Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 5 – Ensenada a Bariloche

Sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Acordamos mais cedo, 6:30, para preparar tudo e pedalar os 16 km até Petrohue, onde pegaríamos o primeiro barco do dia para fazer o Cruce Andino. As informações sobre o horário de saída do barco eram desencontradas. Em alguns lugares diziam que era as 10:00 e em outros as 10:30. Como seria o único barco do dia, começamos a pedalar as 8:00 para ter bastante folga.

Este seria o penúltimo dia da expedição. Já vinha aquela sensação estranha de viagem acabando, um misto de sentimento de realização com uma tristeza pelo fim próximo.

Originalmente planejávamos pedalar até o posto dos Carabineros chilenos, conhecido como Casa Pangue, que fica no início da subida mais pesada para o Paso Vicente Perez Rosales. O dia seria um pedal de 16 km até Petrohue, quase 1:30 horas de banco até Peulla, um pedal de 20 km até a Casa Pangue e dormir por lá. No dia seguinte, continuaríamos o pedal até Puerto Frias, já na Argentina, onde faríamos a aduana e pegaríamos um barco até Puerto Alegre. Dali, um pedal curto de 3 km até Puerto Blest, onde teríamos mais um longo trecho de barco até Puerto Pañuelo, já no município de Bariloche, mas a 26 km do centro da cidade.

Esta travessia de Petrohue até Puerto Pañuelo tem o nome comercial de Cruce Andino e é operado por uma única empresa, a TurisTour (www.turistour.cl). Ele pode ser feito em um ou dois dias. Para quem faz esse passeio usando os ônibus nos trechos de terra entre os barcos, o preço do ticket é US$ 280. Para quem vai de bike ou caminhando nas partes de terra, sai por US$ 108 (foi o que custou para nós, tem relatos com outros preços). É caro, mas é a única opção se você quiser cruzar por esse passo. Não existem outros barcos que façam esse roteiro. É um monopólio mesmo.

Minha opinião, se você estiver com esse dinheiro, vale a pena. Os lagos são muito bonitos, cercados por verde e montanhas nevadas. As estradas de terra cruzam dois parques nacionais, o Vicente Perez Rosales (Chile) e Nahuel Huapi (Argentina) e a combinação de barco e bike é algo que não encontramos em qualquer lugar.

Durante a travessia, decidimos fazer os dois dias em apenas um, o que vou contar mais adiante.

Seguem os roteiros no Bikemap:

Saímos da pousada pontualmente as 8:00. Pela primeira vez na viagem o dia amanheceu nublado. Se ficasse só nublado e não chovesse, estaria ótimo.

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Ciclovia na Ruta 225, de Ensanada a Petrohue

A estrada começa com asfalto, com ciclovia demarcada, mas logo adiante vira um caminho de rípio. O visual é bem interessante, pois a estrada vai margeando o Rio Petrohue, que nasce no lago de mesmo nome e desce com uma certa turbulência para o mar. É um lugar usado para fazer rafting e caiaque esportivo.

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Ruta 225, o asfalto vira rípio

O rio Petrohue forma corredeiras e quedas bem bonitas. Tem um lugar que dá para visitar as maiores quedas (pago), mas passamos batido. Em outros pontos da estrada dá para chegar bem da margem.

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Rio Petrohue

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Rio Petrohue

As 9:15 chegamos em Petrohue, bem antes das 10:30, como descobrimos que era o horário de saída do barco. Petrohue é um punhado de casas, nem sei se tem mercado ou restaurantes. O lugar recebe, além dos turistas do Cruce Andino, muitos pescadores de fly fishing. Também tem um camping ali, pelo que li em relatos de outros ciclistas.

Na sala de espera encontramos dois franceses, pai e filho, que viajavam por 30 dias pelo Chile e Argentina, o Roger (pai) e o Olivier. O Roger tem 76 anos e uma energia inacreditável. O Roger viaja de bike há décadas e já esteve na Ásia, África, Oriente Médio, Américas e Europa. Acabamos ficando amigos e pedalamos até Bariloche com eles.

Além dos franceses, um casal de argentinos também fazia a travessia. Eles tinham acabado de comprar as bicletas em Puerto Montt, onde era mais barato do que na Argentina.

