Viajando de bicicleta em Cuba

Hay que pedalear pero sin empujar jamás!

A biketrip de 2015

Depois de nossa última viagem de bicicleta no Caminho dos Diamantes (ver relato aqui), ficamos planejando a próxima. Tínhamos várias ideias de destinos no Brasil e fora. Como o alvará com as patroas é algo raro e valioso, queríamos usar nossa semaninha da melhor maneira possível.

Não faltavam ideias. No Brasil, poderia ser a Chapada Diamantina e o Vale Europeu. Por outro lado, queríamos aproveitar e fazer uma primeira viagem internacional com as bikes. Os lugares de desejo eram Cuba, norte da Argentina (entre Cafayate e Salta), norte do Peru (em torno de Huaraz, na Cordillera Blanca) e a Highway 1, na Califórnia. Esta última logo caiu fora, pois o Brian morou por muito tempo na Califórnia e já a conhecia. Eu e o Ricardo já conhecíamos a Cordillera Blanca fazendo trekking. Decidimos por Cuba.

rDSCF0854

Motivação. Ou, nem coxinhas, nem revolucionários

Por que Cuba? Era a primeira pergunta que me faziam. Por várias razões. O Brian é americano, e só por isso, é fascinado por Cuba. Para mim e para o Ricardo, Cuba era um experimento social e econômico do século 20 que gostaríamos de conhecer. Era quase como uma sociedade fossilizada. Sabíamos que as coisas em Cuba estavam mudando rapidamente e, quando as relações com os Estados Unidos se restabelecessem completamente, as coisas mudariam de vez. Não haveria mais a Cuba comunista do Comandante. Não tínhamos nenhuma conotação política, só uma grande curiosidade sociológica de conhecer a ilha.

Capitólio, Havana

Capitólio, Havana

Queríamos fazer mais do que uma viagem de cicloturismo, queríamos conhecer de fato os lugares que passaríamos. Então, colocamos alguns dias sem pedalar nos lugares em que passamos. No final, a quilometragem ficou tão baixa que ficamos sem graça de dizer que era uma viagem de bike. Era sim uma viagem com bike.

Planejamento do roteiro

Quando pensamos numa ilha, pensamos em pequenas distâncias. A primeira coisa que descobrimos era que Cuba era muito grande. Do extremo oeste (Las Tumbas) até o extremo leste (Punta de Maisi) são aproximadamente 1.200 km. É um pouco menos do que a distância de Campinas a Salvador (~1.400 km). A área do país (110.000 km2) é maior do que a área de Pernambuco (98.000 km2).

Só pela geografia, já concluímos que não daria para visitar todo o país em 9 dias. Teríamos que escolher uma região bem menor. Também resolvemos fazer algumas partes de ônibus, pois passaríamos por longas distâncias em lugares sem atrativos (o interior de Cuba é quase todo plano e monótono).

Domingo é dia de lavar a caranga

Domingo é dia de lavar a caranga

Mesmo fazendo alguns trechos de ônibus, descobrimos que isto em Cuba é mais complicado do que em outros lugares. Cuba tem uma única companhia de ônibus para os estrangeiros, a Viazul, com horários e destinos bem restritos. Fora da Viazul, teríamos que encontrar uma caminhonete que coubesse as 3 bikes, coisa rara em Cuba. Com isto, reduzimos ainda mais os lugares em que passaríamos.

De início gostaríamos de conhecer Havana, Pinar del Rio, Playa Giron, Cienfuegos, Trinidad, Santa Clara, Remedios e Santiago. O roteiro final ficou resumido a Havana (duas noites), Playa Giron (uma noite), Cienfuegos (uma noite), Trinidad (três noites) e volta a Havana (uma noite).

Preparação

Para mim, a preparação de uma viagem é quase tão boa quanto a viagem em si. Pesquisas em guias, blogs, sites, trocas de emails e a montagem do quebra-cabeça de um roteiro adequado é bem legal.

A primeira coisa foi definir a data da viagem. Uma coisa importante a considerar é que você estará no Caribe e lá tem furacões. Por mais que viajar é conhecer coisas que não temos aqui, furacão não estava entre elas. A temporada dos furações é em setembro e outubro. A temporada das chuvas é de maio a outubro. A melhor época para se viajar é de novembro a abril, que pega o inverno deles (quente!). Decidimos ir entre o final de novembro e início de dezembro.

Infelizmente não existem mais voos diretos do Brasil para Cuba. As duas principais companhias aéreas que voavam para lá são Avianca (conexão em Lima, Peru) e Copa (conexão na Cidade do Panamá). Compramos a passagem pela Avianca. Ela não cobrou taxa extra pelo transporte das magrelas e o serviço em geral foi muito bom.

Um mercado no centro de Havana

Um mercado no centro de Havana

Existem muitas informações na internet sobre viagens a Cuba de bicicleta. A maior parte é em inglês. Em português tem pouquíssimas coisas. Existem relatos em português de gente que foi viajar de mochila ou turismo mais tradicional, o que já ajuda na preparação.

Cuba exige visto para turistas brasileiros. No fim do post tem as informações sobre como tirar o visto. Outra exigência é um seguro saúde. Para nós, não exigiram na entrada no aeroporto. Parece que dá para contratar no aeroporto também.

Havana

No aeroporto de Havana, com um casal de argentinos que conhecemos nov voo

No aeroporto de Havana, com um casal de argentinos que conhecemos no voo

Depois de 10 horas de voo chegamos em Havana. O Aeroporto Internacional Jose Marti fica a 20 km do centro. Dá para pedalar de lá até o centro, mas depois de uma noite mal dormida, pegamos um táxi. Seguimos rumo a Habana Vieja, onde ficava nossa casa particular.

Aeroporto de Havana

Aeroporto de Havana

A primeira sensação foi de chegar num mundo bem diferente, meio esteriótipo de país tropical, com cara de anos 70 e com os sempre presentes outdoors com mensagens revolucionárias. Fizemos uma dezena de perguntas para o taxista sobre como era viver na ilha e sobre o regime. Ele era simpático ao regime e parecia satisfeito em viver em Cuba.

Contra o embargo americano

Contra o embargo americano

Habana Vieja é a parte mais antiga e histórica de Havana, com prédios de diferentes épocas e estilos, mesclando moradias, comércio e estabelecimentos turísticos. Descobrimos imediatamente que uma rua e um número não servem para muita coisa na hora de localizar um local. O que vale é o cruzamento de ruas mais próximo, no nosso caso era Lamparilla com Compostela.

A rua da amargura fica em Havana

A rua da amargura fica em Havana

Descemos do táxi com as bicicletas ensacadas nos mala-bikes e fomos procurar a casa particular. Eu havia repassado ao Ricardo (que havia feito a reserva) a recomendação de pegar uma casa térrea, visto que os prédios lá não tem elevador. Não adiantou. Tivemos que subir uns 6 andares de escada levando uns 30 kg da bike e bagagem. Tudo isto no clima quente e úmido de Havana e depois de muitas horas de viagem. Mas a animação de chegar num lugar desconhecido era tanta, que depois de uma simples ducha e de uma xícara de café, já estávamos refeitos para sair para a rua e conhecer as redondezas.

Nossa casa particular em Havanaa

Nossa casa particular em Havanaa

Rapidamente descobrimos que o agito na cidade velha é a peatonal Obispo, que, por sorte, ficava a duas quadras de nossa casa. Trocamos alguns dólares e fomos tomar uns mojitos.

A música cubana estava em todos lugares e depois de andar um pouco, fomos até a famosa Bodeguita del Medio, onde a música estava ainda melhor. A la Hemingway, tomamos mais mojitos.

No domingo, fomos fazer uma volta de bike pela cidade de Havana. Andar pelas ruas da parte velha é muito bacana. Prédios bonitos e caindo aos pedaços, igrejas coloniais de um tempo mais glorioso, mercadinhos do governo com prateleiras às moscas e, claro, jineteros em todos os lugares. Se você não sabe, jineteros são as pessoas que te tentam vender qualquer coisa em Cuba, principalmente as ilegais. Estão por todos os lugares tentando ganhar uns pesos convertíveis.

De Havana Vieja fomos pedalar pelo famoso Malecón, a avenida a beira-mar. As ondas estourando nos muros do Malecón e os carros antigos passando criam uma atmosfera tipicamente cubana. Pedalamos os seus 8 km de extensão e tomamos alguns banhos de mar involuntários com os respingos das ondas. A novidade por lá é a embaixada americana, reaberta depois de 50 anos sem relações diplomáticas. Claro que o Fidel não deixaria barato e, em frente a embaixada americana, havia um monumento com os dizeres “Patria o Muerte!” e “Venceremos!”.

