinco entre o seat tube e top tube

Meu filho mais novo, o Rafa, tem uma bicicleta com um quadro tamanho 15″ e está crescendo, logo a bike ficará pequena para ele. Conversando sobre isso, ele me falou “Pai, não dá para consertar o seu quadro azul? Gosto bastante dele”. A verdade é que eu também gosto desse quadro. Ele foi companheiro de muitas aventuras, o desenho é bonito, é bem construído, além de ter furação para bagageiro. Resolvi fazer um pesquisa sobre solda em quadros de alumínio. Logo percebi que os custos de uma solda profissional e da pintura ficariam maiores do que comprar um quadro básico novo. Mesmo assim, pela história do quadro comigo e por ser meio “maker/restaurador”, resolvi recuperar o quadro.

Li em vários lugares que a solda em alumínio é complicada e, dependendo de como for feita, pode enfraquecer o tratamento térmico da liga original.

Pesquisei no Google lugares que soldavam alumínio em Campinas, mas nenhum me passou confiança. Acabei chegando no Klaus Poloni, um conhecido framebuilder que também faz soldas em alumínio e outros metais. Ele é de Pedreira, cidade vizinha de Campinas, então, não seria muito complicado para mim.

Liga de alumínio 6061

Liga de alumínio 6061

Mandei umas fotos do trinco por email e conversamos por telefone. Segundo ele, a solda no meu quadro deveria resolver e, em 27 anos de experiência com solda, teve problemas somente com três quadros de ligas da série 6000 (meu quadro é feito com a liga 6061).

Para quem se interessar em saber mais sobre ligas de alumínio usadas em quadros, esses dois artigos são um bom começo: Conheça as ligas utilizadas na construção dos quadros de alumínio e Alumínio 6061 ou 7005? Qual é melhor?.

Num sábado de manhã, fomos eu e o Rafa levar o quadro e conhecer o Klaus pessoalmente. Além de ser uma lenda viva no mundo de quadros customizados, ele é bem gente boa. Na oficina tinha alguns quadros com tubos de cromo-molibdênio feitos ou em preparação. É um trabalho muito caprichado, como esse da foto abaixo. Além de solda em alumínio e aço, ele também solda titânio e magnésio.

Klaus Poloni, na sua oficina com uma de suas criações

Klaus Poloni, na sua oficina com uma de suas criações

Três dias depois de deixar o quadro lá, já estava pronto. Além da trinca no seat tube, o Klaus achou e soldou duas outras pequenas trincas no furo de alívio da abraçadeira de selim. O resultado está aqui embaixo:

A próxima etapa na recuperação do quadro é o meu filho escolher uma cor para a magrela e levarmos para pintar. Esta etapa conto aqui nesse post.

Contatos do Klaus Poloni:

Pedalando em San Francisco e Marin County

Pedalando em San Francisco e Marin County

Eu já havia estado alguns vezes em San Francisco (SF), tanto a trabalho, como em férias. Numa das vezes, em férias com a minha mulher, alugamos bikes e cruzamos a Golden Gate, chegando em Sausalito e voltando de ferry para SF. É um roteiro muito legal, que qualquer pessoa consegue fazer. Não exige nenhuma condição atlética especial. E pedalar pela Golden Gate é uma experiência que vale a pena.
Em maio de 2017, eu iria a trabalho para San Francisco e Vale do Silício. Ficaria duas semanas por lé. Duas semanas quer dizer que haveria um fim de semana no meio. 😉
Comecei a planejar o que fazer com esse fim de semana. Vi que havia muitas opções de trilhas do outro lado da Golden Gate, numa região chamada Marin County, mais especificamente, no parque Marin Headlands. Para quem atravessa ponte para Sausalito, fica do lado esquerdo.
O mountain biking nasceu nessa região de Marin County e, não por acaso, existe até hoje a marca Marin Bikes. Outras marcas, como a Gary Fisher e a Ritchey, também nasceram lá nos anos 1970 e 80.
Além do Marin Headlands, existe também uma montanha chamada Mount Tamalpais, com 780 m de altitude (e de ascensão, pois sai do nível do mar) por trilhas de terra. Também havia ciclovias por Sausalito e Tiburon, de onde sai outro ferry para SF.
Opções não faltariam para eu pedalar. Pesquisei várias empresas que alugavam bicicletas e a Blazing Saddles parecia ser a melhor. A Blazing Saddles tem pontos de retirada de bike por toda SF, mas normalmente são bikes híbridas, para um pedal urbano. Para bicicletas de MTB, a loja da Blazing Saddles que tem essas bikes é a de North Point Street, perto do Fisherman Wharf.
Reservei o domingo para pedalar todo o dia. O tempo ajudou, amanhecendo ensolarado e fresco. Como já sabia que o tempo muda bastante em SF, levei uma capa corta-vento, manguitos, e outros acessórios para poder pedalar em trilhas.
A loja só abriria as 8:00 da manhã. As 7:45, eu já estava na porta esperando para pegar a bike e cair na estrada. Peguei a magrela e fui seguindo pela avenida costeira até o parque Crissy Field, no pé da Golden Gate.

Golden Gate e Marin County, do outro lado

Golden Gate e Marin County, do outro lado

Apesar te já ter pedalado pela Galden Gate e ter passado de carro várias vezes por ela, passar novamente pedalando era uma emoção especial. Cruzei a ponte, parando no ponto de visitantes, no outro lado a baía.

Vista da Golden Gate e de SF do centro de visitantes

Vista da Golden Gate e de SF do centro de visitantes

Depois, segui a saída para Sausalito, mas pegando a esquerda por um viaduto que passa embaixo da estrada, no sentido oposto ao de Sausalito. Depois de subir um pouco, já aparece a placa de Marin Headlands. Um pouco mais adiante, entrei numa trilha a direita, a Smith Trail. Tem outros pontos de início de trilhas mais para frente também. O Marin Headlands é um emaranhado de trilhas, com bastante gente caminhando e pedalando nos fins de semana.
As trilhas são bem sinalizadas, com placas com nome, direção. Fui pegando trilhas diferentes, da Smith (ou Coastal) fui para a Rodeo e depois para a Miwok. A Miwok é bem longa e cruza toda a região. Eu saí dela, pela Old Springs Trail, indo em direção à Tennessee Trail. As trilhas são cheias de subidas e descidas, com alguns pontos bem íngremes. Em alguns, precisei descer para empurrar. Além disso, passava uma garotada de bike a todo vapor.

