Cicloviagem Lagos Andinos – Dicas e considerações

Cicloviagem Lagos Andinos – Dicas e considerações

Preparação

Preparação física

Diferentemente de uma cicloviagem de longa duração (meses ou anos), onde o preparo físico se adquire na própria viagem, um roteiro com tempo curto e contado requer um certo preparo prévio.

Os meses que antecederam a viagem foram bem atribulados para mim, com muitas viagens profissionais, compromissos e outras coisas que atrapalharam uma rotina de treino regular. Com 30 dias de antecedência comecei a fazer treinos mais longos nos fins de semana, pedalando de 60 a 90 km. Durante a semana, eu fazia pedais mais curtos ou corridas. Isso foi suficiente para a viagem, talvez pela memória do corpo de vários anos de prática de atividades de endurance (esforço médio, longa duração).

De todo modo, recomendo que se faça uma preparação adequada. Começando uns 4 meses antes e aumentando a frequência dos treinos e aumentando também a quilometragem.

Preparação psicológica

Estar preparado psicologicamente para longos dias de pedal, subidas, vento contra, possíveis problemas mecânicos,desconforto físico, chuva, frio, calor e outras dificuldades comuns numa cicloviagem é tão importante quanto a preparação física.

Acredito que as pessoas que se interessam por cicloviagem sabem lidar bem com essas dificuldades, mas é importante testar essa capacidade antes de se meter no meio dos Andes. Fazer pedais longos ou travessias (Cunha-Paraty, Estrada da Petrobrás em Salesópolis, etc) são situações boas para testar a sua capacidade de lidar com o perrengue. E é bem mais fácil abortar a viagem e voltar para casa se isso não for a sua praia.

Quando ir

A melhor época para ir a região de Bariloche é entre outubro e abril. Nos outros meses, a chance de pegar muito frio ou chuva é muito maior. Mesmo assim, é importante saber que o tempo muda muito por lá por estar próximo da cordilheira e por ser mais exposto às massas polares. Já peguei 5º C em janeiro. Um dia pode fazer sol e céu azul e no próximo amanhecer frio e chuvoso.

Vá preparado para essas mudanças de tempo, com roupas adequadas. Vale consultar sites de meteorologia para checar a quantidade de chuva e temperatura média para o período que pretende ir.

Temporada de férias de verão

A temporada de verão começa em dezembro e vai até fins de fevereiro. Os hotéis e estradas estarão mais cheios e os preços serão mais altos. Se puder, tente ir de outubro a novembro ou de março a abril.

Horas de luz solar

Uma coisa muito importante numa viagem de bicicleta é o período de luz natural. Via de regra, quanto mais, melhor. Em novembro o nascer do sol é logo após as 6:00 e o por do sol às 21:00, ou seja, 15 horas de luz!

Este site abaixo mostra o horário de nascer e por do sol em qualquer lugar numa determinada data.

Nascer e por do sol em Bariloche em novembro:

http://www.timeanddate.com/sun/argentina/bariloche?month=11&year=2016

Custos

Direto ao ponto, a nossa viagem custou US$ 520 para cada um. Isto considerando absolutamente tudo, desde que saí do portão da minha casa e voltei. Ou seja, da gasolina de casa ao aeroporto até as cervejas tomadas e qualquer outro gasto. Foram 9 dias inteiros de viagem. Poderíamos até ter gastado menos se tivéssemos ficado em campings (só ficamos em pousadas), feito a própria comida e economizado em pequenas coisas. Além desse custo, tivemos o da passagem aérea (ver abaixo).

Comparativamente, tem uma empresa do interior de São Paulo que organiza uma viagem de cicloturismo na região de Bariloche com uma duração semelhante. O pacote custa US$ 1.800 (sem aéreo), além de outros custos que você certamente terá durante a viagem.

Referência de câmbio

Em novembro de 2016 a referência de câmbio era:

Pesos argentinos:

  • R$ 1 = ~AR$ 5
  • US$ 1 = ~AR$ 15

Pesos chilenos:

  • R$ 1 = ~CHP 200
  • US$ 1 = ~CHP 650

Passagens aéreas

Compramos as passagens aéreas São Paulo/Buenos Aires/Bariloche pela Aerolineas Argentinas. Compramos com 5 meses de antecedência. Saiu US$ 250 mais taxas de embarque.

Eu nunca tinha voado com a Aerolineas. Ela não deixou uma impressão boa: poltronas apertadas, serviço de bordo fraquíssimo e ausência completa de entretenimento de bordo.

Regras de bagagem da Aerolineas:

  • Somente um volume despachado de até 23 kg (a mala-bike, com alforjes, saco de dormir e outras coisas, pesou 19 kg)
  • Uma bagagem de bordo até 5 kg (ninguém verifica se você está com duas ou mais)
  • Cada volume extra despachado custa US$ 120 (fuja como o diabo da cruz!)

Argentina e argentinos

Esqueça todas as besteiras que você já ouviu do Galvão Bueno sobre a rivalidade Brasil-Argentina. Vá com a mente aberta para a Argentina. É um país espetacular em termos de paisagens, provavelmente com mais variações do que o Brasil. Eles só não têm praias tropicais.

Os argentinos normalmente gostam de brasileiros (nos veem como um povo alegre) e, se você também for simpático, verá que temos muitíssimo mais coisas em comum do que imagina. Além do mais, a Argentina tem algumas coisas muito bacanas, como alfajor, a carne (as raças de bois são diferentes dos do Brasil), empanadas, doce de leite, sorvete e outras coisas que descobrirá.

Além de me sentir muito bem recebido na Argentina, em geral me sinto muito seguro. Nessa viagem, em momento algum segurança foi uma preocupação. Não nos sentimos em risco de sermos roubados em lugar algum.

Língua espanhola

Apesar do português e do espanhol serem línguas bem próximas, vale a pena estudar um pouco de espanhol para se virar melhor e conquistar a simpatia dos argentinos e chilenos, mesmo que sejam apenas algumas frases mais comuns. Será um investimento que se pagará rapidamente.

Hospedagem

A infraestrutura de hotéis, pousadas, hostels e campings é muito desenvolvida na Argentina e no Chile. Uma coisa diferente do Brasil é que existem muitas opções de camping em todos os lugares. Os argentinos gostam de acampar. Não é como no Brasil, onde camping é um tipo de hospedagem para quem não tem dinheiro para um hotel. Os campings geralmente ficam em lugares bonitos e espaçosos.

O preço médio que pagamos para um quarto para dois, com banheiro e café da manhã foi de R$ 120. Seria impossível achar lugares parecidos a esse preço no Brasil.