No final do Malecón havia um clube com pessoas jogando baseball, o esporte nacional cubano, chamado por eles de pelota. Fomos lá conferir. Era como uma pelada dominical brasileira. Famílias e amigos conversando, barraquinha de comida, etc. Aliás, o cubano se parece muito com o brasileiro, tanto física como em personalidade. São falantes, bem humorados e fazem piada da própria desgraça. Não foi difícil entrar num bom papo com os cubanos e almoçar por ali mesmo. O prato era um arroz com frango assado e batata, acompanhado de uma TuKola, a versão revolucionária da Coca-Cola.

Continuamos o giro por Havana, passando pelo bonito bairro do Vedado, com suas antigas e imponentes mansões (lembra os Jardins em SP) e fomos até a Praça da Revolução. A Praça da Revolução é onde tem a imagem do Che na parede de um prédio, um dos cartões postais de Cuba. De lá fomos até terminal rodoviário da Viazul comprar o bilhete do Brian para Playa Giron (os nossos já havíamos comprado pela internet do Brasil). Voltamos de lá à cidade velha pela Avenida Cerro, uma impressionante e arruinada avenida com calçadas cobertas dos dois lados, que segue por vários quilômetros até o Capitólio cubano. Segundo os guias turísticos, a versão cubana é maior do que o capitólio americano de Washington.

Voltamos apara a casa particular, guardamos as bikes, tomamos um banho e fomos novamente dar um passeio a pé pela Obispo e tomar mais uns mojitos na Bodequita de Medio. No dia seguinte, teríamos que acordar cedo para pegar o ônibus às 7:00 para Playa Giron, na Baia dos Porcos.

Ricardo pagando de revolucionário

Ricardo pagando de revolucionário

Brian, se o Trump ver isso...

Brian, se o Trump ver isso…

Playa Giron

Acordamos na segunda-feira às 5:30. Tínhamos que arrumar as coisas, tomar café e pedalar os 10 km até o terminal da Viazul. Saímos da casa particular rumo ao Capitólio e, bem quando estávamos lá, a corrente do Ricardo quebrou. Não daria tempo para consertar e chegar ao terminal a tempo. Eram 6:00 da manhã, ainda meio escuro com a cidade começando a acordar. Saí para procurar um táxi enquanto o Ricardo e o Brian tentavam dar um jeito na bicicleta. Depois de alguns minutos de tensão, conseguimos um táxi. Era um daqueles carrões da década de 1950, que os cubanos chamam de almendrón. O Ricardo seguiu com a bike no táxi. Segundo ele, era mais legal por fora do que por dentro, pois era velho e cheirava a gasolina. Eu e o Brian pedalamos forte para recuperar o tempo perdido.

Subimos no ônibus, tendo que pagar uma taxa “cubano-esperto” para despachar as bagagens. Em Cuba vão te pedir propina (gorjeta) para tudo.

Fui observando a saída de Havana. A cidade pós-revolução parece uma grande Cohab (conjunto habitacional popular, para quem não é de SP), com prédios de 3 ou 4 andares, construídos de maneira muito simples e com pouca preocupação estética. Talvez isto seja uma preocupação burguesa minha. Havia muitas pessoas na rua em todos os lugares, sem parecer que estavam ocupadas. A cena de homens conversando ou jogando dominó na calçada é bem comum de se ver.

Depois da saída de Havana, a estrada segue sempre plana e monótona por paisagens rurais. A maior parte das fazendas parece abandonada ou pouco aproveitada. A vegetação vai aos poucos retomando o que era seu.

Finalmente vemos as primeiras placas para Playa Larga e Playa Giron, na Baia dos Porcos. Este foi o local de uma malfadada tentativa de contrarrevolucionários invadirem Cuba em 1961, bancados pela CIA e governo americano. A CIA só não contava com a resistência do exército e do povo cubano. O resultado foi um tiro pela culatra para os americanos, pois deu força ao governo de Fidel e angariou apoio interno e externo à Cuba. A Wikipedia tem mais aqui sobre este episódio da história.  

Claro que aproveitamos que o Brian é yankee e fizemos todo tipo de gozação com ele, o que continuou pela viagem inteira. Sempre dizíamos que eu e o Ricardo éramos hermanos brasileños e que o Brian era um yanque gusano. O Brian entrava na brincadeira e os cubanos não faziam diferença. Aliás, atualmente acho que gostam mais do governo americano do que do cubano (PS, isso quando era o Obama).

Depois de Playa Larga, o mar passa a ter uma cor azul incrível. É o que imaginamos ser o mar no Caribe. O ônibus vai margeando a costa até chegar no povoado de Playa Giron.

