Cicloviagem Lagos Andinos – Dia 1 – Bariloche a Villa Traful

Segunda-feira, 21 de novembro de 2016

Chegara o dia do início da cicloviagem. Era hora de pegar a estrada com as magrelas. Seriam 100 km de Bariloche a Villa Traful, com aproximadamente 2/3 em asfalto e 1/3 em rípio (terra com pedras). O visual do dia prometia, pois margearíamos o lago Nahuel Huapi, pegaríamos um trecho da Ruta 40, tomaríamos a Ruta 237 em direção nordeste, seguindo o lindo vale do Rio Limay. Chegaríamos num local conhecido por Confluência, onde os rios Limay e Traful se juntam. A partir daí seria terra até a Villa Traful pela Ruta 65. Eu já havia passado por este mesmo roteiro de carro em janeiro de 2015 e sabia que as paisagens que nos esperavam eram espetaculares. Para melhorar, o dia novamente era de céu azul sem nuvens.

O roteiro do dia seria esse: www.bikemap.net/en/route/3389473-lagos-andinos-dia-1/

lagos-andinos-roteiro-dia-1

Nossa missão no primeiro dia

Na noite anterior tínhamos montados os alforjes e separado tudo que não seria necessário na viagem de bicicleta. Essas coisas seriam deixadas no hostel, com as malas-bike.

lagos-andinos-dia1-img_20161121_091118852

Início da viagem, em frente ao Perikos Hostel

Tomamos um café da manhã reforçado no hostel Perikos, pedimos para tirarem a tradicional foto de saída e pegamos as ruas de Bariloche. Depois de um curto trecho urbano já estávamos na Ruta 40, que não tinha acostamento asfaltado. Normalmente os carros na Argentina são bem cuidadosos com os ciclistas, se afastando bastante para evitar qualquer perigo. Mesmo assim, de tempos em tempos era preciso ir para fora da estrada para deixar os caminhões e ônibus passarem.

lagos-andinos-dia1-img_20161121_100041782

Ruta 40, saindo de Bariloche

Passamos por Dina Huapi e depois aproveitamos para tirar umas fotos de Bariloche com o lago na frente e as montanhas atrás. É um visual realmente impressionante. Tirei várias em sequência para o Google Fotos montar um panorama (abaixo).

lagos-andinos-dia1-panorama-bariloche

lagos-andinos-dia1-img_4202

Bariloche

Chegamos na ponte sobre o Rio Limay, que além de ser o vazante do Lago Nahuel Huapi, é a divisa de província entre Rio Negro, de onde vínhamos, e a província de Neuquén, nosso destino do dia.

Logo após a ponte tem um posto da polícia da província de Neuquén. O Ricardo, sempre com sede ou com medo de ficar com sede, teve a ideia de ir pedir água na polícia. Falamos com um policial simpático, que nos deu água e puxou conversa sobre a viagem, dizendo que precisava fazer algo assim para perder a barriguinha, etc. Esse era o “guarda bom”. Quando íamos pegar as bikes e seguir viagem, apareceu um outro policial. Esse com cara de pouquíssimos amigos numa manhã de segunda-feira. Nos perguntou onde estavam nossas jaquetas reflexivas de segurança. Eu disse que os alforjes eram reflexivos e que nossas camisas de ciclismo eram coloridas, nos dando visibilidade na estrada. O “guarda mau” disse que a lei argentina exigia coletes reflexivos de segurança e que sem eles não poderíamos seguir viagem. Momentos de tensão. Tentei entender se o policial estava querendo alguma grana, mas não parecia ser o caso. Ele continuou com um discurso provocador, como um cão raivoso, aparentemente interessado em que reagíssemos a altura. Se entrássemos no jogo dele, certamente ele usaria de seu quinhão de “otoridade” e nos criaria problemas. Perguntamos qual seria a solução e ele disse que teríamos que voltar 2 km até Dina Huapi, onde poderíamos comprar os coletes e continuar a viagem. Agradecemos pelo alerta (xingando o “guarda mau” por dentro) e voltamos a Dina Huapi.

O irônico é que do lado da província de Rio Negro, a poucos metros, tem o posto policial daquela província. Já havíamos passado lá na ida e os guardas que estavam na rodovia somente acenaram simpaticamente para nós. Na volta aconteceu o mesmo. Ninguém nos parou para pedir o colete supostamente exigido pela lei argentina. Morremos uns R$ 50 em cada colete e seguimos viagem. Passamos novamente em frente ao posto policial de Neuquén e nem olhamos para eles.

Quando entramos na Ruta 237, o trânsito diminuiu bastante e apareceu um forte vento frontal que nos acompanhou por todo o trecho nessa rodovia, por mais de 50 km. Mesmo na descida, se parássemos de pedalar, a bicicleta ia diminuindo a velocidade até quase parar. Quem pedala sabe como é chato pedalar com vento frontal.

Em compensação, as paisagens do Rio Limay eram cada vez mais bonitas, com uma água de uma cor azulada incrível. Chegamos até um lugar chamado Anfiteatro, onde o rio faz uma grande curva e cria formações impressionantes. Paramos para tirar umas fotos.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Outro ponto espetacular nessa estrada é o Valle Encantado. O Limay forma um canion alto, com formações rochosas nos dois lados. Além disso, o azul da água e o verde da vegetação criam um cenário muito bonito. Eu resolvi dar um mergulho no rio, de tão bonita e convidativa que era a água. