Pedalando pelas quebradas e vales de Salta

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Ir direto paras fotos (Google Photos): https://photos.app.goo.gl/2R9tt05cmMftjKkp2

Viagem feita entre 25/11/2017 e 03/12/2017

Planejamento

Em 2017 tínhamos (eu e meu irmão) um novo alvará das patroas para uma viagem de bike. Uma semana, ou 9 dias, contando os dois dias do fim de semana anterior. Tanto eu como o Ricardo temos trabalho, família e filhos que demandam bastante. Não dá para esticar muito o tempo sem o mundo nos lembrar de nossos papéis de “pessoas responsáveis”.

Tínhamos alguns novos interessados em fazer parte da viagem. O Brian, parceiro de outras viagens, e outros amigos estavam a fim de ir conosco, animados com os relatos das viagens anteriores. No final, por contingências do dia-a-dia, não puderam ir.

Eu, que era o responsável por pesquisar e planejar as rotas, buscava opções que fossem a altura do rolê de 2016, nos Lagos Andinos. Igualar a viagem a Bariloche e região seria um desafio grande, pois o volume de atrativos por km rodado naquela região é impressionante.

Primeiro pensei em cruzar o Salar de Uyuni e ir até o Salar de Atacama, pelo caminho de Ollague, passando por outros salares. Depois de ler vários relatos, que falavam do vento, do frio, dos caminhos de areira, da altitude e de outras dificuldades, fiquei desanimado. Mesmo assim esse roteiro continua na minha lista de desejos. Mais prá frente, com mais tempo, ainda passo por lá

Depois veio a ideia de cruzar os Andes pelo Paso Água Negra, de La Serena (Chi) a San Juan (Arg). Seriam 7 dias de dura viagem, passando por um passo de quase 4.800 m de altitude, com vários dias camping selvagem. Muitos dias isolados e a grande altitude pareciam um pouco over, com o risco de tornar a viagem mais sofrida do que prazerosa.

Dei uma olhada no site Bikepacking, que tem várias rotas pelo mundo, com vários destinos legais para a América do Sul. Acabei escolhendo uma rota recomendada pelos argentinos do site La Vida de Viaje, a rota de Cafayate a Salta. Eu já tinha passado por essa região numa viagem de carro com a família em 2011 e tinha ficado com vontade de voltar.

A região norte da Argentina tem várias características sensacionais para uma viagem de aventura. Ela conjuga a infraestrutura e segurança da Argentina, com uma paisagem andina majestosa e uma cultura que lembra muito a Bolívia e o Peru.

O roteiro original do La Vida de Viaje começava em Cafayate, seguia pela mítica Ruta 40, atravessando os Valles Calchaquíes e depois cruzava o Parque Nacional Los Cardones e descia pelas imperdíveis Cuesta del Obispo e Quebrada de Escoipe. Achei que dava para melhorar o roteiro, começando antes na Ruta 68 e cruzando a Quebrada de Cafayate. Em muitos lugares, essa quebrada é identificada por Quebrada de Las Conchas. Como concha é a gíria chula para o órgão genital feminino, imagino que o pessoal do turismo mudou o nome para Quebrada de Cafayate. Assim não há o risco de atrair um turista interessado em outras coisas menos familiares. 😉

Começaríamos na Puente Morales. Se você assistiu o filme Relatos Selvagens, é a ponte onde acontece a briga entre os dois motoristas. Se não me engano, na terceira história. Vale assistir.

Puente Morales, no filme Relatos Selvagens

Puente Morales, no filme Relatos Selvagens

Rota completa

Rota completa

Fechado o roteiro, teríamos 400 km de pedal em 6 dias e uma ascensão acumulada de 5.000 m, com o ponto mais alto a 3.500 m de altitude. Como poderíamos ter que fazer camping selvagens em duas noites, levaríamos equipamento de camping.

A viagem

O nosso voo saía de Guarulhos as 8:30 no sábado, com uma parada de 4 horas em Buenos Aires e chegando em Salta as 17h. Eu já tinha combinado com um remis (tipo de táxi argentino) para pegar a gente no aeroporto de Salta e levar até o centro.

Montando as bikes no hostel em Salta

Montando as bikes no hostel em Salta

Chegamos no hostel, montamos as bikes e fomos dar uma volta na bonita praça central de Salta. Nosso objetivo para o dia seguinte era pegar um ônibus de Salta até a Puente Morales, na Ruta 68, escapando do trecho urbano, movimentado e feio, de Salta e cidades vizinhas. Fomos ao terminal de ônibus e compramos as passagens. Só deu tempo ainda de comer umas empanadas no Mercado Público e voltar para o hostel arrumar os alforjes.