Cinco cubanos pararam para ver consertar a corrente

Cinco cubanos pararam para ver o conserto da corrente

Descendo do ônibus, a primeira providência era consertar a corrente da bike do Ricardo. Sacamos uma ferramenta chamada chave de corrente e começamos a operação. Nisso chegaram uns 6 ou 7 cubanos para assistir, todos em idade economicamente ativa. Por mais de meia hora ficaram lá tranquilamente conversando conosco e admirando as ferramentas de bike como se fossem coisas de outro planeta. Segundo eles, em Cuba tinham que resolver tudo com ferramentas improvisadas.

Encontramos uma casa particular, o Hostel Moya, do Dimitri, cubano super gente boa. Ele havia sido marinheiro, ou coisa assim, e viajado por vários lugares do mundo. Além do mais, ele também era ciclista e deu um trato nas nossas bikes. Contato do Dimitri: hostalmoya@nauta.cu, Fone: (1045) 984483, Cel: (0053) 5245-8453.

Deixamamos as bagagens lá e partimos de bike para a Caleta Buena nadar e tomar umas biritas. O lugar é um paraíso para snorkel. Caleta Buena fica há uns 10 km de Playa Giron, por uma estrada asfaltada e plana, beirando o mar. Chegando lá, paga-se CUC 15 para entrar, com direito a almoço e open bar.

O lugar estava cheio de russos, que estavam em dúvida se aproveitavam o mar tropical ou se bebiam quantidades industriais de rum no open bar. Cuba ainda recebe muitos turistas russos, herança dos tempos comunistas.

Eu já tinha lido sobre a água transparente da Caleta Buena e levei minha máscara e snorkel, mas também dá para alugar lá. A cor da água é impressionantemente azul e a temperatura é morna, o que dá para ficar por lá nadando por horas.

No fim da tarde, voltamos para Playa Giron, pois havíamos combinado com o Dimitri de ele  cozinhar lagostas para nós. Lagosta é abundante nessa região e tem um preço acessível. Por CUC 10 dá para comer bem. Além de nós, estavam lá uma mochileira polonesa e um ciclista espanhol. Ele pedalava de Santiago a Havana, uns 1.000 km de bicicleta. Aprendemos que a direção da viagem faz toda a diferença, pois no inverno o vento sopra de leste a oeste, justamente o sentido Santiago-Havana. Nós estávamos indo no sentido contrário.

Voltando de Caleta Buena

Voltando de Caleta Buena

Fim de dia em Playa Giron

Fim de dia em Playa Giron

Cienfuegos

No dia seguinte acordamos cedo, pois seria a etapa mais aventureira da viagem. Pedalaríamos 80 km por trilhas de pescadores, que mal apareciam nos mapas, até a cidade de Castillo de Jagua, onde pretendíamos pegar um ferry até Cienfuegos. Mas como estávamos em Cuba, nem tudo saiu do jeito planejado.

Dimitri, a esquerda, dono da casa particular

Dimitri, a esquerda, dono da casa particular

Nos despedimos do simpático Dimitri e seguimos em direção à Calleta Buena, que visitamos no dia anterior. De lá em diante seria tudo terra até chegar próximo a uma usina nuclear em Castillo de Jagua.

Cuba é plana em sua maior parte. A princípio parece bom para se pedalar, mas depois você descobre que não dá para parar de pedalar nunca. É como uma aula de spinning de várias horas. Dá saudades de descer uma ladeira descansando as pernas.

Rumo a La Guasasa

Rumo a La Guasasa

O caminho vai asfaltado até a Caleta Buena, depois seguiu por terra. Um pouco adiante, encontramos um casal de alemães na casa dos 60 que também faziam cicloturismo. É muito legal ver um casal nessa idade fazendo uma viagem de bicicleta num lugar daquele.

Chegando em La Guasasa

Chegando em La Guasasa

Conversamos com o casal e seguimos viagem a La Guasasa, o último vilarejo antes de Castillo de Jagua.  La Guasasa parecia um daqueles povoados do interior do Nordeste brasileiro, com casas simples, cavalos e vacas nas ruas de gramas e muita pobreza. Havia uma única e pequena venda, onde paramos lá para papear com os cubanos. Foi o mesmo de sempre, conversa boa com os locais, piadas com o yanque e o primeiro erro do dia: eu e o Brian pedimos um suco de goiaba, feito ali mesmo. Tomei um copo e o Brian tomou dois. O resultado viria depois…

Seguimos viagem e erramos uma bifurcação, indo parar no vilarejo de Cocodrilos, mais para o interior, quando deveríamos seguir a direita pela costa. Voltamos poucos quilômetros e agora a estrada de terra virara uma trilha de pescadores. Inicialmente parecia ótimo, pois a vegetação cobria o sol e pedalávamos na sombra.

Trilha de pescadores entre La Guasasa e Castillo de Jagua

Trilha de pescadores entre La Guasasa e Castillo de Jagua

Uns 10 minutos depois de entrar na trilha, os primeiros pneus furados, na minha bike e na do Brian. Paramos para trocar e comecei a sentir um mal estar típico de infecção alimentar. A minha energia baixou bastante e senti um desânimo. Fiquei um tempão deitado no chão antes de criar coragem de trocar o pneu.

Muitos pneus furados por espinhos

Muitos pneus furados por espinhos

Eu tinha pego umas dicas com a Rosa Jordan, autora do guia Lonely Planet Cycling Cuba. Ela tinha me incentivado a fazer este roteiro de La Guasasa e me alertado que haviam muitos espinhos pela trilha, que era para levar pneus com proteção anti-furos. Foi o que fiz. Avisei os meus dois camaradas antes da viagem, mas eles não levaram muito a sério a dica.

Dali para diante, tivemos que parar a cada 5 minutos para consertar pneus furados. A minha bike somente teve um furo, mas a do Ricardo e do Brian tiveram entre 5 e 10 cada um. Chegou uma hora que não tínhamos mais remendos nem câmaras reservas e tivemos que apelar para um torniquete com graveto na câmera de ar, o que salvou a gente. Mesmo assim, era preciso parar de quando e quando para encher novamente os pneus.

O Brian também começou a sentir os sintomas da poção mágica de La Guasasa. A mistura da infecção alimentar com os furos fez a moral cair muito. Fomos seguindo pelo caminho do GPS até chegar numa estrada mais aberta, sem os espinhos assassinos.

Castillo de Jagua

Castillo de Jagua

Depois de muito esforço chegamos exaustos a Jagua, uma pequena cidade na entrada da baia de Cienfuegos. Descobrimos que o ferry estava fora de operação, quebrado, e que não haveria como chegar a Cienfuegos, do outro lado da baia. O Brian estava bem mal, vomitando e bastante cansado. Eu estava só cansado, mas ficaria pior depois.

Por sorte, havia um mercadinho onde compramos uma bebida energética e uns salgados, o que nos animou um pouco. Por sermos gringos numa cidade pequena e por estarmos tão exaustos, chamávamos a atenção das pessoas. Perguntei a um cubano se ele sabia se havia alguma oficina de bicicleta na cidade, pois tínhamos que remendar as câmeras. Ele disse que ele mesmo tinha uma e que poderia consertar para nós. Ficamos um pouco desconfiados, mas não tínhamos escolha. Fomos até a oficina dele, que era uma humilde garagem. O Keny, era esse o seu nome, estava todo simpático e falante, o que nos deixou ainda mais desconfiados. Nossas bikes, apesar de não serem super tops, eram como Ferraris para o padrão cubano de barra-fortes enferrujadas. As bicicletas passariam a noite lá. De verdade, tememos nunca mais ver as bikes.

Não conseguimos achar uma casa particular descente em Jagua e tivemos que pegar um barco para atravessar o canal e ficar num hotel de turistas europeus em Pasacaballos. Era o que precisávamos: quarto limpo, um bom banho e comida quente.

Indo buscar a bikes

Indo buscar a bikes

No dia seguinte atravessamos novamente o canal e fomos buscar as magrelas, já fazendo piadas que teriam umas velhas bikes soviéticas no lugar das nossas. Para a nossa surpresa estava tudo lá e o Keny tinha recuperado as câmeras. A simpatia dele era de fato genuína. Demos a ele CUC 15, quase o seu salário mensal, mas o que ele nos fez foi ainda mais valioso. Foi muito bacana ve-lo correr para o mercado para comprar comida para a família e ouvi-lo dizer que “tínhamos um amigo em Cuba”. De fato, tivemos mais do que um amigo, o Keny salvou a nossa pele.

O ferry para Cienfuegos ainda estava quebrado, então resolvemos voltar a Pasacaballos e pedalar 25 km até Cienfuegos e, de lá, tomar um ônibus a Trinidad, pois eu e o Brian estávamos sem condições de encarar os 80 km até Trinidad. Era um trecho muito bonito e com muita serra. Infelizmente, só deu para ver da janela do ônibus.

Indo para Cienfuegos

Indo para Cienfuegos

O Brian já estava um pouco melhor mas eu estava bem fraco. Com muito esforço cheguei a Cienfuegos, onde já compramos as passagens para Trinidad. Fomos procurar uma lanchonete, pois tínhamos umas 2 horas até o ônibus sair. Comi e procurei um banco para dormir, pois estava cansado e com febre. O Ricardo e o Brian foram dar um giro pela cidade, que é muito bonita e bem cuidada, com arquitetura colonial com influência francesa.

Chegamos em Trinidad, que é uma mistura de Paraty com cidades do Nordeste. Mas é uma Paraty com pessoas (muitas!) morando em seus casarões. A cidade é uma das mais procuradas por turistas e tivemos algum trabalho até achar um quarto para 3 pessoas.

Uma vez instalados, fomos no centrinho de Trinidad para comemorar nossa epopeia de superação. Por ser um ponto de parada obrigatório para os gringos, a cidade está cheia de restaurantes, bares e carrinhos que vendem bebidas e comida. Sentamos na escadaria da igreja, tomando um mojito e conversando. Nisso passa um cara com a camisa do Palmeiras, chamamos ele, que ficou muito feliz de encontrar brasileiros, pois estava viajando sozinho.

Do lado da praça tem um bar chamado Casa de la Musica, cheio de gente, música boa e uma energia bem legal.

O plano para o dia seguinte era pedalar até a Playa de Ancon e passar o dia lá. Ancon tem um hotel internacional e parece atrair muitos europeus de meia-idade. O mar é bonito, com aquela com de água do Caribe, mas o clima de praia brasileiro, não tem a mesma animação.

Indo para Playa Ancon

Indo para Playa Ancon

Voltamos para Trinidad por outro caminho, fomos pedalando pela costa até o povoado de La Boca e, de lá, seguimos a Trinidad. Encontramos outros cicloturistas europeus pelo caminho.

A noite foi o mesmo do dia anterior, ir para a praça e tomar mais mojitos. Dessa vez fomos comer num restaurante um pouco melhor do que padrão mochileiro. Encaramos uns pratos de frutos do mar, comida realmente boa e barata.

O fato de ser brasileiro ajuda muito em Cuba, você já começa recebendo um crédito de simpatia. O jeitão expansivo cubano facilita ainda mais. Conversamos com os garçons sobre a vida em Cuba. Como quase todo cubano, eram muito articulados, educados e com uma visão crítica das coisas boas e ruins de Cuba.

Nessa noite, o Brian começou a ficar ansioso, querendo voltar para o Brasil. Estava preocupado em não ficar muito tempo longe da família e do trabalho. Logo ele, que era o mais entusiasmado em viajar para Cuba. Fazia poucos dias que estávamos lá, era quinta-feira e havíamos chegado no sábado. No dia seguinte, o Brian pegou o primeiro ônibus para Havana e tomou um voo para o Brasil. O irônico é que depois de voltar ao Brasil, ele é o mais nostálgico e que tem mais vontade de retornar a Cuba.

A sexta-feira amanheceu chovendo. Eu e o Ricardo resolvemos tirar o dia para visitar lugares históricos em Trinidad. Fizemos primeiro uma visita a uma fábrica de charutos, que foi bem interessante para entender a dinâmica da vida em Cuba.

Fábrica de charutos em Trinidad

Fábrica de charutos em Trinidad

A fábrica era um galpão antigo. Logo na sala de entrada havia aqueles os símbolos de exaltação da revolução e do trabalho socialista. Dentro do galpão, havia umas 30 pessoas trabalhando em bancadas, nas diversas etapas de preparação dos charutos. Logo que entramos, alguns começaram a nos chamar discretamente (outros nem tanto): “Ei, compre uns charutos meus”. Dávamos negativas simpáticas e seguíamos a visita.

Como queríamos levar alguns charutos para o Brasil, resolvemos conversar e entender a proposta. Um cubano nos chamou, oferecendo charutos a 1 CUC. Seria um desvio, pois a pessoa embolsaria a grana vendendo um produto da fábrica estatal. Perguntamos se era permitido, a resposta foi bem cubana: “É proibido, mas pode”. Perguntamos: “E o chefe, não será um problema?”. A resposta foi ainda melhor: “Ele rouba mais do que todos”. Viva la revolucion! 