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Roger, 76 anos e uma energia de 20.

A compra das passagens foi meio confusa. Pagamos os US$ 108 pelo trajeto de ida, próximo ao valor que eu tinha visto em outros relatos (uns US$ 100). É importante dizer que você vai fazer somente a ida e que quer um boleto mochilero, ou seja, vai fazer a parte terrestre por sua conta. No caso, pedalando. Diga também para colocarem se será um ou dois dias de travessia. Se bem que, acho que não implicam com isso. Os franceses compraram passagens para dois dias e foram em um. O preço não muda para um ou dois dias.

Parecia que os atendentes eram novatos e não sabiam com segurança quais eram as opções, que são muitas. Dá para pegar o barco até Peulla e voltar, seguir até Bariloche. Cruzar em um ou dois dias. Ir e voltar. Usar ou não o transporte para a parte terrestre. Etc, etc.

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Magrelas a bordo

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Visual num dia aberto (não foi o nosso caso). Foto de divulgação.

O primeiro trecho de barco dura 1:40 e em dias abertos dá para ter bonitas vistas do Osorno e Pontiagudo. Naquele dia nublado, conseguimos ver pedaços dos dois somente. No barco fomos conversando com os franceses. Tanto o Roger como o Olivier eram muito bacanas. O Roger falava espanhol, mas o Olivier falava somente um inglês básico, o que ele compensava com simpatia para se comunicar.

É muito bacana ver alguém com 76 anos e fazendo uma viagem dessa. A gente acha que já está ficando velho (tenho 45 no momento da viagem). Ver alguém 30 anos mais velho que tem desejo e energia para este tipo de viagem é algo inspirador.

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Lago Esmeralda

Chegando em Peulla, montamos os alforjes e fomos à aduana chilena registrar a saída. Perguntaram do registro de entrada da bicicleta, que estava escrito à mão em nosso documento de entrada. Os franceses não tinham a menção às bicicletas mas o pessoal da aduana liberou. A aduana fica a 1 km após o atracadouro, não tem como errar. Você só não pode passar direto. Se fizer isso, os Carabineros na Casa Pangue vão checar o passaporte e você terá que voltar para pegar o carimbo. Not good.

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De Peulla a Casa Pangue são uns 15 km relativamente planos, em rípio, seguindo vale do rio que desce da geleira do Tronador. É um pedal tranquilo.

Se o pedal é tranquilo, por outro lado aparecem os tábanos, uns moscões que chegam em bando e picam mesmo sobre a roupa. São parecidos com as mutucas brasileiras, só que mais agressivos. Uma solução simples para espantá-los é um repelente de citronela. O Olivier tinha trazido e nos emprestou. Não restou um tábano por perto durante a viagem.

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Chegamos à Casa Pangue e fizemos o almoço ali, na mesa de picnic. Era cedo e os franceses disseram que iriam para Bariloche no mesmo dia. Nós estávamos com energia e dormir numa cama macia em Bariloche parecia ser melhor do que acampar sem banho no gramado da Casa Pangue. Decidimos ir juntos.

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Vista do Tronador da Casa Pangue. A visão era parcial pelas nuvens

Foto do mesmo local em um dia aberto. Do blog "Ciclos, Letras e Quintais", https://ciclosletrasequintais.wordpress.com

Foto do mesmo local em um dia aberto. Do blog “Ciclos, Letras e Quintais”, https://ciclosletrasequintais.wordpress.com

Só que nisso chegou um outro argentino, vindo de Bariloche, e também o casal de argentinos, que estava um pouco atrás. Fizemos um almoço coletivo, dividindo as comidas e as vivências de viagem. Para completar a festa, baixou um helicóptero dos Carabineros para algum oficial fazer uma vistoria. Os pilotos foram lá papear conosco.

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Ricardo (de amarelo), Olivier, Roger e eu, em sentido horário

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A conferência de paz estava ótima mas tínhamos que seguir viagem, pois a parte mais dura estava por vir. Eu havia lido vários relatos sobre a subida após a Casa Pangue e eles eram meio assustadores. Na minha cabeça era algo com a Serra de Luminosa, no Caminho da Fé, ou a subida de Castelhanos (Ilhabela), do lado do oceano.