Sinalização de trilhas no Marin Headlands

Sinalização de trilhas no Marin Headlands

Cheguei a um ponto que deve ser popular para caminhadas e corridas, que iria até a praia de Tennessee, a 1.8 milhas dali. Resolvi ir conhecer a tal praia. Valeu o desvio, a praia de Tennessee tem uns 200 metros e é bem bonita.

Nas trilhas de Marin Headlands

Nas trilhas de Marin Headlands

Tennessee Beach

Tennessee Beach

Depois voltei pelo mesmo caminho e depois peguei novamente a Miwok, para a esquerda. Depois de algum tempo, peguei a estrada asfaltada a direita Marin Drive, passando por bonitas casas no meio de bosques, na encosta da montanha. Taí um lugar para se morar. Imagino que os preços sejam estratosféricos, mesmo para os padrões da Califórnia.

Parque Bothin Marsh, em Almonte

Parque Bothin Marsh, em Almonte

Desci pela Marin Drive, até o parque Bothin Marsh, em Almonte, onde havia dezenas de ciclistas fazendo o seu pedal dominical. Dica: se eu voltasse lá, não desceria à cidade para subir novamente. Seguiria pela trilha Miwok e depois pela Panoramic Highway, que sairia na trilha para o Mt Tamalpais.
Segui até Mill Valley, onde parei numa lanchonete para comer algo. Segui até a Old Mill Drive, um lugar espetacular, com casas no meio da floresta de pinheiros. Dali, comecei a minha subida até o Mt Tamalpais (ou Mt Tam, para os íntimos). É uma subida longa e bem inclinada pelas ruas do bairro.
Algum tempo depois, o asfalto acaba e o pedal continua por um precária estrada de terra, morro acima. O lugar tinha bastante de corredores de montanhas, famílias e ciclistas.

Subindo o Mt Tam e o skyline de SF no centro da foto

Subindo o Mt Tam e o skyline de SF no centro da foto

As vistas de San Francisco e da baía ficavam cada vez mais bonitas. Como o dia estava aberto, dava para ver bem longe. Mais acima, na crista do morro, dava para ver o Oceano Pacifico e a Baía de San Francisco. A trilha continuava serpenteando morro acima. No topo do Mt Tam tem algumas construções, que dava para ver do ponto que eu estava.

A baía de SF a esquerda e o Pacífico a direita

A baía de SF a esquerda e o Pacífico a direita

Meu plano era pedalar até o topo, por outro lado, teria que pegar um ferry em Tiburon para SF, chegando até as 17:00 para devolver a bike. Já eram mais de 3h da tarde. De onde estava a Tiburon eram uns 20 e tantos quilômetros. Comecei a ficar preocupado com o horário e resolvi voltar, antes de chegar no topo. A descida foi super rápida e bacana. Achei o caminho para Tiburon e fui pedalando, as vezes por ruas, as vezes por ciclovias.
Chegando em Tiburon peguei a Old Rail Trail, um antigo trecho de ferrovia que virou uma ciclovia e pista de caminhada. Um pouco mais adiante e cheguei no ponto de embarque do ferry. Vários outros ciclistas também esperavam para voltar para SF.

Embarcando em Tiburon

Embarcando em Tiburon

Normalmente o pessoal da Blazing Saddles já vai te oferecer um ticket do ferry quando você pegar a bike. É mais prático do que ter que comprar em Tiburon e o preço é o mesmo.

Ilha de Alcatraz

Ilha de Alcatraz

Como Tiburon está mais adentro da baía do que Sausalito, o ferry passa bem perto da Ilha de Alcatraz, dando para ver os detalhes dos prédios do presídio. Chegando em SF, foi devolver a bike e pegar um táxi até o hotel, pois as pernas estavam cansadas (e felizes) do dia pedalado.

Lobos marinhos no Pier 39

Lobos marinhos no Pier 39

Resumo do dia

roteiro pedalado

  • Distância: 65 km
  • Ascensão: 1.700 m

Links úteis

Pedalando pelas quebradas e vales de Salta

Pedalando pelas quebradas e vales de Salta

rIMG_20171127_155508087

Ir direto paras fotos (Google Photos): https://photos.app.goo.gl/2R9tt05cmMftjKkp2

Viagem feita entre 25/11/2017 e 03/12/2017

Planejamento

Em 2017 tínhamos (eu e meu irmão) um novo alvará das patroas para uma viagem de bike. Uma semana, ou 9 dias, contando os dois dias do fim de semana anterior. Tanto eu como o Ricardo temos trabalho, família e filhos que demandam bastante. Não dá para esticar muito o tempo sem o mundo nos lembrar de nossos papéis de “pessoas responsáveis”.

Tínhamos alguns novos interessados em fazer parte da viagem. O Brian, parceiro de outras viagens, e outros amigos estavam a fim de ir conosco, animados com os relatos das viagens anteriores. No final, por contingências do dia-a-dia, não puderam ir.

Eu, que era o responsável por pesquisar e planejar as rotas, buscava opções que fossem a altura do rolê de 2016, nos Lagos Andinos. Igualar a viagem a Bariloche e região seria um desafio grande, pois o volume de atrativos por km rodado naquela região é impressionante.

Primeiro pensei em cruzar o Salar de Uyuni e ir até o Salar de Atacama, pelo caminho de Ollague, passando por outros salares. Depois de ler vários relatos, que falavam do vento, do frio, dos caminhos de areira, da altitude e de outras dificuldades, fiquei desanimado. Mesmo assim esse roteiro continua na minha lista de desejos. Mais prá frente, com mais tempo, ainda passo por lá

Depois veio a ideia de cruzar os Andes pelo Paso Água Negra, de La Serena (Chi) a San Juan (Arg). Seriam 7 dias de dura viagem, passando por um passo de quase 4.800 m de altitude, com vários dias camping selvagem. Muitos dias isolados e a grande altitude pareciam um pouco over, com o risco de tornar a viagem mais sofrida do que prazerosa.

Dei uma olhada no site Bikepacking, que tem várias rotas pelo mundo, com vários destinos legais para a América do Sul. Acabei escolhendo uma rota recomendada pelos argentinos do site La Vida de Viaje, a rota de Cafayate a Salta. Eu já tinha passado por essa região numa viagem de carro com a família em 2011 e tinha ficado com vontade de voltar.

A região norte da Argentina tem várias características sensacionais para uma viagem de aventura. Ela conjuga a infraestrutura e segurança da Argentina, com uma paisagem andina majestosa e uma cultura que lembra muito a Bolívia e o Peru.

O roteiro original do La Vida de Viaje começava em Cafayate, seguia pela mítica Ruta 40, atravessando os Valles Calchaquíes e depois cruzava o Parque Nacional Los Cardones e descia pelas imperdíveis Cuesta del Obispo e Quebrada de Escoipe. Achei que dava para melhorar o roteiro, começando antes na Ruta 68 e cruzando a Quebrada de Cafayate. Em muitos lugares, essa quebrada é identificada por Quebrada de Las Conchas. Como concha é a gíria chula para o órgão genital feminino, imagino que o pessoal do turismo mudou o nome para Quebrada de Cafayate. Assim não há o risco de atrair um turista interessado em outras coisas menos familiares. 😉

Começaríamos na Puente Morales. Se você assistiu o filme Relatos Selvagens, é a ponte onde acontece a briga entre os dois motoristas. Se não me engano, na terceira história. Vale assistir.

Puente Morales, no filme Relatos Selvagens

Puente Morales, no filme Relatos Selvagens

Rota completa

Rota completa

Fechado o roteiro, teríamos 400 km de pedal em 6 dias e uma ascensão acumulada de 5.000 m, com o ponto mais alto a 3.500 m de altitude. Como poderíamos ter que fazer camping selvagens em duas noites, levaríamos equipamento de camping.

E o quadro da bike quebrou 20 dias antes da viagem

Num pedal com um grupo de ciclistas de Campinas, comecei a sentir o selim jogar demais, para a esquerda e direita, conforme eu pedalava. Fui ver o e havia um pequeno trinco na solda entre o seat tube e top tube. Putz, era tudo que eu não precisava a menos de 3 semanas da viagem. Falei com algumas pessoas sobre a possibilidade de soldar o quadro. Pesando os riscos e o quanto custaria, resolvi comprar um quadro semelhante ao finado Access XCL de tantas aventuras. Comprei um Giant ATX no Mercado Livre. Pela cor azul celeste, a magrela já ganhou o apelido de Celestina.

Atualização: depois da viagem, resolvi soldar e recuperar o quadro Access. A história está aqui.

RIP Access XCL (no Caminho da Fé)

RIP, Access XCL! (foto no Caminho da Fé)

Bienvenida, Celestina! (em ação no Valle Chalcaquí)

Bienvenida, Celestina! (em ação no Valle Chalcaquí)

A viagem

O nosso voo saía de Guarulhos as 8:30 no sábado, com uma parada de 4 horas em Buenos Aires e chegando em Salta as 17h. Eu já tinha combinado com um remis (tipo de táxi argentino) para pegar a gente no aeroporto de Salta e levar até o centro.

Montando as bikes no hostel em Salta

Montando as bikes no hostel em Salta

Chegamos no hostel, montamos as bikes e fomos dar uma volta na bonita praça central de Salta. Nosso objetivo para o dia seguinte era pegar um ônibus de Salta até a Puente Morales, na Ruta 68, escapando do trecho urbano, movimentado e feio, de Salta e cidades vizinhas. Fomos ao terminal de ônibus e compramos as passagens. Só deu tempo ainda de comer umas empanadas no Mercado Público e voltar para o hostel arrumar os alforjes.

Dia 1 – Puente Morales a Cafayate

Dia 1 - Km66-Cafayate

Dia 1 – Ruta 58 Km 66 – Cafayate

Domingo, 26/11/2017

O ônibus sairia as 6:50. Acordamos cedo, ainda deu tempo de comer algo no café da manhã do hostel e fomos pedalando até a rodoviária. Eu já tinha visto na internet que na Argentina existe a figura do maletero, uma pessoa responsável por pegar a sua bagagem e colocar no ônibus. O maletero é o dono dessa função, mesmo que você possa fazer isso por sua conta. Tinha visto também que  inevitavelmente teria que deixar uma propina (gorjeta) a ele. Nos custou AR$ 50 por bike (uns R$ 10). Dica: nem tente invadir a função do maletero para economizar uns pesos, será confusão e stress. No máximo, negocie, se achar que estão cobrando muito.

Ruta 68, Km 66 - preparando para cair na estrada

Ruta 68, Km 66 – preparando para cair na estrada

O dia estava bonito e o ônibus saía da zona urbana, com uma paisagem ainda bem verde, que ia ficando mais árida a medida que íamos para o sul. Ao mesmo tempo, também ficava mais bonita. Ficou tão bonita que resolvemos descer numa parada no Km 66,  antes da Puente Morales. Estávamos ansiosos para começar a pedalar. Passamos pela ponte, seguimos por um vale cercado de montanhas áridas.

Puente Morales

Puente Morales

Mais adiante, na formação Garganta del Diablo, encontramos uma família de franceses. Pai, mãe, um filho de uns 12 e o mais novo com 6 anos. Estavam viajando pelo mundo de bicicleta (cada um na sua) por um ano. Da América do Sul iriam para Austrália e sudeste asiático. Eles falaram de um outro grupo franceses que estava um pouco mais adiante.

Família de franceses na Ruta 68

Família de franceses na Ruta 68

Garganta del Diablo

Garganta del Diablo

Paramos na formação Anfiteatro. É impressionante como camadas de rocha foram entortadas por sismos como se fossem panquecas. Fizemos uma parada para um lanche rápido no Mirador 3 Cruzes, com uma bonita vista para o vale.

Grupo de franceses

Outro grupo de franceses. O garoto de vermelho tem 4 anos

Mais adiante encontramos o tal grupo de franceses. Duas mulheres e 4 crianças. Eles iam bem separados pela estrada, com uns pequenos para trás e as duas mulheres mais adiante. O menor dos meninos tinha 4 anos e também tinha que pedalar, só que num pedal reclinado na bike da mãe. Eles iriam até Santiago (Chi), mais de 1.400 km ao sul! Esses franceses são fodas. Era a segunda viagem que encontrávamos cicloviajantes franceses que impressionavam a gente. Na última viagem, encontramos o Roger, um francês de 76 anos que pedalava por um mês pelo Chile e Argentina. Já escolhi nascer francês na próxima encarnação.

Quebrada de Cafayate, Ruta 68

Quebrada de Cafayate, Ruta 68

Seguimos pedalando pela Quebrada de Las Conchas, ops, de Cafayate. Como era o primeiro dia de pedal, a bike parecia mais amarrada do que o normal. O trecho todo era de um aclive suave, sem grandes subidas.

Alguns quilômetros antes de Cafayate começa uma ciclovia que vai bordeando os vinhedos da região e passando por algumas vinícolas.

Cafayate é uma cidade pequena (10 mil habitantes) e simpática, com mais de 20 vinícolas. É a segunda maior produtora de vinho da Argentina, depois de Mendoza. O vinho típico de lá é o torrontés.

Achamos o nosso hostel, tomamos um banho de piscina gelada, mesmo numa tarde ensolarada de novembro, e fomos comer um cabrito com vinho torrontés na praça. Cabrito pelo jeito é o prato tradicional de lá. Não decepcionou.

Para comemorar o primeiro dia de pedal, compramos uma garrafa de vinho e empanadas. Ficamos batendo papo noite adentro no pátio do hostel.

Resumo do dia: 71 km, 17 km/h, ascensão de 1.193 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1291829277

Dia 2 – Cafayate a Angastaco

Dia 2 - Cafayate-Angastaco

Dia 2 – Cafayate-Angastaco

Segunda-feira, 27/11/2017

Rotina de cicloturista: acordar cedo, arrumar as coisas, tomar um café da manhã reforçado e pegar a estrada. O plano do dia era dormir em Santa Rosa (seria camping selvagem) ou seguir para Angastaco, já depois da Quebrada de las Flechas.

Vinhedos de Cafayate ao lado da Ruta 40

Vinhedos de Cafayate ao lado da Ruta 40

Pegamos a Ruta 40, com asfalto até o vilarejo de San Carlos. O lugar é bem simpático, com wifi gratuito na praça e um bem cuidado camping municipal, onde pegamos água.

Alguns quilômetros depois de San Carlos, começa o maledeto rípio. O rípio dos Valles Calchaquíes consegue ser ainda pior. Ou você vai pela borda arenosa ou pelo meio com costela de vaca, conhecido lá como serrucho. O esforço para pedalar aumenta muito.

Ruta 40 com rípio e costela de vaca

Ruta 40 com rípio e costela de vaca

Eu tinha estudado antes o Google Maps para ver quais seriam os pontos para comer ou dormir no caminho. Havia muitas localidades com nome no mapa. Várias dessas localidades eram vilarejos, como Animaná, San Carlos e Payogastilla. Várias outras eram somente uma placa na estrada e algumas casas de adobe, como San Felipe, San Rafael, La Merced, Las Viñas, Santa Rosa e Los Sauces. Nada de vendas, restaurantes ou pousadas. As vezes, nem gente tinha.

Bem vindo a San Rafael! #SQN

Bem vindo a San Rafael! #SQN

A paisagem e as casas de adobe lembravam um cenário de filme mexicano. Se o Zorro ou o Sargento Garcia aparecessem no caminho, não estranharia. O que chamava a atenção é que o vale era muito verde e cultivado, porém, alguns metros para fora dele, era uma paisagem seca de deserto.

Capela de La Merced, Ruta 40

Capela de La Merced, Ruta 40

Paramos para comer um lanche em La Merced. Um morador local nos falou que tinha água atrás da capela. Fomos lá e enchemos as garrafas.

Chegamos em Santa Rosa, que também era só um punhado de casas. Até tinha uma opção de hospedagem, da “Red Turística Campesina”, mas estávamos bem e resolvemos cruzar a Quebrada de Las Flechas para chegar em Angastaco.

Casa abandonada depois de Santa Rosa

Casa abandonada depois de Santa Rosa

A Quebrada de Las Flechas é um daqueles lugares espetaculares que, por si só, vale a viagem. Parece uma paisagem lunar ou marciana, sei lá, com placas de rocha que foram levantadas por sismos. Eram várias cores de rocha e uma secura ainda maior do que antes.

Um belga parou o carro e nos ofereceu água, puxando conversa, animado por nos ver ali. Ele tinha feito uma cicloviagem pela Colômbia, uma tal Ruta del Café, de Medellin a Bogotá. Eu não conhecia essa e me pareceu outra opção interessante para um rolê na América do Sul.

O trecho da Quebrada de Las Flechas tem algumas subidas mais íngremes e arenosas, mas conseguimos passar por todas pedalando. Tudo bem que contamos com a ajuda de um vento de cauda em alguns momentos.

Um pouco adiante, aparecem as placas indicativas para Angastaco, que fica alguns quilômetros fora da Ruta 40. Eu não tinha reservado nada lá e fomos achar algo. Como é um vilarejo minúsculo (1.000 habitantes), não foi difícil achar um hotelzinho (mas também não tinha muita opção).  Wifi público na praça para os dependentes de conexão. 🙂

A cidade parecia vazia. Tivemos que passar nuns quatro restaurantes até achar algum aberto. Mas valeu a busca, encaramos um saboroso matambre para repor as proteínas.

Resumo do dia: 74 km, 12 km/h, ascensão de 1.180 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1293096686

Dia 3 – Angastaco a Molinos

Dia 3 - Angastaco-Molinos

Dia 3 – Angastaco-Molinos

Terça-feira, 28/11/2017

O dia seria relativamente curto, com pouco mais de 40 km até Molinos, sem grandes subidas. Só teria o chato serrucho para dificultar um pouco.

Ruta 40, entre Angastaco e Molinos

Ruta 40, entre Angastaco e Molinos

Seguimos pela Ruta 40, onde era gritante o contraste entre os campos verdes irrigados por canais e as montanhas secas. Passamos por uma fazenda chamada Finca del Sol, que parecia um cenário de filme de cowboy: montanhas avermelhadas, cavalos soltos, árvores ressequidas e um ar de lugar esquecido por deus.

rIMG_20171128_102713796

Encontramos um senhor argentino de uns 60 anos chamado Pablo. Ele pedalava uma MTB com o câmbio quebrado, na prática, com uma só marcha. Puxamos conversa. Do Brasil, ele só conhecia o Neymar. Ele morava em San Carlos, uns 50 kms antes, e fazia a verificação do uso da água pelos agricultores. Quando notei que ele não trazia uma garrafa de água, ofereci um pouco da minha, que ele prontamente aceitou. Antes de beber, despejou um pouco no solo. Fez o mesmo após beber. Perguntei o que era aquilo e ele falou “Uma oferenda para Pachamama, para que nunca nos falte“. É impressionante que, mesmo depois de 500 anos da chegada dos espanhóis, a cultura incaica ainda sobreviva.

Pablo e eu pela Ruta 40

Pablo e eu pela Ruta 40

Como a distância do dia era curta, as 12:30 já estávamos em Molinos. Como chegamos cedo, o quarto na pousada não estaria pronto até as 14:00. Fomos para a pracinha da cidade usar o wifi e mandar notícias para o Brasil. Tinha um motorhome com placa da suíça, provavelmente usando o wifi também.

Molinos, um brinde à viagem!

Molinos, um brinde à viagem!

Uma coisa que começava a chamar a nossa atenção era que, mesmo em lugares tão pequenos, numa região pobre (dá para pensar que é equivalente ao Sertão Nordestino), as cidades eram bem cuidadas, com escolas bem mantidas (muitas vezes escolas rurais no meio do nada), ruas sem buracos, sensação de segurança e uma infraestrutura visível, como os campings municipais e o wifi público. Era evidente a diferença se comparássemos ao Brasil. Isso tudo, mesmo com a Argentina estar em crise desde os anos 70…

Um pouco mais tarde fomos conhecer o camping municipal e lá estava o motorhome, com um casal de uns 60 anos. Nos deram um “hola” e fomos conversar. Eram suíços aposentados, o Robert e a Ursula. Ficariam 3 anos viajando por toda a América do Sul. Um casal gente boa e de bom papo. Nos convidaram para ir lá a noite para continuar a conversa, o que fizemos. Conversamos bastante, trocamos umas dicas de viagem, demos boas risadas e combinamos de nos encontrar alguns meses depois em São Paulo, que eles já conheciam e gostavam muito.

Andando por Molinos descobrimos que havia duas opções de estrada até Seclantás, o próximo vilarejo. Uma era a Ruta 40, que ia por altos e baixos, longe do vale. Segundo o Robert, não tinha atrativos especiais. A outra opção era a velha Ruta 40, que seguiria pelo vale e passaria por El Churcal, onde tem ruínas dos povos Chalchaquíes. Não pensamos duas vezes. Se a Ruta 40 já é bacana, imagina a antiga Ruta 40!

Resumo do dia: 42,6 km, 13,5 km/h, ascensão de 670 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1294088092

Dia 4 – Molinos a Cachi

Dia 4 - Molinos-Cachi

Dia 4 – Molinos-Cachi

Quarta-feira, 29/11/2017

Saímos da pousada e seguimos a dica do Jesus, um guia local: passamos pela igreja, pegamos uma pequena ponte e seguimos pelo leito do rio Molinos, que tinha muito mais areia do que água. Aliás, só areia e plantações no leito. Um pouco mais adiante, cruzamos a Ruta 40 e pegamos a velha ruta que passaria por El Churcal.

Saindo de Molinos, pelo atalho

Saindo de Molinos, pelo atalho

Pedalamos por bonitos vales, casas de adobe, escolas rurais e até encontrarmos outro senhor de bicicleta. Ele estava com rodas de bicicleta de estrada numa estrada arenosa. Se com os meus pneus 1.75″ já era duro de pedalar…

rIMG_20171127_110821976IMG_20171129_083040508

Perguntei sobre as ruínas e ele nos indicou o lugar correto (uns 2 Km depois da escola). Deixamos as bikes sob uma árvore e subimos o pequeno morro para conhecer as ruínas. Esse lugar foi um dos últimos redutos de resistência dos povos calchaquíes contra os invasores espanhóis. As ruínas ficam no alto de uma colina, com ampla visão do vale, mas longe da água. Quem quiser conhecer mais sobre os Calchaquíes, esse verbete da Wikipedia em espanhol tem bastante coisa.

Vista da estrada das ruínas de El Churcal

Vista da estrada das ruínas de El Churcal

Seguimos o pedal e chegamos num local curioso, onde antigamente era um moinho de grãos. Havia mais de 10 pedras de moinho por lá e cada uma delas deve pesar mais de uma tonelada. O lugar estava abandonado, provavelmente porque a água havia sumido.

Antigo moinho abandonado

Antigo moinho abandonado

Pedalamos mais alguns quilômetros e chegamos a Seclantás, mais um bonito vilarejo com menos de 1.000 habitantes. De novo a sensação de coisa pública bem cuidada era evidente. Entramos numa escola para pegar água. Ela era tão bem cuidada que duvido que as escolas de São Paulo (o estado mais rico) sejam tão bem cuidadas assim.

Aproveitamos que já era quase hora do almoço e fomos comer umas empanadas no El Rancho. O Ricardo já pediu uma “Coca-Cuela”, no mais castiço portunhol. Batemos um papo com o dono e seguimos viagem. Havia duas opções para seguir ao norte, a Ruta de los Artesanos e a Ruta 40. Elas se juntam 12 km mais adiante. Resolvemos seguir pela dos artesãos.

Na Ruta de Los Artesanos

Na Ruta de los Artesanos

Voltando a Ruta 40, parecia que ela estava mais seca do que já era. Passamos por mais alguns vilarejos e logo mais chegamos a Cachi.

Cachi é a cidade mais interessante e visitada do vales Calchaquíes. É um lugar realmente muito bacana, com muitos prédios coloniais caiados, todos brancos, com muitos bares, restaurantes e turistas de muitos lugares. Depois de tomar um bom banho para tirar a poeira, fomos comer um belo sanduba na praça e visitar o museu arqueológico e a igreja.

Igreja de Cachi

Igreja de Cachi

Era a final (segundo jogo) da Libertadores, entre Grêmio e Lanús. Entramos num bar, pensando em assistir com uns tiozinhos argentinos, mas mudamos de ideia. O Grêmio já estava ganhando, os muchachos estavam bebendo bem. Ter que explicar que, mesmo sendo brazucas, não éramos hinchas do Grêmio parecia meio arriscado. Fomos assistir o resto do jogo no hostel.

No dia seguinte dormiríamos num camping selvagem no Parque Nacional Los Cardones, sem comida e provavelmente sem água. Compramos água extra e mantimentos para os dois dias seguintes.

Resumo do dia: 52,2 km, 12,6 km/h, ascensão de 905 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1295557886

Dia 5 – Cachi a Piedra del Molino

Dia 5 - Cachi-Piedra del Molino

Dia 5 – Cachi-Piedra del Molino

Quinta-feira, 30/11/2017

Esse era o dia mais desafiador da viagem. Teríamos que pedalar por um lugar remoto, sem água, a mais de 3.000 m de altitude e encontrar algum lugar para montar a barraca. Eu tinha pesquisado nas imagens de satélite do Google Maps e parecia que havia algumas construções antes de chegar na Piedra del Molino. Lá seria o provável destino do dia. Também tinha lido que existiam alguns pontos de ônibus que seriam bons pontos para dormir com a barraca, por serem quase fechados, protegendo contra o vento.

Nosso local de camping na RP 33

Nosso local de camping na RP 33

Saímos de Cachi com as bikes mais carregadas do que o usual e seguimos para Payogasta, último posto da civilização. Paramos lá para pegar mais água e usar o wifi público. Logo depois de Payogasta, nos despedimos da Ruta 40 e pegamos a Ruta Provincial 33. A boa nova é que seria tudo asfaltado até a Piedra del Molino.

Subindo pela RP 33

Subindo pela RP 33

Subindo pela RP 33

Subindo pela RP 33

Começamos a subir sem cessar e ganhar altitude. Já estávamos a 3.000 m e tudo parecia estar normal. Comemos um lanche num ponto de ônibus, onde havia uma placa para um lugar chamado Tonco. Se onde estávamos já era bem desolado, imagino o que seria Tonco, que seguia por uma estrada de terra aparentemente para o meio do nada.

Recta de Tin Tin

Recta de Tin Tin

Um pouco depois chegamos na famosa Recta de Tin Tin, com seus 16 km, construída pelos Incas há 500 anos. É um trecho completamente reto, que fazia parte do chamado Qhapaq Ñan, um conjunto de estradas incaicas com mais de 30.000 km pela América do Sul! Mais sobre o Qhapaq Ñan aqui, aqui e aqui.

 

Campo de cardones, no Parque Nacional Los Cardones

Campo de cardones, no Parque Nacional Los Cardones

Assim que entramos na Reta de Tin Tin, apareceu um desafio extra, um vento frontal que nos acompanhou por 30 km até o fim do dia. A velocidade média caiu bastante. Era muito difícil tanto pedalar como até conversar. O vídeo abaixo dá uma ideia.

A melhor coisa nessa hora é ter uma postura estoica, não se abalar e tocar em frente. Afinal, nós escolhemos estar ali e estávamos fazendo o que gostávamos.

Cachipampa, RP 33

Cachipampa, RP 33

Após o fim da reta de Tin Tin, parou uma camionete de um guardaparque. Ele perguntou se estava tudo bem conosco. Dissemos que sim e perguntamos se ele tinha água. Ele não tinha e seguiu viagem. Uma hora e tanto mais tarde, ele voltou com uma garrafa PET cheia de água para nós. Ele havia dirigido até a casa dele, a 25 km e buscado água. Muito bacana! Com certeza, isso não está na descrição do cargo dele.

Guanacos selvagens em Cachipampa

Guanacos selvagens em Cachipampa

Cruzamos uma região chamada Cachipampa, o vento continuava inclemente, a temperatura caía e já estávamos cansados, sem saber o quanto faltava para o lugar do acampamento e se poderíamos acampar lá. Para nos animar um pouco, apareceu um rebanho de guanacos selvagens, que nos olhavam com desconfiança.

Centro de visitantes no PN Los Cardones

Centro de visitantes no PN Los Cardones

Finamente chegamos no ponto que dormiríamos. Descobrimos que as construções nas imagens de satélite eram o Centro de Visitantes do PN Los Cardones. Tudo estava fechado e não havia ninguém. Entramos e achamos um local coberto para montar a barraca.

Centro de visitantes no PN Los Cardones

Barraca no centro de visitantes no PN Los Cardones

Fomos dar uma explorada no local e havia 3 casas para os guardaparques. Elas estavam mobiliadas, como se morassem pessoas ali, com mesas com pratos sujos, brinquedos pelo chão e coisas assim. Parecia que tinham abandonado o lugar às pressas. Para completar o quadro de suspense, tinha um velho cemitério há uns 100 m de onde estávamos.

Cemitério do lado do nosso acampamento

Cemitério do lado do nosso acampamento

Além de estar tudo fechado nas casas, parecia que o lugar foi projetado para não deixar qualquer banco para se sentar ou uma torneira para pegar água. Era a prova de visitantes não convidados.

Centro de Visitantes por outro ângulo

Centro de Visitantes por outro ângulo

A noite já estava chegando, improvisamos um lugar para ascender o fogareiro, fizemos a comida e já entramos nos sacos de dormir, pois a temperatura começava a cair mais rápido com o sol baixando.

No meio da madrugada, ouvimos um barulho perto da barraca. Parecia um jumento pastando. Minha bike estava protegida entre a barraca e uma carreta, mas a do Ricardo estava mais exposta. Meio sério, meio para sacanear, falei que o jumento estava comendo o selim da bicicleta dele. O Ricardo soltou um palavrão e saiu apressado da barraca para espantar o jumento. Eu fiquei rindo da situação.

Resumo do dia: 53,2 km, 9 km/h, ascensão de 1.305 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1297891728

Dia 6 – Piedra del Molino a El Carril

Dia 6 - Piedra del Molino - El Carril

Dia 6 – Piedra del Molino – El Carril

Sexta-feira, 01/12/2017

Depois de tudo que havíamos pedalado até ali, o sexto dia de viagem seria só alegria. Pedalaríamos pouco mais de 1 km, subindo até a Piedra del Molino, ponto culminante da viagem, a quase 3.500 m de altitude. Depois seria uma longa descida de 60 km pela Cuesta del Obispo e Quebrada de Escoipe. O plano original era pedalar até Salta, mas o Ricardo acordou meio doente e resolvemos seguir direto para El Carril, mais perto, onde arrumaríamos um transporte até Salta.

Acordamos bem cedo, umas 6 h. Havia uma grossa neblina cobrindo tudo. Resolvemos voltar para a barraca e esperar abrir, pois a vista da Piedra del Molino era muito bonita para se perder.

O Centro de Visitantes continuava sem ninguém, mesmo as 8h da manhã. Esquentamos um café e comemos algo. O tempo já tinha aberto e caímos na estrada.

rIMG_20171201_084735501_HDR

rIMG_20171201_084205898_HDR

Chegamos rapidamente na Piedra del Molino. Paramos para tirar várias fotos e então começou a diversão da descida, agora de novo em estrada de terra, o que até prefiro, pois fica mais aventureiro. As vistas das curvas que iam serpenteando vale abaixo eram impressionantes. Esse é o tipo de lugar que de passar pedalando já vale a viagem.

Cuesta del Obispo

Cuesta del Obispo, o ponto no meio da estrada é o Ricardo

rIMG_20171201_090237479_HDRrIMG_20171201_094907386_HDR

Zigzags na Cuesta del Obispo

Era uma sequência sem fim de zigue-zagues. A medida que descia, a paisagem mudava. No alto era mais árido e, mais abaixo, ficava mais verde. A Quebrada de Escoipe era uma mistura de verde vegetação e vermelho das montanhas. Depois ficava ainda mais verde, lembrando a Serra do Mar paulista.

Quebrada de Escoipe

Quebrada de Escoipe

Quebrada de Escoipe

Quebrada de Escoipe

Paramos para comer uma quesadilla num restaurante de estrada, onde muitas excursões turísticas paravam. Nessas horas você vira um misto de herói e louco para as tiazinhas aposentadas das excursões.

Quebrada de Escoipe

Depois de bastante descida, a estrada fica plana e segue por Chicoana até El Carril. Chegando lá, perguntamos se dava para pegar um ônibus para Salta. Tivemos respostas contraditórias. Uma moça disse que sim, mas um policial disse que não, que teríamos que pegar um ônibus metropolitano, mas que esses ônibus não levariam as bikes. Como tínhamos algum tempo até o horário do ônibus passar, fomos comer empanadas e avisar as famílias que havíamos acabado a viagem sãos e salvos, sem sequer um pneu furado.

O busão da Flecha Bus passou e não parou, com o motorista fazendo sinal de negativo com o dedo. Fomos procurar uma remisera para negociar um carro até Salta. O problema foi achar um carro que coubesse nós e as bikes. Depois de um tempinho, achamos um por um preço justo.

Uma hora depois já estávamos no nosso hostel em Salta. Depois do banho, fomos comer alguma coisa e tomar umas cervejas Salta para comemorar mais uma cicloviagem realizada.

Resumo do dia: 66,8 km, 20.4 km/h, ascensão de 363 m e descenso de 2.536 m!

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1297890248

Bônus – Salta e rolê de carro por Jujuy

Era sábado tínhamos o dia livre. Fomos ao Museu de Arqueologia de Alta Montanha e demos uma volta de bike por Salta. Depois, compramos carne, carvão e cerveja para fazer um asado argentino no hostel, que já é uma tradição nas viagens pela Argentina.

No domingo alugamos um carro e fomos em direção a fronteira com o Chile, via Paso Jama. Seguimos até as Salinas Grandes, passando por Purmamarca e a Cuesta de Lipan, outra estrada impressionante.

No retorno ao hostel encontramos um grupo de 7 brasileiros. Eles vinham de Ribeirão Preto numa Kombi e ficariam viajando por 3 semanas pelo norte da Argentina e Atacama. Era um pessoal super animado, viajando num estilo realmente raiz. Para dar um ideia, traziam uma panela de pressão para fazer feijão nas paradas. 🙂

Conclusão

A província de Salta é uma região espetacular em termos de paisagens e cultura. É segura, com boa infraestrutura e perto, para nós brasileiros. Dá para se chegar de avião, ônibus ou até com o seu carro (dá para ir de SP a Salta em 4 dias de viagem). Ou pedalando, se você tiver mais tempo.

O roteiro que percorremos junta vários pontos imperdíveis da região, como a Quebrada de Cafayate, a Ruta 40, os vilarejos dos Valles Calchaquíes, a Quebrada de las Flechas, a Recta de Tin Tin, a Piedra del Molino, a Cuesta del Obispo, a Quebrada de Escoipe e a cidade de Salta. Colocar alguns dias a mais e visitar (de carro ou excursão) as Salinas Grandes, Purmamarca e as cidades da Quebrada de Humahuaca fazem desse roteiro um top mundial.

Pedalar pela Ruta 40 pelos Valles Calcaquíes tem um gosto de aventura que poucas viagens proporcionam. Dito isso, é uma viagem dura. A secura, o rípio, a altitude, o vento e a temperatura (muito calor ou frio, dependendo da época) dão uma dificuldade extra à viagem. Não é para principiantes. Também não precisa ser superatleta, coisa que estou longe de ser. É importante estar preparado para longos dias de pedal, em condições muitas vezes adversas. E até achar graça dos perrengues. Se você estiver com esse espírito, vai ser uma viagem para ficar na sua memória!

Dicas e recomendações

Quando ir

Por ser uma região seca, com poucas chuvas, dá para ir quase o ano todo. Eu evitaria os meses de janeiro e fevereiro, tanto pelo calor como por ser alta temporada de férias, com muito movimento de carros. Imagino que deva fazer bastante frio no inverno, pela altitude. Não pesquisei sobre o inverno, porque iríamos em novembro.

Com que bicicleta?

Fui com uma MTB aro 26″, 27 marchas, freio v-brake, suspensão dianteira e pneus 1.75″. É uma configuração bem versátil, para terra e asfalto. No serrucho e na areia da Ruta 40, um pneu 2.0″ (ou mais largo) seria bem mais confortável.

Não espere encontrar bicicletarias nos vilarejos dos Valles Calchaquíes. Se tiver alguma coisa, será só o básico. Se precisar de algo um pouco diferente, procure em Salta Capital.

Onde dormimos

Todos tinham wifi e roupa de quarto e toalha. Quase todos reservados pelo Booking.com ou HostelWorld.com.

Transporte

Gastos

Por pessoa:

  • Passagem SP-Salta-SP: LATAM, ~US$ 300
  • Parte terrestre: tudo, incluindo também as despesas no Brasil para ir até o aeroporto: ~US$ 450

O câmbio estava:

  • R$ 1 = AR$ 5,35
  • US$ 1 = AR$ 17,45, os cambistas de rua pagavam AR$ 18 por US$ 1.

Dicas sobre a Argentina

Valem as mesmas da outra cicloviagem, que estão aqui.

O que levamos

Basicamente o mesmo que listei aqui. A mais, levei um fogareiro e uma caneca de camping.

É isso aí, pessoal! Boas cicloviagens!

Cicloviagem Lagos Andinos – Dicas e considerações

Cicloviagem Lagos Andinos – Dicas e considerações

Preparação

Preparação física

Diferentemente de uma cicloviagem de longa duração (meses ou anos), onde o preparo físico se adquire na própria viagem, um roteiro com tempo curto e contado requer um certo preparo prévio.

Os meses que antecederam a viagem foram bem atribulados para mim, com muitas viagens profissionais, compromissos e outras coisas que atrapalharam uma rotina de treino regular. Com 30 dias de antecedência comecei a fazer treinos mais longos nos fins de semana, pedalando de 60 a 90 km. Durante a semana, eu fazia pedais mais curtos ou corridas. Isso foi suficiente para a viagem, talvez pela memória do corpo de vários anos de prática de atividades de endurance (esforço médio, longa duração).

De todo modo, recomendo que se faça uma preparação adequada. Começando uns 4 meses antes e aumentando a frequência dos treinos e aumentando também a quilometragem.

Preparação psicológica

Estar preparado psicologicamente para longos dias de pedal, subidas, vento contra, possíveis problemas mecânicos,desconforto físico, chuva, frio, calor e outras dificuldades comuns numa cicloviagem é tão importante quanto a preparação física.

Acredito que as pessoas que se interessam por cicloviagem sabem lidar bem com essas dificuldades, mas é importante testar essa capacidade antes de se meter no meio dos Andes. Fazer pedais longos ou travessias (Cunha-Paraty, Estrada da Petrobrás em Salesópolis, etc) são situações boas para testar a sua capacidade de lidar com o perrengue. E é bem mais fácil abortar a viagem e voltar para casa se isso não for a sua praia.

Quando ir

A melhor época para ir a região de Bariloche é entre outubro e abril. Nos outros meses, a chance de pegar muito frio ou chuva é muito maior. Mesmo assim, é importante saber que o tempo muda muito por lá por estar próximo da cordilheira e por ser mais exposto às massas polares. Já peguei 5º C em janeiro. Um dia pode fazer sol e céu azul e no próximo amanhecer frio e chuvoso.

Vá preparado para essas mudanças de tempo, com roupas adequadas. Vale consultar sites de meteorologia para checar a quantidade de chuva e temperatura média para o período que pretende ir.

Temporada de férias de verão

A temporada de verão começa em dezembro e vai até fins de fevereiro. Os hotéis e estradas estarão mais cheios e os preços serão mais altos. Se puder, tente ir de outubro a novembro ou de março a abril.

Horas de luz solar

Uma coisa muito importante numa viagem de bicicleta é o período de luz natural. Via de regra, quanto mais, melhor. Em novembro o nascer do sol é logo após as 6:00 e o por do sol às 21:00, ou seja, 15 horas de luz!

Este site abaixo mostra o horário de nascer e por do sol em qualquer lugar numa determinada data.

Nascer e por do sol em Bariloche em novembro:

http://www.timeanddate.com/sun/argentina/bariloche?month=11&year=2016

Custos

Direto ao ponto, a nossa viagem custou US$ 520 para cada um. Isto considerando absolutamente tudo, desde que saí do portão da minha casa e voltei. Ou seja, da gasolina de casa ao aeroporto até as cervejas tomadas e qualquer outro gasto. Foram 9 dias inteiros de viagem. Poderíamos até ter gastado menos se tivéssemos ficado em campings (só ficamos em pousadas), feito a própria comida e economizado em pequenas coisas. Além desse custo, tivemos o da passagem aérea (ver abaixo).

Comparativamente, tem uma empresa do interior de São Paulo que organiza uma viagem de cicloturismo na região de Bariloche com uma duração semelhante. O pacote custa US$ 1.800 (sem aéreo), além de outros custos que você certamente terá durante a viagem.

Referência de câmbio

Em novembro de 2016 a referência de câmbio era:

Pesos argentinos:

  • R$ 1 = ~AR$ 5
  • US$ 1 = ~AR$ 15

Pesos chilenos:

  • R$ 1 = ~CHP 200
  • US$ 1 = ~CHP 650

Passagens aéreas

Compramos as passagens aéreas São Paulo/Buenos Aires/Bariloche pela Aerolineas Argentinas. Compramos com 5 meses de antecedência. Saiu US$ 250 mais taxas de embarque.

Eu nunca tinha voado com a Aerolineas. Ela não deixou uma impressão boa: poltronas apertadas, serviço de bordo fraquíssimo e ausência completa de entretenimento de bordo.

Regras de bagagem da Aerolineas:

  • Somente um volume despachado de até 23 kg (a mala-bike, com alforjes, saco de dormir e outras coisas, pesou 19 kg)
  • Uma bagagem de bordo até 5 kg (ninguém verifica se você está com duas ou mais)
  • Cada volume extra despachado custa US$ 120 (fuja como o diabo da cruz!)

Argentina e argentinos

Esqueça todas as besteiras que você já ouviu do Galvão Bueno sobre a rivalidade Brasil-Argentina. Vá com a mente aberta para a Argentina. É um país espetacular em termos de paisagens, provavelmente com mais variações do que o Brasil. Eles só não têm praias tropicais.

Os argentinos normalmente gostam de brasileiros (nos veem como um povo alegre) e, se você também for simpático, verá que temos muitíssimo mais coisas em comum do que imagina. Além do mais, a Argentina tem algumas coisas muito bacanas, como alfajor, a carne (as raças de bois são diferentes dos do Brasil), empanadas, doce de leite, sorvete e outras coisas que descobrirá.

Além de me sentir muito bem recebido na Argentina, em geral me sinto muito seguro. Nessa viagem, em momento algum segurança foi uma preocupação. Não nos sentimos em risco de sermos roubados em lugar algum.

Língua espanhola

Apesar do português e do espanhol serem línguas bem próximas, vale a pena estudar um pouco de espanhol para se virar melhor e conquistar a simpatia dos argentinos e chilenos, mesmo que sejam apenas algumas frases mais comuns. Será um investimento que se pagará rapidamente.

Hospedagem

A infraestrutura de hotéis, pousadas, hostels e campings é muito desenvolvida na Argentina e no Chile. Uma coisa diferente do Brasil é que existem muitas opções de camping em todos os lugares. Os argentinos gostam de acampar. Não é como no Brasil, onde camping é um tipo de hospedagem para quem não tem dinheiro para um hotel. Os campings geralmente ficam em lugares bonitos e espaçosos.

O preço médio que pagamos para um quarto para dois, com banheiro e café da manhã foi de R$ 120. Seria impossível achar lugares parecidos a esse preço no Brasil.

Estradas

As estradas que passamos (coloquei os códigos das estradas nos posts dos dias de viagem) eram muito bem mantidas, sem buracos, e com pouco movimento. Por outro lado, os acostamentos asfaltados, como existem nas rodovias paulistas, não existem por lá. Em alguns lugares do Chile as estradas tinham ciclovias.

Os motoristas eram bem cuidadosos, se afastando das bicicletas. Muitas vezes eles buzinavam para nos incentivar.

Transportando a bike no avião

Empacotar a bike para a viagem é um ponto bem importante, pois chegar com um equipamento danificado é um pesadelo para qualquer cicloturista. Ainda mais se você tiver um tempo contado como nós.

O método que uso é simples e eficiente. Comprei um mala-bike pelo eBay que é feito de uma lona sintética. É um sacolão, mas é leve, barato e fácil de guardar. Existem opções rígidas, que protegem melhor a bike, mas são pesados, caros e volumosos.

Além de desmontar a roda da frente, guidão e pedais, nessa viagem desmontei também a gancheira, deixando o câmbio traseiro solto e salvo de impactos. Na viagem para Cuba, a gancheira da minha bicicleta entortou um pouco, pois o câmbio traseiro fica saliente e absorve os impactos.

É fundamental também proteger os tubos, stays e demais partes com papelão. Isso evita riscos na bicicleta e as partes pontiagudas as peças não furarão (melhor, furarão pouco) a mala-bike.

Murche os pneus para eles não estourarem durante o voo, pois o compartimento de carga do avião não é totalmente pressurizado.

O Antonio Olinto tem um vídeo bem legal sobre como empacotar a bicicleta:

Embalando a magrela

Embalando a magrela

bike-embalada

Bike embalada