Estradas

As estradas que passamos (coloquei os códigos das estradas nos posts dos dias de viagem) eram muito bem mantidas, sem buracos, e com pouco movimento. Por outro lado, os acostamentos asfaltados, como existem nas rodovias paulistas, não existem por lá. Em alguns lugares do Chile as estradas tinham ciclovias.

Os motoristas eram bem cuidadosos, se afastando das bicicletas. Muitas vezes eles buzinavam para nos incentivar.

Transportando a bike no avião

Empacotar a bike para a viagem é um ponto bem importante, pois chegar com um equipamento danificado é um pesadelo para qualquer cicloturista. Ainda mais se você tiver um tempo contado como nós.

O método que uso é simples e eficiente. Comprei um mala-bike pelo eBay que é feito de uma lona sintética. É um sacolão, mas é leve, barato e fácil de guardar. Existem opções rígidas, que protegem melhor a bike, mas são pesados, caros e volumosos.

Além de desmontar a roda da frente, guidão e pedais, nessa viagem desmontei também a gancheira, deixando o câmbio traseiro solto e salvo de impactos. Na viagem para Cuba, a gancheira da minha bicicleta entortou um pouco, pois o câmbio traseiro fica saliente e absorve os impactos.

É fundamental também proteger os tubos, stays e demais partes com papelão. Isso evita riscos na bicicleta e as partes pontiagudas as peças não furarão (melhor, furarão pouco) a mala-bike.

Murche os pneus para eles não estourarem durante o voo, pois o compartimento de carga do avião não é totalmente pressurizado.

O Antonio Olinto tem um vídeo bem legal sobre como empacotar a bicicleta:

Embalando a magrela

Embalando a magrela

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Bike embalada

Cicloviagem Lagos Andinos – O que levamos

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Não se esqueça de levar algo para comer durante a pedalada!

Para bagagem, em qualquer viagem, meu lema é “menos é mais”. Depois de algumas trips de bike, já tenho experiência para levar somente o essencial sem faltar nada no meio da viagem.

Começo a separar as coisas de cicloviagem umas duas semanas antes, pois são muitos itens e a falta de um deles pode de fato fazer uma diferença enorme.

Bicicleta

  • Mountain bike de alumínio, aro 26, freios v-brake, 27 marchas e suspensão dianteira.
  • Adaptações para a cicloviagem:
    • Suporte para alforjes (rack)
    • Alforjes com capacidade para 33 litros (o par)
    • Pneus 1.75″ mistos com proteção antifuro.
    • Troquei os pedais de encaixe por pedais comuns (plataforma)

Itens relacionados à bicicleta:

  • Canivete de chaves allen
  • Chave de corrente
  • Óleo lubrificante
  • Chave de boca para pedal
  • Elo de corrente
  • Manchão para pneus
  • Cadeado para bike
  • 1 câmara reserva
  • Kit remendo de câmara de ar
  • Bomba de pneu
  • Bolsa de quadro
  • Aranha para bagageiro
  • Iluminação dianteira e traseira
  • Ciclocomputador
  • Abraçadeiras (aka, enforca-gato, umas 10)
  • 2 caramanholas
  • Alicate pequeno
  • 4 parafusos extras (compatíveis com bagageiro e suporte de caramanhola)

Roupas e afins:

  • 1 corta-vento (anorak)
  • 2 bermudas de ciclismo
  • 2 camisas de ciclismo (manga curta)
  • Bandana (lenço para a cabeça)
  • 2 pares meias de ciclismo
  • 1 par de meia comum
  • Luvas
  • Capacete
  • 1  camiseta dryfit  (manga longa)
  • 1 blusa de fleece
  • 1 calça dryfit
  • 1 camiseta de algodão
  • 1 colete reflexivo de segurança (ver o que aconteceu conosco no primeiro dia)
  • 1 boné
  • 1 par de chinelos
  • 1 bermuda dryfit
  • 1 par de tênis (não levei sapatilhas de MTB, mas o Ricardo levou tênis e sapatilhas)
  • 1 toalha de trekking
  • Segunda-pele (calça e camisa)
  • Cuecas

Itens gerais:

  • Filtro solar
  • Protetor labial
  • Repelente de citronela (não levamos, mas pegamos emprestado e foi muito útil)
  • Purificador de água (Hidrosteril, Clor-in, etc)
  • Celular e carregador
  • Power bank
  • Câmera fotográfica e carregador
    • Provavelmente foi a última viagem que levamos uma câmera. A maior parte das fotos foi tirada com o celular.
  • Benjamim (adaptador T), com dois pinos cilíndricos
  • Saco de dormir
  • Isolante
  • Barraca para 2
  • Saco estanque
  • Canivete suíço
  • Bolsa de dinheiro (money-belt)
  • Kit de primeiros socorros
  • Mochila dobrável de bolso
  • Caderno de notas e caneta
  • Necessaire com itens de higiene pessoal
  • Rolo de papel higiênico

Apps no celular:

O celular é a maquininha que faz tudo. Depois da própria bicicleta, ele já é o item mais importante em qualquer viagem.

Os apps abaixo foram bem úteis.

  • Navegação: HERE WeGo e MAPS.ME
    • Dois excelentes apps com mapas offline, ambos gratuitos. A base de mapas deles é diferente, vale levar os dois com os mapas da Argentina e Chile.
  • Strava e Sports Tracker
    • Muito útil para informações de percurso, distância, velocidade média, ascensão, etc. Cada um de nós usou um para fazer o tracking das atividades. Os dois apps gravam o percurso mesmo quando não tem rede de dados.
  • Hostelworld, útil para achar e reservar os hostels nas cidades visitadas.

Referência extra

Essa planilha de checklist foi criada pelo André Schetino, do Até Onde deu para ir de Bicicleta. É uma lista bem completa de coisas para se levar.

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 5 – Ensenada a Bariloche

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 5 – Ensenada a Bariloche

Sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Acordamos mais cedo, 6:30, para preparar tudo e pedalar os 16 km até Petrohue, onde pegaríamos o primeiro barco do dia para fazer o Cruce Andino. As informações sobre o horário de saída do barco eram desencontradas. Em alguns lugares diziam que era as 10:00 e em outros as 10:30. Como seria o único barco do dia, começamos a pedalar as 8:00 para ter bastante folga.

Este seria o penúltimo dia da expedição. Já vinha aquela sensação estranha de viagem acabando, um misto de sentimento de realização com uma tristeza pelo fim próximo.