É uma subida longa, uns 6 km, com uns 700 metros de ascensão, mas é pedalável, mesmo com as muitas pedras soltas e a bicicleta com os alforjes. Por ser no meio na floresta e cheio de curvas, eu sempre achava que ela iria terminar depois da próxima curva. Sem exagero, tive essa certeza umas 30 vezes. Cheguei até um (falso) cume e esperei o meu irmão, achando que era o fim. Mas para o meu engano, não era. Deu até aquela desmotivada quando a estrada começou a subir novamente.

Quando finalmente chegamos ao cume e vimos as placas demarcando a fronteira entre os países, foi uma alegria só. Sabíamos que dali a Puerto Frias seriam 4 km de uma descida forte, com muitas pedras soltas. Como já estava frio, botamos as jaquetas corta-vento e mandamos ver.

Quando chegamos a Puerto Frias a aduana argentina estava quase fechando, pois já eram 16:45. Pedimos para eles religarem os computadores e fazerem a nossa entrada no país. Também falamos para eles esperarem mais uns 5 minutos (acabou sendo 10) para que os franceses fizessem a entrada. Ficou em cima da hora mas deu tudo certo.

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Embarque em Puerto Frias

Embarcamos as bikes e cruzamos o Lago Frias até Puerto Alegre. De lá seriam mais 3 km de um caminho relativamente plano até Puerto Blest, onde pegaríamos o último barco rumo a Puerto Pañuelo.

Nestes região, onde os lagos chegam no meio da cordilheira, os lagos formam braços longos cercados por montanhas, muitas delas com picos nevados e cachoeiras de degelo. É um visual muito bonito, com cara de fiordes noruegueses.

Para completar o espetáculo, algumas gaivotas vinham pegar bolachas que os passageiros davam no deck do barco.

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Chegando em Puerto Pañuelo, já eram 19:30. Montamos novamente os alforjes e fomos pegar um longo trecho urbano de 26 km até o centro de Bariloche. Era uma sexta-feira com bastante trânsito de fim de dia. E essa avenida (Av. Bustillo) tem pista simples e sem acostamento, além de ser a principal via da cidade. Fomos em fila indiana, eu, o Ricardo, o Roger e o Olivier. O Roger foi puxando a fila a maior parte do tempo, num ritmo muito forte. Realmente incrível para alguém em seus 76 anos.

Chegamos às 21:00 no centro. A nossa reserva no hostel Perikos era para o dia seguinte, conforme o nosso planejamento, e o hostel não tinha mais vagas para a sexta. Os franceses tinham uma reserva no Hotel Venezia, na mesma rua do Perikos. Ficamos lá também. O Roger era amigo de longa data do Ivo, o dono do hotel, um simpático italiano de Treviso.

Ainda tivemos energia para sair para jantar e comemorar o fim da viagem. Tomamos cervejas da região e comemos um bom naco de cordeiro patagônico.

No dia seguinte nos despedimos dos franceses depois do café e fomos ao nosso hostel. O sábado foi de descanso e de churrasco novamente. Afinal, estávamos na Argentina e tínhamos cumprido a nossa expedição até antes do tempo.

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Que venham muitas outras viagens!

No domingo, restava empacotar as bikes e assistir a final da Davis (Argentina e Croácia). A Argentina levou o caneco pela primeira vez na história.

Chamamos o Henrique, motorista de táxi, que nos levou ao aeroporto. De lá, era voar para o Brasil e encarar a semana de trabalho pela frente.

Adios mi Bariloche querido!

Adios mi Bariloche querido!

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 73,8 km
  • Média: 13,6 km/h
  • Ascensão: 2.060 m

Hospedagem em Bariloche

  • Hotel Venezia (www.hotelveneziabariloche.com), AR$ 600, quarto duplo, com banheiro e café da manhã. Wifi não funcionava direito.
  • Hostel Perikos (www.perikos.com), AR$ 600,quarto duplo, com banheiro, café da manhã e Wifi. Além da churrasqueira! Nosso top-pick em Bariloche.

Táxi para o aeroporto

  • Henrique
  • Whatsapp: +54 2944597485
  • A corrida custou AR$ 270

Mais fotos

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