Dia 1 – Puente Morales a Cafayate

Dia 1 - Km66-Cafayate

Dia 1 – Ruta 58 Km 66 – Cafayate

Domingo, 26/11/2017

O ônibus sairia as 6:50. Acordamos cedo, ainda deu tempo de comer algo no café da manhã do hostel e fomos pedalando até a rodoviária. Eu já tinha visto na internet que na Argentina existe a figura do maletero, uma pessoa responsável por pegar a sua bagagem e colocar no ônibus. O maletero é o dono dessa função, mesmo que você possa fazer isso por sua conta. Tinha visto também que  inevitavelmente teria que deixar uma propina (gorjeta) a ele. Nos custou AR$ 50 por bike (uns R$ 10). Dica: nem tente invadir a função do maletero para economizar uns pesos, será confusão e stress. No máximo, negocie, se achar que estão cobrando muito.

Ruta 68, Km 66 - preparando para cair na estrada

Ruta 68, Km 66 – preparando para cair na estrada

O dia estava bonito e o ônibus saía da zona urbana, com uma paisagem ainda bem verde, que ia ficando mais árida a medida que íamos para o sul. Ao mesmo tempo, também ficava mais bonita. Ficou tão bonita que resolvemos descer numa parada no Km 66,  antes da Puente Morales. Estávamos ansiosos para começar a pedalar. Passamos pela ponte, seguimos por um vale cercado de montanhas áridas.

Puente Morales

Puente Morales

Mais adiante, na formação Garganta del Diablo, encontramos uma família de franceses. Pai, mãe, um filho de uns 12 e o mais novo com 6 anos. Estavam viajando pelo mundo de bicicleta (cada um na sua) por um ano. Da América do Sul iriam para Austrália e sudeste asiático. Eles falaram de um outro grupo franceses que estava um pouco mais adiante.

Família de franceses na Ruta 68

Família de franceses na Ruta 68

Garganta del Diablo

Garganta del Diablo

Paramos na formação Anfiteatro. É impressionante como camadas de rocha foram entortadas por sismos como se fossem panquecas. Fizemos uma parada para um lanche rápido no Mirador 3 Cruzes, com uma bonita vista para o vale.

Grupo de franceses

Outro grupo de franceses. O garoto de vermelho tem 4 anos

Mais adiante encontramos o tal grupo de franceses. Duas mulheres e 4 crianças. Eles iam bem separados pela estrada, com uns pequenos para trás e as duas mulheres mais adiante. O menor dos meninos tinha 4 anos e também tinha que pedalar, só que num pedal reclinado na bike da mãe. Eles iriam até Santiago (Chi), mais de 1.400 km ao sul! Esses franceses são fodas. Era a segunda viagem que encontrávamos cicloviajantes franceses que impressionavam a gente. Na última viagem, encontramos o Roger, um francês de 76 anos que pedalava por um mês pelo Chile e Argentina. Já escolhi nascer francês na próxima encarnação.

Quebrada de Cafayate, Ruta 68

Quebrada de Cafayate, Ruta 68

Seguimos pedalando pela Quebrada de Las Conchas, ops, de Cafayate. Como era o primeiro dia de pedal, a bike parecia mais amarrada do que o normal. O trecho todo era de um aclive suave, sem grandes subidas.

Alguns quilômetros antes de Cafayate começa uma ciclovia que vai bordeando os vinhedos da região e passando por algumas vinícolas.

Cafayate é uma cidade pequena (10 mil habitantes) e simpática, com mais de 20 vinícolas. É a segunda maior produtora de vinho da Argentina, depois de Mendoza. O vinho típico de lá é o torrontés.

Achamos o nosso hostel, tomamos um banho de piscina gelada, mesmo numa tarde ensolarada de novembro, e fomos comer um cabrito com vinho torrontés na praça. Cabrito pelo jeito é o prato tradicional de lá. Não decepcionou.

Para comemorar o primeiro dia de pedal, compramos uma garrafa de vinho e empanadas. Ficamos batendo papo noite adentro no pátio do hostel.

Resumo do dia: 71 km, 17 km/h, ascensão de 1.193 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1291829277

Dia 2 – Cafayate a Angastaco

Dia 2 - Cafayate-Angastaco

Dia 2 – Cafayate-Angastaco

Segunda-feira, 27/11/2017

Rotina de cicloturista: acordar cedo, arrumar as coisas, tomar um café da manhã reforçado e pegar a estrada. O plano do dia era dormir em Santa Rosa (seria camping selvagem) ou seguir para Angastaco, já depois da Quebrada de las Flechas.