Originalmente planejávamos pedalar até o posto dos Carabineros chilenos, conhecido como Casa Pangue, que fica no início da subida mais pesada para o Paso Vicente Perez Rosales. O dia seria um pedal de 16 km até Petrohue, quase 1:30 horas de banco até Peulla, um pedal de 20 km até a Casa Pangue e dormir por lá. No dia seguinte, continuaríamos o pedal até Puerto Frias, já na Argentina, onde faríamos a aduana e pegaríamos um barco até Puerto Alegre. Dali, um pedal curto de 3 km até Puerto Blest, onde teríamos mais um longo trecho de barco até Puerto Pañuelo, já no município de Bariloche, mas a 26 km do centro da cidade.

Esta travessia de Petrohue até Puerto Pañuelo tem o nome comercial de Cruce Andino e é operado por uma única empresa, a TurisTour (www.turistour.cl). Ele pode ser feito em um ou dois dias. Para quem faz esse passeio usando os ônibus nos trechos de terra entre os barcos, o preço do ticket é US$ 280. Para quem vai de bike ou caminhando nas partes de terra, sai por US$ 108 (foi o que custou para nós, tem relatos com outros preços). É caro, mas é a única opção se você quiser cruzar por esse passo. Não existem outros barcos que façam esse roteiro. É um monopólio mesmo.

Minha opinião, se você estiver com esse dinheiro, vale a pena. Os lagos são muito bonitos, cercados por verde e montanhas nevadas. As estradas de terra cruzam dois parques nacionais, o Vicente Perez Rosales (Chile) e Nahuel Huapi (Argentina) e a combinação de barco e bike é algo que não encontramos em qualquer lugar.

Durante a travessia, decidimos fazer os dois dias em apenas um, o que vou contar mais adiante.

Seguem os roteiros no Bikemap:

Saímos da pousada pontualmente as 8:00. Pela primeira vez na viagem o dia amanheceu nublado. Se ficasse só nublado e não chovesse, estaria ótimo.

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Ciclovia na Ruta 225, de Ensanada a Petrohue

A estrada começa com asfalto, com ciclovia demarcada, mas logo adiante vira um caminho de rípio. O visual é bem interessante, pois a estrada vai margeando o Rio Petrohue, que nasce no lago de mesmo nome e desce com uma certa turbulência para o mar. É um lugar usado para fazer rafting e caiaque esportivo.

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Ruta 225, o asfalto vira rípio

O rio Petrohue forma corredeiras e quedas bem bonitas. Tem um lugar que dá para visitar as maiores quedas (pago), mas passamos batido. Em outros pontos da estrada dá para chegar bem da margem.

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Rio Petrohue

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Rio Petrohue

As 9:15 chegamos em Petrohue, bem antes das 10:30, como descobrimos que era o horário de saída do barco. Petrohue é um punhado de casas, nem sei se tem mercado ou restaurantes. O lugar recebe, além dos turistas do Cruce Andino, muitos pescadores de fly fishing. Também tem um camping ali, pelo que li em relatos de outros ciclistas.

Na sala de espera encontramos dois franceses, pai e filho, que viajavam por 30 dias pelo Chile e Argentina, o Roger (pai) e o Olivier. O Roger tem 76 anos e uma energia inacreditável. O Roger viaja de bike há décadas e já esteve na Ásia, África, Oriente Médio, Américas e Europa. Acabamos ficando amigos e pedalamos até Bariloche com eles.

Além dos franceses, um casal de argentinos também fazia a travessia. Eles tinham acabado de comprar as bicletas em Puerto Montt, onde era mais barato do que na Argentina.

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Roger, 76 anos e uma energia de 20.

A compra das passagens foi meio confusa. Pagamos os US$ 108 pelo trajeto de ida, próximo ao valor que eu tinha visto em outros relatos (uns US$ 100). É importante dizer que você vai fazer somente a ida e que quer um boleto mochilero, ou seja, vai fazer a parte terrestre por sua conta. No caso, pedalando. Diga também para colocarem se será um ou dois dias de travessia. Se bem que, acho que não implicam com isso. Os franceses compraram passagens para dois dias e foram em um. O preço não muda para um ou dois dias.

Parecia que os atendentes eram novatos e não sabiam com segurança quais eram as opções, que são muitas. Dá para pegar o barco até Peulla e voltar, seguir até Bariloche. Cruzar em um ou dois dias. Ir e voltar. Usar ou não o transporte para a parte terrestre. Etc, etc.

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Magrelas a bordo

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Visual num dia aberto (não foi o nosso caso). Foto de divulgação.

O primeiro trecho de barco dura 1:40 e em dias abertos dá para ter bonitas vistas do Osorno e Pontiagudo. Naquele dia nublado, conseguimos ver pedaços dos dois somente. No barco fomos conversando com os franceses. Tanto o Roger como o Olivier eram muito bacanas. O Roger falava espanhol, mas o Olivier falava somente um inglês básico, o que ele compensava com simpatia para se comunicar.

É muito bacana ver alguém com 76 anos e fazendo uma viagem dessa. A gente acha que já está ficando velho (tenho 45 no momento da viagem). Ver alguém 30 anos mais velho que tem desejo e energia para este tipo de viagem é algo inspirador.

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Lago Esmeralda

Chegando em Peulla, montamos os alforjes e fomos à aduana chilena registrar a saída. Perguntaram do registro de entrada da bicicleta, que estava escrito à mão em nosso documento de entrada. Os franceses não tinham a menção às bicicletas mas o pessoal da aduana liberou. A aduana fica a 1 km após o atracadouro, não tem como errar. Você só não pode passar direto. Se fizer isso, os Carabineros na Casa Pangue vão checar o passaporte e você terá que voltar para pegar o carimbo. Not good.

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De Peulla a Casa Pangue são uns 15 km relativamente planos, em rípio, seguindo vale do rio que desce da geleira do Tronador. É um pedal tranquilo.

Se o pedal é tranquilo, por outro lado aparecem os tábanos, uns moscões que chegam em bando e picam mesmo sobre a roupa. São parecidos com as mutucas brasileiras, só que mais agressivos. Uma solução simples para espantá-los é um repelente de citronela. O Olivier tinha trazido e nos emprestou. Não restou um tábano por perto durante a viagem.

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Chegamos à Casa Pangue e fizemos o almoço ali, na mesa de picnic. Era cedo e os franceses disseram que iriam para Bariloche no mesmo dia. Nós estávamos com energia e dormir numa cama macia em Bariloche parecia ser melhor do que acampar sem banho no gramado da Casa Pangue. Decidimos ir juntos.

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Vista do Tronador da Casa Pangue. A visão era parcial pelas nuvens

Foto do mesmo local em um dia aberto. Do blog "Ciclos, Letras e Quintais", https://ciclosletrasequintais.wordpress.com

Foto do mesmo local em um dia aberto. Do blog “Ciclos, Letras e Quintais”, https://ciclosletrasequintais.wordpress.com

Só que nisso chegou um outro argentino, vindo de Bariloche, e também o casal de argentinos, que estava um pouco atrás. Fizemos um almoço coletivo, dividindo as comidas e as vivências de viagem. Para completar a festa, baixou um helicóptero dos Carabineros para algum oficial fazer uma vistoria. Os pilotos foram lá papear conosco.

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Ricardo (de amarelo), Olivier, Roger e eu, em sentido horário

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A conferência de paz estava ótima mas tínhamos que seguir viagem, pois a parte mais dura estava por vir. Eu havia lido vários relatos sobre a subida após a Casa Pangue e eles eram meio assustadores. Na minha cabeça era algo com a Serra de Luminosa, no Caminho da Fé, ou a subida de Castelhanos (Ilhabela), do lado do oceano.

É uma subida longa, uns 6 km, com uns 700 metros de ascensão, mas é pedalável, mesmo com as muitas pedras soltas e a bicicleta com os alforjes. Por ser no meio na floresta e cheio de curvas, eu sempre achava que ela iria terminar depois da próxima curva. Sem exagero, tive essa certeza umas 30 vezes. Cheguei até um (falso) cume e esperei o meu irmão, achando que era o fim. Mas para o meu engano, não era. Deu até aquela desmotivada quando a estrada começou a subir novamente.

Quando finalmente chegamos ao cume e vimos as placas demarcando a fronteira entre os países, foi uma alegria só. Sabíamos que dali a Puerto Frias seriam 4 km de uma descida forte, com muitas pedras soltas. Como já estava frio, botamos as jaquetas corta-vento e mandamos ver.

Quando chegamos a Puerto Frias a aduana argentina estava quase fechando, pois já eram 16:45. Pedimos para eles religarem os computadores e fazerem a nossa entrada no país. Também falamos para eles esperarem mais uns 5 minutos (acabou sendo 10) para que os franceses fizessem a entrada. Ficou em cima da hora mas deu tudo certo.

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Embarque em Puerto Frias

Embarcamos as bikes e cruzamos o Lago Frias até Puerto Alegre. De lá seriam mais 3 km de um caminho relativamente plano até Puerto Blest, onde pegaríamos o último barco rumo a Puerto Pañuelo.

Nestes região, onde os lagos chegam no meio da cordilheira, os lagos formam braços longos cercados por montanhas, muitas delas com picos nevados e cachoeiras de degelo. É um visual muito bonito, com cara de fiordes noruegueses.

Para completar o espetáculo, algumas gaivotas vinham pegar bolachas que os passageiros davam no deck do barco.

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Chegando em Puerto Pañuelo, já eram 19:30. Montamos novamente os alforjes e fomos pegar um longo trecho urbano de 26 km até o centro de Bariloche. Era uma sexta-feira com bastante trânsito de fim de dia. E essa avenida (Av. Bustillo) tem pista simples e sem acostamento, além de ser a principal via da cidade. Fomos em fila indiana, eu, o Ricardo, o Roger e o Olivier. O Roger foi puxando a fila a maior parte do tempo, num ritmo muito forte. Realmente incrível para alguém em seus 76 anos.

Chegamos às 21:00 no centro. A nossa reserva no hostel Perikos era para o dia seguinte, conforme o nosso planejamento, e o hostel não tinha mais vagas para a sexta. Os franceses tinham uma reserva no Hotel Venezia, na mesma rua do Perikos. Ficamos lá também. O Roger era amigo de longa data do Ivo, o dono do hotel, um simpático italiano de Treviso.

Ainda tivemos energia para sair para jantar e comemorar o fim da viagem. Tomamos cervejas da região e comemos um bom naco de cordeiro patagônico.

No dia seguinte nos despedimos dos franceses depois do café e fomos ao nosso hostel. O sábado foi de descanso e de churrasco novamente. Afinal, estávamos na Argentina e tínhamos cumprido a nossa expedição até antes do tempo.

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Que venham muitas outras viagens!

No domingo, restava empacotar as bikes e assistir a final da Davis (Argentina e Croácia). A Argentina levou o caneco pela primeira vez na história.

Chamamos o Henrique, motorista de táxi, que nos levou ao aeroporto. De lá, era voar para o Brasil e encarar a semana de trabalho pela frente.

Adios mi Bariloche querido!

Adios mi Bariloche querido!

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 73,8 km
  • Média: 13,6 km/h
  • Ascensão: 2.060 m

Hospedagem em Bariloche

  • Hotel Venezia (www.hotelveneziabariloche.com), AR$ 600, quarto duplo, com banheiro e café da manhã. Wifi não funcionava direito.
  • Hostel Perikos (www.perikos.com), AR$ 600,quarto duplo, com banheiro, café da manhã e Wifi. Além da churrasqueira! Nosso top-pick em Bariloche.

Táxi para o aeroporto

  • Henrique
  • Whatsapp: +54 2944597485
  • A corrida custou AR$ 270

Mais fotos

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Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 4 – Entre Lagos a Ensenada

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 4 – Entre Lagos a Ensenada

Quinta-feira, 24 de novembro de 2016

Mais um dia de sol e céu azul. Eu estava acompanhando a previsão do tempo antes de embarcar e dizia que choveria na quinta-feira. A previsão muda para melhor também!

O dia de hoje teria 80 km, sem grandes subidas, mas com bastante sobre e desce. Para os padrões que já estávamos nos acostumando, seria um dia “fácil”. É a prova que tudo na vida é relativo.

O roteiro do dia seria: www.bikemap.net/en/route/3389481-lagos-andinos-dia-4/

Dia 4 - Entre Lagos a Ensenada

Dia 4 – Entre Lagos a Ensenada

Passaríamos por estradas secundárias, começando pela U-51, passando pelas margens do Lago Rupanco e chegando até a U-99-V, onde viraríamos a esquerda e pedalaríamos literalmente rumo ao Vulcão Osorno, que parecia ser o fim da estrada.

As estradas chilenas que pegamos eram muito bem mantidas e muitas vezes com acostamento asfaltado para bicicletas.

Passamos por paisagens rurais, com fazendas e muito verde. Se tirasse o Osorno e o Pontiagudo do horizonte, daria para dizer que estávamos no sul do Brasil.

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Daria uma boa capa de disco

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Estrada U-51, a beira do Lago Rupanco

A atração do dia era mesmo o vulcão Osorno, que era visível de qualquer parte. É curioso como um vulcão exerce uma atração quase magnética na gente. Tiramos muitas fotos, pois o tempo estava aberto de manhã, com o topo nevado bem visível. Como o tempo muda rapidamente nessa região e a previsão anterior era de chuva, não queríamos arriscar. Só que o tempo continuou aberto e, quanto mais nos aproximávamos do Osorno, melhores ficavam as paisagens.

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Pescaria fly no rio que vaza o Lago Rupanco

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Pegando a U-99-V

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Paramos algumas vezes para pegar água e comer. Paramos também num antigo cemitério, com uma igreja ao lado. Os nomes nas lápides eram quase todos alemães. Essa região do Chile teve uma colonização alemã e vários traços são bem presentes, como os pães kuchen, um pão doce com frutas.

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Igreja alemã com cemitério ao lado e o Osorno espreitando

O primeiro povoado que passamos no dia foi Las Cascadas. Paramos para tomar um refrigerante e comer uma empanada. O dono do local falou que tem umas cachoeiras bonitas  a alguns quilômetros do povoado, mas não estávamos com pique para o desvio de rota.

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De Las Cascadas a Ensenada são 20 km. Existe uma ciclovia por todo o percurso. Em vários pontos tem mirantes para o enorme Lago Llanquihue, que é bonito. Como estávamos com a referência dos lagos argentinos, bem mais espetaculares, não demos muita bola.

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Ensenada

Eu tinha a expectativa que Ensenada fosse uma pequena cidade, mas é somente um apanhado de casas e comércio à beira de um entrocamento de estradas. Ali se juntam três estradas, a que vínhamos, outra que vinha de Puerto Varas e a terceira para Petrohue, que pegaríamos no dia seguinte.

Arrumamos um apartamento para ficar na beira do lago, no Cabanas Montana. Como o plano era atravessar os parques nacionais por dois dias para chegar em Bariloche, saímos para comprar comida para esses dois dias. E, claro, tomar uma cerveja chilena. Tanto o Chile como a Argentina têm muitas cervejarias artesanais. No sul do Chile tem muitas cervejas com frutas locais, umas berries deles.

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O local que ficamos também tinha um camping, que fica no caminho para o lago. Lá encontramos um casal de holandeses aposentados que viajavam com um motorhome. Eles ficariam 6 meses no Uruguai, Argentina e Chile. De novo o Brasil não fazia parte da viagem…

Alugamos dois caiaques no Barlovento, um camping/pousada ao lado do nosso, e fomos explorar o lago Llanquihue.

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Na volta, encontramos um casal de alemães que viajavam de bike por três meses pelo Chile e Argentina com um filho de um ano e meio, o Milo. Eles tinham um carrinho que era conectado na roda traseira da bike. Perguntei como o Milo se comportava e disseram que ele estava adorando a viagem, se sentindo em casa em todos os lugares e muito curioso com as coisas diferentes. O menino era uma figura, quando passamos puxando os caiaques para devolve-los, ele foi lá para ajudar a levar, com os seus um ano e meio.

É muito bacana como os europeus fazem isso. Já vi crianças viajando com os pais de bicicleta em vários países da América do Sul. Uma vez eu estava no Ecuador, indo de carro para um lago que ficava dentro da cratera de um vulcão. É o tipo de lugar que você se sente um verdadeiro aventureiro. Quando estava quase chegando no topo do vulcão, cruzamos com um casal de holandeses, cada um puxando um carrinho com uma criança. Lá sei foi a minha sensação de aventureiro.

E aqui no Brasil, quando comento de qualquer cicloviagem, o pessoal já fala “Nossa, que loucura! Mas você vai sem agência?”.

Câmbio

Também não precisamos trocar dólares por pesos chilenos, pois os lugares aceitavam cartão de crédito. Entramos e saímos do Chile sem ver a cor do dinheiro local.

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 80 km
  • Média: 18 km/h
  • Ascensão: 950 m

Hospedagem e caiaque

Aluguel de caiaque: CH$ 8.000 por uma hora de uso. Alugado no Barlovento.

Ficamos no Montana (www.turismomontana.comtatorehbein@hotmail.com), o quarto com banheiro, saiu por CH$ 20.000.O Wifi é bom. Não tem café da manhã. O lugar é somente aceitável, se eu voltasse lá ficaria no Barlovento, ao lado.

Outras opções:

Mais fotos

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Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 3 – Villa la Angostura a Entre Lagos

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 3 – Villa la Angostura a Entre Lagos

Quarta-feira, 23 de novembro de 2016

Chegara o dia de cruzar os Andes e também fazer a nossa primeira fronteira internacional no lombo de uma bicicleta. Além disso, um distância hercúlea de 115 km pela frente nos dava alguma preocupação, até porque não havia pontos intermediários de parada no roteiro. A primeira cidade no Chile era Entre Lagos. Antes disso, algumas casas e, talvez, povoados.

O tempo continuou perfeito, com céu azul e temperatura amena. Tomamos um café reforçado, fizemos vários lanches, enchemos várias garrafas de água e fomos começar a jornada. Não haveria um único mercado ou restaurante no meio do caminho.

Dia 3 - Villa la Angostura (Arg) a Entre Lagos (Chi)

Dia 3 – Villa la Angostura (Arg) a Entre Lagos (Chi)

Roteiro do dia: www.bikemap.net/en/route/3389477-lagos-andinos-dia-3/

Seriam 12 km de Angostura até o trevo para a estrada que seguiria ao Chile, voltando pela Ruta 40, pelo mesmo caminho em que viemos de Villa Traful no dia anterior. E do trevo até o Paso Cardenal Samoré seriam mais 32 km pela Ruta 231.

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No cruzamento das Rutas 40 e 231

Logo após o trevo, tem um mirante para o Lago Espejo (espelho, em espanhol). O mirante está bem alto em relação ao lago e dá para entender a razão do nome do lago. Para deixar o cenário ainda melhor, dois caiaques cruzavam as águas praticamente paradas da manhã.

Lago Espejo Grande, Villa la Angostura

Lago Espejo Grande, Villa la Angostura

Lago Espejo Grande, Villa la Angostura

Caiaques flutuando no céu, Lago Espejo Grande

Começou uma longa descida. O que poderia ser um motivo de alegria (descida), gerou o pensamento que deveríamos subir aquilo que descíamos e mais o que deveríamos subir até o passo.

A floresta em torno da estrada era densa, com grandes árvores e com muito verde. Mais adiante foram surgindo os primeiros picos rochosos e nevados. Já era uma paisagem bem diferente das dos dias anteriores. Apesar de nunca termos ido ao Alasca, concluímos unanimemente que aquilo parecia o Alasca no verão.

Chegamos ao controle de aduana argentino, que fica vários quilômetros antes do Paso Samoré, numa região mais baixa e menos fria. A burocracia foi rápida e sem problemas. Perguntei ao policial sobre o número de ciclistas a que passavam diariamente: 20 durante o verão e 4 nas outras épocas do ano.

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Posto de aduana argentino, Ruta 231

Mais um pouco de pedal e estávamos no esperado Paso Samoré. Um belo visual e alguns turistas tirando fotos. Aproveitamos para pedir para alguém tirar uma fotos de nós dois, chance rara quando se viaja por lugares remotos.

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Paso Cadernal Samore, fronteira entre Argentina e Chile

Depois do passo é uma longa descida, pois estávamos a 1.300 m e chegaríamos a 200 m de altitude em Entre Lagos. Cheguei a pegar 70 km/h. Mas isso não quer dizer que é só descida, a estrada passa por muitos vales e muitos sobe-e-desce, alguns bem cansativos.

O trâmite na aduana chilena também foi rápido e tranquilo. A recomendação é que você peça para anotarem no papel de entrada que você entrou no país com uma bicicleta. Pediram isso na saída do Chile.

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Chile, Ruta 215

Uma coisa que chama a atenção é que as árvores estão mortas em boa parte da floresta chilena. A causa da morte das árvores foi a erupção do Vulcão Puyehue, em 2011. Ainda dá para se ver a camada de cinza vulcânica no solo. Até na região de Traful ainda dava para perceber a camada cinzenta. Essa região que passamos sofreu ainda mais, pois está a poucos quilômetros do vulcão, coisa de 8 km.

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Floresta morta pelas cinzas do Vulcão Puyehue, Ruta 215, Chile

A ruta 215 vai acompanhando o curso do Rio Gol Gol. Estes nomes com repetição de palavras são comuns na língua mapudungun, dos mapuches. Aqui tem uma página com várias palavras mapudungun com repetição. A medida que entrávamos no Chile e a altitude baixava, a vegetação mudava radicalmente. Já parecia quase a mata atlântica no Brasil, com muito verde, variedade de espécies e morros baixos cobertos de vegetação.

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Cachoeira no Rio Gol Gol, Rua 215

A paisagem era bonita, mas não era espetacular como as que passamos pela Argentina. Um pouco mais além temos a primeira vista dos vulcões Osorno e Pontiagudo. O Osorno nos vigiaria pelos próximos dois dias.

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Vulcão Osorno

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Vulcão Pontiagudo

O dia já ia longo, eram 18:00 e pedalávamos forte para chegar. Agora o terreno era plano, o que facilitava o pedal. Chegamos em Entre Lagos as 19:15 com uma sensação de dever cumprido e que seríamos capazes de pedalar qualquer outra etapa dessa viagem, viesse o que viesse.

A cidade de Entre Lagos é pequena, com uma aparência precária, com casas de madeira. Mesmo assim, ela tem uma boa oferta de hospedagem. Achamos uma cabana logo na entrada, que era razoável. Não tínhamos pesos chilenos, mas conseguimos pagar em pesos argentinos. Mas fica a dica, vale trocar alguns dólares por pesos chilenos em Villa la Angostura, na Argentina.

Um vez com teto, era a rotina tradicional de uma cicloviagem: tomar um banho, lavar as roupas do pedal, sair para comer e passar no mercado para comprar comida para o dia seguinte. Aproveitamos para jantar um baita filé de salmão e tomar umas cervejas chilenas. Depois fomos dar uma volta nas margens do Lago Puyehue, que banha a cidade.

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 113 km
  • Média: 16 km/h
  • Ascensão: 1.700 m

Hospedagem em Entre Lagos

Ficamos na Cabana Gladys, que basicamente é uma casa com dois quartos, cozinha e banheiro. Tem wifi mas não café da manhã. O preço era CH$ 25.000 mas pagamos AR$ 590. Valeu ficar lá. Ela fica numa rua paralela à Ruta 215, no lado direito, logo na entrada da cidade, vindo da Argentina.

Outras opções:

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 2 – Villa Traful a Villa la Angostura

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 2 – Villa Traful a Villa la Angostura

Terça-feira, 22 de novembro de 2016

Para variar um pouco, o dia amanheceu com céu azul e sem nuvens.

Esse seria o dia mais curto da viagem e esperávamos chegar em Villa la Angostura para o almoço. Seriam aproximadamente 60 km, metade rípio, metade asfalto. A parte de rípio seria na continuação da incrível Ruta 65 e ela ainda nos reservava um passo de montanha com pouco menos de 1.000 metros de altitude.

Roteiro do dia: http://www.bikemap.net/en/route/3389475-lagos-andinos-dia-2/

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Dia 2 – Villa Traful a Villa la Angostura

Saindo do vilarejo, somos de cara brindados com a paisagem abaixo. É muito fácil achar essa região fantástica para se pedalar, né?

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Seguimos o pedal, subindo e descendo vales, no meio de bosques e cruzando pontes. Era muito difícil não se impressionar com a beleza que estava por todos os lados.img_20161122_091757867

Numa das subidas, que estávamos pedalando na vovózinha, vagarosamente, vem um carro buzinando insistentemente atrás de nós. Diminuo a velocidade para ver o que é. Quando o carro passa, é o Sr. Suksdorf com sua mulher, acenando festivamente para nós.

Mais um tempo na fantástica Ruta 65 e chegamos num ponto onde a estrada estava alagada por um arroio. Não dava para saber a profundidade da água. Descemos da bike para avaliar os possíveis caminhos. Logo passa um carro e o motorista nos diz que temos que passar pelo meio, que não está fundo. Realmente, parece ter uns 30 cm de profundidade.

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Enquanto isso, chega um Duster do outro lado do alagamento e descem umas brasileiras meio preocupadas com a estrada. O Ricardo grita em espanhol: “No pueden pasar. Solo los argentinos pueden pasar. Los brasileños, no!”. Rola um silêncio meio tenso. Só que o Ricardo estava com uma camisa de ciclismo do Brasil e eles acabaram percebendo. Demos boas risadas.

Passamos a eles a dica que o motorista anterior nos dera. Eles passam do nosso lado e começam a bater papo. Todos muito simpáticos, um paulista e 4 cariocas que moram em São Paulo. O motorista era o Marcelo. Eles ficaram muito curiosos pela nossa viagem de bike, dizendo que aquilo é que era aventura e esse tipo de coisa que as pessoas falam quando encontram cicloturistas. Muito legal!

Pedimos para eles filmarem e fotografarem a nossa passagem. O vídeo está aí em baixo. Trocamos algumas dicas sobre a estrada e seguimos em frente.

Outro tanto de pedal e chegamos num camping agreste na beira do lago Traful. O lugar era muito bonito e ficamos curiosos para saber o que era um camping agreste. Entramos com as bikes e conversamos com um senhor da cidade de Neuquén (capital da província de mesmo nome). Ele estava num trailer e ficaria ali pescando por 30 dias.