Escola em Trinidad:

Depois seguimos para o centro histórico e visitamos vários prédios interessantes. Na verdade, só andar pelas ruas já é uma experiência bacana.

Sábado pela manhã pegamos o Viazul para Havana. O ônibus seguia pelo interior verde e plano de Cuba, sem nada muito interessante para ver. Chegamos em Havana pouco depois do almoço e saímos com as bikes para uma outra volta pela cidade.

Por coincidência, naquele dia começava em Havana uma maratona de MTB de vários dias, a Titan Tropic. Pelo que entendemos, era uma prova espanhola já tradicional, que aconteceria pela primeira vez em Cuba. Chegamos bem na hora da largada. Esse dia seria somente uma largada simbólica, com os competidores passando pelas avenidas e pelo Malecón. Seguimos o pelotão e fomos por uns 10 km até o fim do Malecón.

Era a última noite em Cuba. Fomos comer uma boa comida cubana num restaurante com música ao vivo. A música era ótima. Aliás, música é um dos pontos altos de Cuba. Uns mojitos mais e era hora de ir dormir.

Era domingo e dia de ir embora. Aproveitamos para comprar uns garrafas de rum Havana Club numa tenda na rua. Resolvemos que iríamos pedalando ao aeroporto e assim o fizemos. Pedalamos os 20 km que separam Habana Vieja ao aeroporto a todo vapor. Só que chegamos suados e com tempo apertado para desmontar e empacotar as bikes. Não foi a melhor decisão.

Chegando de bike no aeroporto para voltar

Quando entrei na zona de embarque, descobri que ainda tinha vários CUCs em minha carteira. O peso cubano deve ser uma das moedas com menos liquidez no mundo, talvez só perca para o won norte-coreano. Resolvi que iria gastar tudo o que tinha no freeshop cubano. Comprei várias garrafas de rum (que estava no mesmo preço da cidade), camisetas, imãs de geladeira e até TuKola, para minha mulher que adora a imperialista Coca-Cola. 🙂

Hasta siempre, Cuba!

Referências

Antes de ir para qualquer lugar, vale sempre entender o contexto do que vamos visitar. Para Cuba isto é ainda mais verdade, por todas as transformações que o país passou no século XX.

Listei abaixo algumas coisas que vi antes e depois da viagem. Tem muito mais material por aí, com análises mais profundas da história cubana.

Filmes

  • Buena Vista Social Club: filme clássico sobre músicos cubanos da velha guarda.
  • Comandante: documentário do Oliver Stone sobre Fidel, feito no início dos anos 2.000, quando ele ainda era el lider máximo.
  • Castro in winter: depois de 10 anos, Oliver Stone volta para outro documentário, agora com Fidel já afastado da presidência e doente.
  • Numa Escola de Havana, (Conducta): filme de 2015, bastante premiado, que mostra a relação de um aluno e uma professora na dura vida cotidiana de Havana.
  • Che, Parte 1: a primeira parte desse filme sobre o Che mostra como aconteceu a revolução, do início no México até a tomada do poder. Tem (ou tinha) no Netflix.
  • O Rei de Havana: baseado no livro Pedro Juan Gutierrez, mostra a realidade dura da vida cubana.
  • Quatro Estações em Havana (tem no Netflix), baseado nos livros do Leonardo Padura, conta as aventuras do detetive Mario Conde. É bem realista e interessante como filme. Mais aqui.
  • Lista de filmes para conhecer Cuba: https://www.obaoba.com.br/filmes-e-series/noticia/10-filmes-para-voce-conhecer-melhor-cuba

Livros

  • A Ilha, de Fernando Moraes. É um curto livro-reportagem feito na década de 1970. Vale ler para comparar a situação daquela época com a Cuba atual.
  • Livros de Pedro Juan Gutierrez, como Trilogia Suja de Havana e O Rei de Havana. Gutierrez é um tipo de Charles Bukowski cubano.
  • Os livros do Leonardo Padura.
  • De Cuba, com carinho, de  Yoani Sánchez. Yoani é um blogueira crítica do regime cubano.

Música

A música é uma parte central da vida cubana. Aqui vão alguns de uma lista que poderia ser enorme.

  • Carlos Puebla: cantor da revolução cubana, com vários clássicos engajados nos primeiros anos do regime castrista.
  • Compay Segundo: um mito da música cuba. A canção Chanchan é quase um segundo hino cubano e você a escutará em muitos lugares.
  • Pablo Milanes: é um contemporâneo do Chico Buarque, Caetano e Milton Nascimento. Esteve no Brasil muitas vezes.
  • Orishas: um grupo de hip hop mais moderno, com grande influência da cultura afrocubana.

Dicas úteis

Melhor época

Cuba está no Caribe, região que todo ano sofre com os furações. A temporada dos furações é em setembro e outubro. A temporada das chuvas é de maio a outubro. A melhor época para se viajar é de novembro a abril, que pega o inverno deles (quente).

Visto

Dá para tirar o visto no Brasil (o que eu fiz), no Consulado cubado de São Paulo, foi rápido, sem burocracia e me custou R$ 62 em 2015.

Contato do consulado:

Consulado General de Cuba em São Paulo
Rua Cardoso de Almeida 2115, Bairro do Sumaré, São Paulo
Email: consuladocuba@uol.com.br
Tel: (11) 2369 8824/ (11) 2369 8825

Dinheiro

Em Cuba existem duas moedas, uma para os cubanos (os pesos nacionais) e outra para os turistas (os peso convertíveis ou CUC). Um euro é equivalente a 1 CUC. Um CUC valia 25 pesos nacionais. A rigor, tudo deveria ser cobrado em CUC para nós, na prática dá para comprar coisas mais básicas com pesos nacionais. Prefira levar euros do que dólar, o câmbio é mais favorável.

Trocar dinheiro nas Cadecas, casas de câmbio oficiais.

Custo da viagem

Levei 500 euros e acabei a viagem com CUCs sobrando, que tive que gastar no freeshop. É barato viajar em Cuba e não tem muita opção para gastar dinheiro. Os mercado e lojas são bem modestos e poucos.

Um sortido mercado cubano

Um sortido mercado cubano 😉

Segurança

Cuba dá um nó na cabeça da gente, brasileiros. A aparência geral é dos lugares considerados perigosos no Brasil: pobreza, gente desocupada, ruas mal iluminadas e pessoas negras. Mas dispa-se de seus preconceitos e esteriótipos e retreine a sua mente. Nossa experiência em Cuba foi muito segura, sem problema algum. Nunca me senti ameaçado lá. Claro que existem relatos de roubo e violência, mas não é nada epidêmico como no Brasil.

Dito isto, tenha cuidado com suas coisas e leve um cadeado para a bicicleta, como deveria fazer em qualquer lugar. Até na Suécia. 🙂

Internet e telefone

Comunicação com o mundo externo era complicado em Cuba. A internet era rara, lenta e cara. Comunicávamos com o Brasil por SMS.

Hospedagem

Em Cuba existem hotéis (caros e impessoais) ou casas particulares, onde dá para conhecer melhor a vida cubana. A diária de um quarto duplo com banheiro numa casa particular fica de 20 a 30 CUCs. O café da manhã é cobrado a parte, entre 3 a 5 CUCs por pessoa, mas muito bem servido em variedade e quantidade. Vale a pena.

Existem vários sites na internet onde dá para pesquisar e reservar casas particulares. Busque por “cuba casas particulares” e se divirta.

Outra coisa, são raros os campings em Cuba e é proibido acampar fora dos (poucos) campings oficiais. Deixe sua barraca em casa.

Transporte

O transporte em Cuba é bem restrito, mas dá para alugar carros e motos e existem voos regulares entre várias cidades. Não usamos nada disso, então não sei dizer como é. Usamos somente ônibus da Viazul, a empresa para levar turistas. Dá para comprar as passagens pelo site: www.viazul.com.

Comida

A comida cubana é muito boa e parecida com a brasileira, com muito arroz e feijão. Tem bastante peixes, frutos do mar e frango. A carne de vaca é só para turistas, pelo que nos disseram. Ouvimos dizer que um cubano pode ser preso se comprar carne de vaca.

Peças para bike

Como quase tudo em Cuba, é bem restrito. Espere no máximo encontrar pneus para aro 26, câmara e kits para remendo. Leve o que precisar do Brasil.

GPS e aplicativos

Usamos o aplicativo Maps.Me, que foi muito útil em Cuba. No dia que passamos por trilhas de pescadores, no meio do nada, ele nos guiou por meio de bifurcações. Sem ele, estaríamos literalmente perdidos. Além de tudo, é grátis.

Guias e sites de viagem

Tem guias de viagem em português e inglês sobre Cuba. Até alguns guias de cicloturismo. Usamos somente informações da internet para planejar. Aqui vão alguns links usados:

Fotos

Este slideshow necessita de JavaScript.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s