Vinhedos de Cafayate ao lado da Ruta 40

Vinhedos de Cafayate ao lado da Ruta 40

Pegamos a Ruta 40, com asfalto até o vilarejo de San Carlos. O lugar é bem simpático, com wifi gratuito na praça e um bem cuidado camping municipal, onde pegamos água.

Alguns quilômetros depois de San Carlos, começa o maledeto rípio. O rípio dos Valles Calchaquíes consegue ser ainda pior. Ou você vai pela borda arenosa ou pelo meio com costela de vaca, conhecido lá como serrucho. O esforço para pedalar aumenta muito.

Ruta 40 com rípio e costela de vaca

Ruta 40 com rípio e costela de vaca

Eu tinha estudado antes o Google Maps para ver quais seriam os pontos para comer ou dormir no caminho. Havia muitas localidades com nome no mapa. Várias dessas localidades eram vilarejos, como Animaná, San Carlos e Payogastilla. Várias outras eram somente uma placa na estrada e algumas casas de adobe, como San Felipe, San Rafael, La Merced, Las Viñas, Santa Rosa e Los Sauces. Nada de vendas, restaurantes ou pousadas. As vezes, nem gente tinha.

Bem vindo a San Rafael! #SQN

Bem vindo a San Rafael! #SQN

A paisagem e as casas de adobe lembravam um cenário de filme mexicano. Se o Zorro ou o Sargento Garcia aparecessem no caminho, não estranharia. O que chamava a atenção é que o vale era muito verde e cultivado, porém, alguns metros para fora dele, era uma paisagem seca de deserto.

Capela de La Merced, Ruta 40

Capela de La Merced, Ruta 40

Paramos para comer um lanche em La Merced. Um morador local nos falou que tinha água atrás da capela. Fomos lá e enchemos as garrafas.

Chegamos em Santa Rosa, que também era só um punhado de casas. Até tinha uma opção de hospedagem, da “Red Turística Campesina”, mas estávamos bem e resolvemos cruzar a Quebrada de Las Flechas para chegar em Angastaco.

Casa abandonada depois de Santa Rosa

Casa abandonada depois de Santa Rosa

A Quebrada de Las Flechas é um daqueles lugares espetaculares que, por si só, vale a viagem. Parece uma paisagem lunar ou marciana, sei lá, com placas de rocha que foram levantadas por sismos. Eram várias cores de rocha e uma secura ainda maior do que antes.

Um belga parou o carro e nos ofereceu água, puxando conversa, animado por nos ver ali. Ele tinha feito uma cicloviagem pela Colômbia, uma tal Ruta del Café, de Medellin a Bogotá. Eu não conhecia essa e me pareceu outra opção interessante para um rolê na América do Sul.

O trecho da Quebrada de Las Flechas tem algumas subidas mais íngremes e arenosas, mas conseguimos passar por todas pedalando. Tudo bem que contamos com a ajuda de um vento de cauda em alguns momentos.

Um pouco adiante, aparecem as placas indicativas para Angastaco, que fica alguns quilômetros fora da Ruta 40. Eu não tinha reservado nada lá e fomos achar algo. Como é um vilarejo minúsculo (1.000 habitantes), não foi difícil achar um hotelzinho (mas também não tinha muita opção).  Wifi público na praça para os dependentes de conexão. 🙂

A cidade parecia vazia. Tivemos que passar nuns quatro restaurantes até achar algum aberto. Mas valeu a busca, encaramos um saboroso matambre para repor as proteínas.

Resumo do dia: 74 km, 12 km/h, ascensão de 1.180 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1293096686

Dia 3 – Angastaco a Molinos

Dia 3 - Angastaco-Molinos

Dia 3 – Angastaco-Molinos

Terça-feira, 28/11/2017

O dia seria relativamente curto, com pouco mais de 40 km até Molinos, sem grandes subidas. Só teria o chato serrucho para dificultar um pouco.

Ruta 40, entre Angastaco e Molinos

Ruta 40, entre Angastaco e Molinos

Seguimos pela Ruta 40, onde era gritante o contraste entre os campos verdes irrigados por canais e as montanhas secas. Passamos por uma fazenda chamada Finca del Sol, que parecia um cenário de filme de cowboy: montanhas avermelhadas, cavalos soltos, árvores ressequidas e um ar de lugar esquecido por deus.

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Encontramos um senhor argentino de uns 60 anos chamado Pablo. Ele pedalava uma MTB com o câmbio quebrado, na prática, com uma só marcha. Puxamos conversa. Do Brasil, ele só conhecia o Neymar. Ele morava em San Carlos, uns 50 kms antes, e fazia a verificação do uso da água pelos agricultores. Quando notei que ele não trazia uma garrafa de água, ofereci um pouco da minha, que ele prontamente aceitou. Antes de beber, despejou um pouco no solo. Fez o mesmo após beber. Perguntei o que era aquilo e ele falou “Uma oferenda para Pachamama, para que nunca nos falte“. É impressionante que, mesmo depois de 500 anos da chegada dos espanhóis, a cultura incaica ainda sobreviva.

Pablo e eu pela Ruta 40

Pablo e eu pela Ruta 40

Como a distância do dia era curta, as 12:30 já estávamos em Molinos. Como chegamos cedo, o quarto na pousada não estaria pronto até as 14:00. Fomos para a pracinha da cidade usar o wifi e mandar notícias para o Brasil. Tinha um motorhome com placa da suíça, provavelmente usando o wifi também.

Molinos, um brinde à viagem!

Molinos, um brinde à viagem!

Uma coisa que começava a chamar a nossa atenção era que, mesmo em lugares tão pequenos, numa região pobre (dá para pensar que é equivalente ao Sertão Nordestino), as cidades eram bem cuidadas, com escolas bem mantidas (muitas vezes escolas rurais no meio do nada), ruas sem buracos, sensação de segurança e uma infraestrutura visível, como os campings municipais e o wifi público. Era evidente a diferença se comparássemos ao Brasil. Isso tudo, mesmo com a Argentina estar em crise desde os anos 70…

Um pouco mais tarde fomos conhecer o camping municipal e lá estava o motorhome, com um casal de uns 60 anos. Nos deram um “hola” e fomos conversar. Eram suíços aposentados, o Robert e a Ursula. Ficariam 3 anos viajando por toda a América do Sul. Um casal gente boa e de bom papo. Nos convidaram para ir lá a noite para continuar a conversa, o que fizemos. Conversamos bastante, trocamos umas dicas de viagem, demos boas risadas e combinamos de nos encontrar alguns meses depois em São Paulo, que eles já conheciam e gostavam muito.

Andando por Molinos descobrimos que havia duas opções de estrada até Seclantás, o próximo vilarejo. Uma era a Ruta 40, que ia por altos e baixos, longe do vale. Segundo o Robert, não tinha atrativos especiais. A outra opção era a velha Ruta 40, que seguiria pelo vale e passaria por El Churcal, onde tem ruínas dos povos Chalchaquíes. Não pensamos duas vezes. Se a Ruta 40 já é bacana, imagina a antiga Ruta 40!

Resumo do dia: 42,6 km, 13,5 km/h, ascensão de 670 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1294088092

Dia 4 – Molinos a Cachi

Dia 4 - Molinos-Cachi

Dia 4 – Molinos-Cachi

Quarta-feira, 29/11/2017

Saímos da pousada e seguimos a dica do Jesus, um guia local: passamos pela igreja, pegamos uma pequena ponte e seguimos pelo leito do rio Molinos, que tinha muito mais areia do que água. Aliás, só areia e plantações no leito. Um pouco mais adiante, cruzamos a Ruta 40 e pegamos a velha ruta que passaria por El Churcal.

Saindo de Molinos, pelo atalho

Saindo de Molinos, pelo atalho

Pedalamos por bonitos vales, casas de adobe, escolas rurais e até encontrarmos outro senhor de bicicleta. Ele estava com rodas de bicicleta de estrada numa estrada arenosa. Se com os meus pneus 1.75″ já era duro de pedalar…

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Perguntei sobre as ruínas e ele nos indicou o lugar correto (uns 2 Km depois da escola). Deixamos as bikes sob uma árvore e subimos o pequeno morro para conhecer as ruínas. Esse lugar foi um dos últimos redutos de resistência dos povos calchaquíes contra os invasores espanhóis. As ruínas ficam no alto de uma colina, com ampla visão do vale, mas longe da água. Quem quiser conhecer mais sobre os Calchaquíes, esse verbete da Wikipedia em espanhol tem bastante coisa.

Vista da estrada das ruínas de El Churcal

Vista da estrada das ruínas de El Churcal

Seguimos o pedal e chegamos num local curioso, onde antigamente era um moinho de grãos. Havia mais de 10 pedras de moinho por lá e cada uma delas deve pesar mais de uma tonelada. O lugar estava abandonado, provavelmente porque a água havia sumido.

Antigo moinho abandonado

Antigo moinho abandonado

Pedalamos mais alguns quilômetros e chegamos a Seclantás, mais um bonito vilarejo com menos de 1.000 habitantes. De novo a sensação de coisa pública bem cuidada era evidente. Entramos numa escola para pegar água. Ela era tão bem cuidada que duvido que as escolas de São Paulo (o estado mais rico) sejam tão bem cuidadas assim.

Aproveitamos que já era quase hora do almoço e fomos comer umas empanadas no El Rancho. O Ricardo já pediu uma “Coca-Cuela”, no mais castiço portunhol. Batemos um papo com o dono e seguimos viagem. Havia duas opções para seguir ao norte, a Ruta de los Artesanos e a Ruta 40. Elas se juntam 12 km mais adiante. Resolvemos seguir pela dos artesãos.

Na Ruta de Los Artesanos

Na Ruta de los Artesanos

Voltando a Ruta 40, parecia que ela estava mais seca do que já era. Passamos por mais alguns vilarejos e logo mais chegamos a Cachi.

Cachi é a cidade mais interessante e visitada do vales Calchaquíes. É um lugar realmente muito bacana, com muitos prédios coloniais caiados, todos brancos, com muitos bares, restaurantes e turistas de muitos lugares. Depois de tomar um bom banho para tirar a poeira, fomos comer um belo sanduba na praça e visitar o museu arqueológico e a igreja.

Igreja de Cachi

Igreja de Cachi

Era a final (segundo jogo) da Libertadores, entre Grêmio e Lanús. Entramos num bar, pensando em assistir com uns tiozinhos argentinos, mas mudamos de ideia. O Grêmio já estava ganhando, os muchachos estavam bebendo bem. Ter que explicar que, mesmo sendo brazucas, não éramos hinchas do Grêmio parecia meio arriscado. Fomos assistir o resto do jogo no hostel.

No dia seguinte dormiríamos num camping selvagem no Parque Nacional Los Cardones, sem comida e provavelmente sem água. Compramos água extra e mantimentos para os dois dias seguintes.

Resumo do dia: 52,2 km, 12,6 km/h, ascensão de 905 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1295557886

Dia 5 – Cachi a Piedra del Molino

Dia 5 - Cachi-Piedra del Molino

Dia 5 – Cachi-Piedra del Molino

Quinta-feira, 30/11/2017

Esse era o dia mais desafiador da viagem. Teríamos que pedalar por um lugar remoto, sem água, a mais de 3.000 m de altitude e encontrar algum lugar para montar a barraca. Eu tinha pesquisado nas imagens de satélite do Google Maps e parecia que havia algumas construções antes de chegar na Piedra del Molino. Lá seria o provável destino do dia. Também tinha lido que existiam alguns pontos de ônibus que seriam bons pontos para dormir com a barraca, por serem quase fechados, protegendo contra o vento.

Nosso local de camping na RP 33

Nosso local de camping na RP 33

Saímos de Cachi com as bikes mais carregadas do que o usual e seguimos para Payogasta, último posto da civilização. Paramos lá para pegar mais água e usar o wifi público. Logo depois de Payogasta, nos despedimos da Ruta 40 e pegamos a Ruta Provincial 33. A boa nova é que seria tudo asfaltado até a Piedra del Molino.

Subindo pela RP 33

Subindo pela RP 33

Subindo pela RP 33

Subindo pela RP 33

Começamos a subir sem cessar e ganhar altitude. Já estávamos a 3.000 m e tudo parecia estar normal. Comemos um lanche num ponto de ônibus, onde havia uma placa para um lugar chamado Tonco. Se onde estávamos já era bem desolado, imagino o que seria Tonco, que seguia por uma estrada de terra aparentemente para o meio do nada.

Recta de Tin Tin

Recta de Tin Tin

Um pouco depois chegamos na famosa Recta de Tin Tin, com seus 16 km, construída pelos Incas há 500 anos. É um trecho completamente reto, que fazia parte do chamado Qhapaq Ñan, um conjunto de estradas incaicas com mais de 30.000 km pela América do Sul! Mais sobre o Qhapaq Ñan aqui, aqui e aqui.

 

Campo de cardones, no Parque Nacional Los Cardones

Campo de cardones, no Parque Nacional Los Cardones

Assim que entramos na Reta de Tin Tin, apareceu um desafio extra, um vento frontal que nos acompanhou por 30 km até o fim do dia. A velocidade média caiu bastante. Era muito difícil tanto pedalar como até conversar. O vídeo abaixo dá uma ideia.

A melhor coisa nessa hora é ter uma postura estoica, não se abalar e tocar em frente. Afinal, nós escolhemos estar ali e estávamos fazendo o que gostávamos.

Cachipampa, RP 33

Cachipampa, RP 33

Após o fim da reta de Tin Tin, parou uma camionete de um guardaparque. Ele perguntou se estava tudo bem conosco. Dissemos que sim e perguntamos se ele tinha água. Ele não tinha e seguiu viagem. Uma hora e tanto mais tarde, ele voltou com uma garrafa PET cheia de água para nós. Ele havia dirigido até a casa dele, a 25 km e buscado água. Muito bacana! Com certeza, isso não está na descrição do cargo dele.

Guanacos selvagens em Cachipampa

Guanacos selvagens em Cachipampa

Cruzamos uma região chamada Cachipampa, o vento continuava inclemente, a temperatura caía e já estávamos cansados, sem saber o quanto faltava para o lugar do acampamento e se poderíamos acampar lá. Para nos animar um pouco, apareceu um rebanho de guanacos selvagens, que nos olhavam com desconfiança.

Centro de visitantes no PN Los Cardones

Centro de visitantes no PN Los Cardones

Finamente chegamos no ponto que dormiríamos. Descobrimos que as construções nas imagens de satélite eram o Centro de Visitantes do PN Los Cardones. Tudo estava fechado e não havia ninguém. Entramos e achamos um local coberto para montar a barraca.

Centro de visitantes no PN Los Cardones

Barraca no centro de visitantes no PN Los Cardones

Fomos dar uma explorada no local e havia 3 casas para os guardaparques. Elas estavam mobiliadas, como se morassem pessoas ali, com mesas com pratos sujos, brinquedos pelo chão e coisas assim. Parecia que tinham abandonado o lugar às pressas. Para completar o quadro de suspense, tinha um velho cemitério há uns 100 m de onde estávamos.

Cemitério do lado do nosso acampamento

Cemitério do lado do nosso acampamento

Além de estar tudo fechado nas casas, parecia que o lugar foi projetado para não deixar qualquer banco para se sentar ou uma torneira para pegar água. Era a prova de visitantes não convidados.

Centro de Visitantes por outro ângulo

Centro de Visitantes por outro ângulo

A noite já estava chegando, improvisamos um lugar para ascender o fogareiro, fizemos a comida e já entramos nos sacos de dormir, pois a temperatura começava a cair mais rápido com o sol baixando.

No meio da madrugada, ouvimos um barulho perto da barraca. Parecia um jumento pastando. Minha bike estava protegida entre a barraca e uma carreta, mas a do Ricardo estava mais exposta. Meio sério, meio para sacanear, falei que o jumento estava comendo o selim da bicicleta dele. O Ricardo soltou um palavrão e saiu apressado da barraca para espantar o jumento. Eu fiquei rindo da situação.

Resumo do dia: 53,2 km, 9 km/h, ascensão de 1.305 m

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1297891728

Dia 6 – Piedra del Molino a El Carril

Dia 6 - Piedra del Molino - El Carril

Dia 6 – Piedra del Molino – El Carril

Sexta-feira, 01/12/2017

Depois de tudo que havíamos pedalado até ali, o sexto dia de viagem seria só alegria. Pedalaríamos pouco mais de 1 km, subindo até a Piedra del Molino, ponto culminante da viagem, a quase 3.500 m de altitude. Depois seria uma longa descida de 60 km pela Cuesta del Obispo e Quebrada de Escoipe. O plano original era pedalar até Salta, mas o Ricardo acordou meio doente e resolvemos seguir direto para El Carril, mais perto, onde arrumaríamos um transporte até Salta.

Acordamos bem cedo, umas 6 h. Havia uma grossa neblina cobrindo tudo. Resolvemos voltar para a barraca e esperar abrir, pois a vista da Piedra del Molino era muito bonita para se perder.

O Centro de Visitantes continuava sem ninguém, mesmo as 8h da manhã. Esquentamos um café e comemos algo. O tempo já tinha aberto e caímos na estrada.