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Vista do camping na Ruta 65

O local era basicamente frequentado por pescadores. Muitos vinham de Córdoba ou Buenos Aires, que estão a mais de 1.000 km dali para passar o mês inteiro pescando no lago e nos riachos que desembocam nele. Confesso que deu uma inveja deles que passariam um mês num lugar daquele. Quem sabe, quando estiver velho para pedalar, viro pescador e volto para lá.

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Uma das muitas pontes da Ruta 65, no Arroyo Pedregoso

Chegamos no fim do lago Traful e a estrada começava a subir continuamente até chegar ao passo Portezuelo (930 msnm). Dele até o asfalto é uma longa e acentuada descida.

Quando chegamos no asfalto, a sensação era de que se a cicloviagem acabasse ali, já teria valido a pena, de tão bonito que foram os lugares que passamos nesses dois dias de pedal. Mas a viagem guardava muito mais coisa boa para nós. Bora pedalar!

Voltamos à legendária Ruta 40, agora rumo ao sul, para Villa la Angostura. Paramos num mirante do Lago Correntoso, onde encontramos dois cicloturistas argentinos (cada um por si). Eram os primeiros cicloturistas que encontrávamos e foi bacana conversar com eles. Ambos viajariam por 30 dias pela região. Um deles nos alertou que teria uma longa e íngreme subida depois do Rio Ruca Malen, que teríamos que subir empurrando. A ver.

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Mirante no Lago Correntoso

O asfalto novo tirava parte da sensação de aventura, mesmo assim era uma sensação muito boa pedalar por lá. Este trecho da Ruta 40 foi asfaltado em 2014. Antes era puro rípio, com aliás é a grande maioria dos 5.000 km da Ruta 40.

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Ricardo na Ruta 40

Chegamos ao Rio Ruca Malen. O lugar é conhecido pela ruína da antiga ponte de madeira. O rio liga os lagos Espejo e Correntoso. Demos uma parada para apreciar a paisagem e comer algo, pois depois da ponte começava a subida que o argentino nos alertou. Do alto da ponte dava para ver os salmões de água doce nadando pelo rio, de tão transparente que era a água.

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Rio Ruca Malen, Ruta 40

A tal da subida era forte mesmo. Coloquei a marcha mais leve e o ciclocomputador marcava uma velocidade entre 4 e 5 km/h. Mas não descemos para empurrar!

Mais alguns tantos de paisagens bonitas e chegamos ao trevo que no dia seguinte pegaríamos a estrada ao Chile, rumo ao Paso Cardenal Samore.

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Prainha a beira da Ruta 40

Alguns quilômetros mais e chegamos ao braço norte do lago Nahuel Huapi. Paramos num mirante e um italiano veio conversar conosco, num espanhol impecável. Ele também era ciclista e queria saber de nossa viagem. A cada dois anos ele vem com a família viajar pela América do Sul. O triste é que ele nunca foi ao Brasil. Infelizmente isso é bem comum. Comparado com a Argentina, o Brasil tem uma infraestrutura turística pior, é mais inseguro e é mais caro (pelo menos nos últimos 10 anos). Eu mesmo me sinto mais seguro viajando na Argentina do que no Brasil.

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Lago Nahuel Huapi, ao norte de Villa la Angostura

A fome estava apertando, pois somente estávamos com amendoins, já que o planejado era almoçar em Angostura. Seguimos direto ao Hostel Don Pilon, que eu já havia reservado do Brasil.

Depois de um banho e um pouco de descanso, resolvemos fazer um asado na parrilla do hostel. Afinal, estávamos na Argentina, famosa pelas carnes.

Fomos no mercado e compramos uma bela peça de colita de cuadril, um corte próximo ao da maminha. Cerveja, pão, verdura, salame e carvão. O churrasco estava garantido. Desnecessário dizer que ficou bom para cacete, pois com a carne argentina e o tempero da fome, não tinha como dar errado.

Bem alimentados, era descansar para o dia seguinte, o mais desafiador da viagem. Seriam aproximadamente 115 km cruzando os Andes para chegar a Entre Lagos, no Chile.

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 59 km
  • Média: 13,4 km/h
  • Ascensão: 1.200 m

Hospedagem em Villa la Angostura

Ficamos no Hostel Don Pilon (www.hosteldonpilon.com), mas não achei nada de mais. Não ficaria ali novamente se voltasse a Angostura. O quarto duplo com banheiro e café da manhã (fraco) saiu por AR$ 900.

Outras opções:

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 1 – Bariloche a Villa Traful

Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 1 – Bariloche a Villa Traful

Segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Chegara o dia do início da cicloviagem. Era hora de pegar a estrada com as magrelas. Seriam 100 km de Bariloche a Villa Traful, com aproximadamente 2/3 em asfalto e 1/3 em rípio (terra com pedras). O visual do dia prometia, pois margearíamos o lago Nahuel Huapi, pegaríamos um trecho da Ruta 40, tomaríamos a Ruta 237 em direção nordeste, seguindo o lindo vale do Rio Limay. Chegaríamos num local conhecido por Confluência, onde os rios Limay e Traful se juntam. A partir daí seria terra até a Villa Traful pela Ruta 65. Eu já havia passado por este mesmo roteiro de carro em janeiro de 2015 e sabia que as paisagens que nos esperavam eram espetaculares. Para melhorar, o dia novamente era de céu azul sem nuvens.

O roteiro do dia seria esse: www.bikemap.net/en/route/3389473-lagos-andinos-dia-1/

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Nossa missão no primeiro dia

Na noite anterior tínhamos montados os alforjes e separado tudo que não seria necessário na viagem de bicicleta. Essas coisas seriam deixadas no hostel, com as malas-bike.

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Início da viagem, em frente ao Perikos Hostel

Tomamos um café da manhã reforçado no hostel Perikos, pedimos para tirarem a tradicional foto de saída e pegamos as ruas de Bariloche. Depois de um curto trecho urbano já estávamos na Ruta 40, que não tinha acostamento asfaltado. Normalmente os carros na Argentina são bem cuidadosos com os ciclistas, se afastando bastante para evitar qualquer perigo. Mesmo assim, de tempos em tempos era preciso ir para fora da estrada para deixar os caminhões e ônibus passarem.

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Ruta 40, saindo de Bariloche

Passamos por Dina Huapi e depois aproveitamos para tirar umas fotos de Bariloche com o lago na frente e as montanhas atrás. É um visual realmente impressionante. Tirei várias em sequência para o Google Fotos montar um panorama (abaixo).

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Bariloche

Chegamos na ponte sobre o Rio Limay, que além de ser o vazante do Lago Nahuel Huapi, é a divisa de província entre Rio Negro, de onde vínhamos, e a província de Neuquén, nosso destino do dia.

Logo após a ponte tem um posto da polícia da província de Neuquén. O Ricardo, sempre com sede ou com medo de ficar com sede, teve a ideia de ir pedir água na polícia. Falamos com um policial simpático, que nos deu água e puxou conversa sobre a viagem, dizendo que precisava fazer algo assim para perder a barriguinha, etc. Esse era o “guarda bom”. Quando íamos pegar as bikes e seguir viagem, apareceu um outro policial. Esse com cara de pouquíssimos amigos numa manhã de segunda-feira. Nos perguntou onde estavam nossas jaquetas reflexivas de segurança. Eu disse que os alforjes eram reflexivos e que nossas camisas de ciclismo eram coloridas, nos dando visibilidade na estrada. O “guarda mau” disse que a lei argentina exigia coletes reflexivos de segurança e que sem eles não poderíamos seguir viagem. Momentos de tensão. Tentei entender se o policial estava querendo alguma grana, mas não parecia ser o caso. Ele continuou com um discurso provocador, como um cão raivoso, aparentemente interessado em que reagíssemos a altura. Se entrássemos no jogo dele, certamente ele usaria de seu quinhão de “otoridade” e nos criaria problemas. Perguntamos qual seria a solução e ele disse que teríamos que voltar 2 km até Dina Huapi, onde poderíamos comprar os coletes e continuar a viagem. Agradecemos pelo alerta (xingando o “guarda mau” por dentro) e voltamos a Dina Huapi.

O irônico é que do lado da província de Rio Negro, a poucos metros, tem o posto policial daquela província. Já havíamos passado lá na ida e os guardas que estavam na rodovia somente acenaram simpaticamente para nós. Na volta aconteceu o mesmo. Ninguém nos parou para pedir o colete supostamente exigido pela lei argentina. Morremos uns R$ 50 em cada colete e seguimos viagem. Passamos novamente em frente ao posto policial de Neuquén e nem olhamos para eles.

Quando entramos na Ruta 237, o trânsito diminuiu bastante e apareceu um forte vento frontal que nos acompanhou por todo o trecho nessa rodovia, por mais de 50 km. Mesmo na descida, se parássemos de pedalar, a bicicleta ia diminuindo a velocidade até quase parar. Quem pedala sabe como é chato pedalar com vento frontal.

Em compensação, as paisagens do Rio Limay eram cada vez mais bonitas, com uma água de uma cor azulada incrível. Chegamos até um lugar chamado Anfiteatro, onde o rio faz uma grande curva e cria formações impressionantes. Paramos para tirar umas fotos.

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Outro ponto espetacular nessa estrada é o Valle Encantado. O Limay forma um canion alto, com formações rochosas nos dois lados. Além disso, o azul da água e o verde da vegetação criam um cenário muito bonito. Eu resolvi dar um mergulho no rio, de tão bonita e convidativa que era a água. Só que a água é muito fria. Não dá para ficar mais do que alguns minutos.

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Valle Encantado, Ruta 237

Um coisa muito bacana nessa estrada é que muitos carros passavam e buzinavam, nos incentivando na viagem. Isso além de passar bem longe, praticamente na pista contrária da estrada. Fiquei imaginando se no Brasil aconteceria o mesmo.

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Rio Limay, Ruta 237

Chegamos  à Confluência, onde tem um posto de gasolina da ACA, com um restaurante. Tomamos um refrigerante e enchemos as caramanholas com uma água de torneira, que depois, descobrimos ter um cheiro e gosto de gasolina insuportável. Tivemos que jogar tudo fora. Por sorte, essa região toda tem muitos riachos cristalinos, onde nos abastecíamos. Para não arriscar, sempre colocávamos gotas de purificador de água (Hidrosteril). Não tivemos problemas.

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Ruta 65

Finalmente entrávamos numa estrada de terra, a Ruta 65. Agora estávamos no vale do Rio Traful, que por sua vez é o vazante do Lago Traful. O vento também desapareceu. A paisagem era mais agreste e ainda mais impressionante. Qualquer lado que olhássemos era bonito. Meu irmão estava embasbacado com visual.

Pegamos algumas subidas mais chatas e rapidamente chegamos ao Lago Traful. Na minha opinião esse é o lago mais bonito (que conheci) na região de Bariloche. A cada curva era uma parada para tirar uma nova foto, pois a paisagem era mais bonita do que a da foto anterior.

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Já eram 18:00 quando finalmente chegamos na Villa Traful, já cansados pelo longo pedal e pelo vento frontal. A vila tem em torno de 700 habitantes fixos, mas tem várias opções de hospedagens (cabanas, campings, quartos, etc). Mesmo assim deu um pouco de trabalho para achar um lugar com vaga e que não fosse caro.

Vista da cabana em Villa Traful

Vista da cabana em Villa Traful

Depois de um merecido banho, fomos tomar uma cerveja na mercearia ao lado da cabana. O fato de ser estrangeiro e ciclista num lugar pequeno sempre desperta a curiosidade das pessoas.

O filho do dono da mercearia estava com um bicicleta com um problema, com a roda traseira travada. Pedi para dar uma olhada e conseguimos consertar a magrela dele. Demos a nossa contribuição para a amizade entre os povos.

Logo um senhor argentino, o Sr. Suksdorf, de Carmen de Patagones, puxou conversa. Ele era o tipo de pessoa que você não precisa se preocupar com inventar assuntos numa conversa, ele resolve isso. Foi um bom papo onde ele nos contou sobre pumas, de seus parentes em Ponta Grosa (PR) e de um episódio da história que pouco sabemos no Brasil. Durante a Guerra da Cisplatina (1825-1828, que os argentinos conhecem por Guerra do Brasil), a marinha imperial brasileira tentou desembarcar em Carmen de Patagones, a mais de 1.000 km ao sul de Buenos Aires, nas margens do Rio Negro. A tentativa de invasão foi fracassada e até hoje existe uma bandeira imperial brasileira na igreja da cidade, guardada como um troféu da batalha. Mais sobre essa batalha aqui no Wikipedia.

Dados úteis

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 107 km
  • Média: 14,4 km/h
  • Ascensão: 1750 m

Onde ficar

Cabana que ficamos – Não tem nome. É do proprietário do mercado que fica logo após o posto de gasolina da Villa Traful. Custou AR$ 700, 2 quartos, banheiro, sala e cozinha mobiliada. Muito boa.

Coisa importante, na Villa Traful não tem internet. Mas tem rede de celular e consegui mandar SMS ao Brasil.

Outras opções:

Algumas fotos do dia

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