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Chegamos rapidamente na Piedra del Molino. Paramos para tirar várias fotos e então começou a diversão da descida, agora de novo em estrada de terra, o que até prefiro, pois fica mais aventureiro. As vistas das curvas que iam serpenteando vale abaixo eram impressionantes. Esse é o tipo de lugar que de passar pedalando já vale a viagem.

Cuesta del Obispo

Cuesta del Obispo, o ponto no meio da estrada é o Ricardo

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Zigzags na Cuesta del Obispo

Era uma sequência sem fim de zigue-zagues. A medida que descia, a paisagem mudava. No alto era mais árido e, mais abaixo, ficava mais verde. A Quebrada de Escoipe era uma mistura de verde vegetação e vermelho das montanhas. Depois ficava ainda mais verde, lembrando a Serra do Mar paulista.

Quebrada de Escoipe

Quebrada de Escoipe

Quebrada de Escoipe

Quebrada de Escoipe

Paramos para comer uma quesadilla num restaurante de estrada, onde muitas excursões turísticas paravam. Nessas horas você vira um misto de herói e louco para as tiazinhas aposentadas das excursões.

Quebrada de Escoipe

Depois de bastante descida, a estrada fica plana e segue por Chicoana até El Carril. Chegando lá, perguntamos se dava para pegar um ônibus para Salta. Tivemos respostas contraditórias. Uma moça disse que sim, mas um policial disse que não, que teríamos que pegar um ônibus metropolitano, mas que esses ônibus não levariam as bikes. Como tínhamos algum tempo até o horário do ônibus passar, fomos comer empanadas e avisar as famílias que havíamos acabado a viagem sãos e salvos, sem sequer um pneu furado.

O busão da Flecha Bus passou e não parou, com o motorista fazendo sinal de negativo com o dedo. Fomos procurar uma remisera para negociar um carro até Salta. O problema foi achar um carro que coubesse nós e as bikes. Depois de um tempinho, achamos um por um preço justo.

Uma hora depois já estávamos no nosso hostel em Salta. Depois do banho, fomos comer alguma coisa e tomar umas cervejas Salta para comemorar mais uma cicloviagem realizada.

Resumo do dia: 66,8 km, 20.4 km/h, ascensão de 363 m e descenso de 2.536 m!

Relive do diahttps://www.relive.cc/view/1297890248

Bônus – Salta e rolê de carro por Jujuy

Era sábado tínhamos o dia livre. Fomos ao Museu de Arqueologia de Alta Montanha e demos uma volta de bike por Salta. Depois, compramos carne, carvão e cerveja para fazer um asado argentino no hostel, que já é uma tradição nas viagens pela Argentina.

No domingo alugamos um carro e fomos em direção a fronteira com o Chile, via Paso Jama. Seguimos até as Salinas Grandes, passando por Purmamarca e a Cuesta de Lipan, outra estrada impressionante.

No retorno ao hostel encontramos um grupo de 7 brasileiros. Eles vinham de Ribeirão Preto numa Kombi e ficariam viajando por 3 semanas pelo norte da Argentina e Atacama. Era um pessoal super animado, viajando num estilo realmente raiz. Para dar um ideia, traziam uma panela de pressão para fazer feijão nas paradas. 🙂

Conclusão

A província de Salta é uma região espetacular em termos de paisagens e cultura. É segura, com boa infraestrutura e perto, para nós brasileiros. Dá para se chegar de avião, ônibus ou até com o seu carro (dá para ir de SP a Salta em 4 dias de viagem). Ou pedalando, se você tiver mais tempo.

O roteiro que percorremos junta vários pontos imperdíveis da região, como a Quebrada de Cafayate, a Ruta 40, os vilarejos dos Valles Calchaquíes, a Quebrada de las Flechas, a Recta de Tin Tin, a Piedra del Molino, a Cuesta del Obispo, a Quebrada de Escoipe e a cidade de Salta. Colocar alguns dias a mais e visitar (de carro ou excursão) as Salinas Grandes, Purmamarca e as cidades da Quebrada de Humahuaca fazem desse roteiro um top mundial.

Pedalar pela Ruta 40 pelos Valles Calcaquíes tem um gosto de aventura que poucas viagens proporcionam. Dito isso, é uma viagem dura. A secura, o rípio, a altitude, o vento e a temperatura (muito calor ou frio, dependendo da época) dão uma dificuldade extra à viagem. Não é para principiantes. Também não precisa ser superatleta, coisa que estou longe de ser. É importante estar preparado para longos dias de pedal, em condições muitas vezes adversas. E até achar graça dos perrengues. Se você estiver com esse espírito, vai ser uma viagem para ficar na sua memória!

Dicas e recomendações

Quando ir

Por ser uma região seca, com poucas chuvas, dá para ir quase o ano todo. Eu evitaria os meses de janeiro e fevereiro, tanto pelo calor como por ser alta temporada de férias, com muito movimento de carros. Imagino que deva fazer bastante frio no inverno, pela altitude. Não pesquisei sobre o inverno, porque iríamos em novembro.

Com que bicicleta?

Fui com uma MTB aro 26″, 27 marchas, freio v-brake, suspensão dianteira e pneus 1.75″. É uma configuração bem versátil, para terra e asfalto. No serrucho e na areia da Ruta 40, um pneu 2.0″ (ou mais largo) seria bem mais confortável.

Não espere encontrar bicicletarias nos vilarejos dos Valles Calchaquíes. Se tiver alguma coisa, será só o básico. Se precisar de algo um pouco diferente, procure em Salta Capital.

Onde dormimos

Todos tinham wifi e roupa de quarto e toalha. Quase todos reservados pelo Booking.com ou HostelWorld.com.

Transporte

Gastos

Por pessoa:

  • Passagem SP-Salta-SP: LATAM, ~US$ 300
  • Parte terrestre: tudo, incluindo também as despesas no Brasil para ir até o aeroporto: ~US$ 450

O câmbio estava:

  • R$ 1 = AR$ 5,35
  • US$ 1 = AR$ 17,45, os cambistas de rua pagavam AR$ 18 por US$ 1.

Dicas sobre a Argentina

Valem as mesmas da outra cicloviagem, que estão aqui.

O que levamos

Basicamente o mesmo que listei aqui. A mais, levei um fogareiro e uma caneca de camping.

É isso aí, pessoal! Boas cicloviagens!

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9 pensamentos sobre “Pedalando pelas quebradas e vales de Salta

  1. Que grande achado, esse relato! Estou há 2 anos planejando pedalar pelos Andes, mas sempre me esbarro nas dificuldades de se cruzar um dos Pasos do norte, como descrito no livro do Olinto, especialmente a questão de peso de bagagem, pois devemos levar muita água….

    De uns tempos para cá me conformei em não cruzar as fronteiras, ficando somente na Argentina e meu ponto de partida sempre foi Salta. Esse relato de vocês era o que faltava para eu me decidir… talvez não vá tão já (você diz que a época boa é de novembro a abril) pois não terei tempo ($) hábil para agora. Mas já vou deixar marcado para novembro, refazendo esse mesmo caminho. No meu caso irei de ônibus até Salta, pois minha ansiedade não combina com avião.

    Espero que não me cobrem royalties, hehe…

    Parabéns pela viagem e pelo relato, útil de verdade. Ah, cheguei até aqui via o forum do Pedal com br.

    • Que bacana que será útil para você!

      Vou te liberar dos royalties. Mas só dessa vez e não comente com ninguém. 🙂

      Um esclarecimento sobre a época para viajar, esse período de novembro a abril se refere a Bariloche. Salta é bem mais ao norte. Acho que dê para pedalar lá o ano inteiro, talvez não no inverno, por causa da altitude. Dá uma pesquisada. Se você fizer essa viagem, manda uma mensagem depois dizendo com foi. Boa sorte, César!

    • Também achei muito útil, rico em detalhes para quem quer percorrer o mesmo caminho, me senti dentro da trilha pedalando, sentindo cada riqueza de cada lugar, achei os pontos específicos no mapa… mas sairei do RJ, da minha casa pedalando… coragem hehehe

      • Fisicamente e psicologicamente estou pronto, vou fazer uma cicloviagem de 1 ano, vou fazer no Norte ao Sul, do Atlântico ao Pacífico, passando por todos os países da América do Sul. Estou vendo todas as experiências possíveis de casa amigo de pedal para eu não ser pego desprevenido e vendo possíveis saídas de rota para ver lugares como esses que você postou. Moro no RJ e a previsão é sair num prazo máximo de 2 anos ou até menos. Vou fazer uso de Warmshower, acampamento selvagem, camping, hostel e em último caso hotel.

      • Que legal, Marcel. Enorme aventura. Crie um blog/fan page/vídeos para compartilhar a aventura e inspirar outras pessoas.

  2. Ursula and Robert Suiça
    It’s great to read your big bike adventure and to look at the beautiful fotos. We remember our interesting evening in Molinos where we could exchange a lot of information and enjoy a glass of wine together.
    Hope to meet you again on one of your next trips in Southamerica.
    Keep going!!

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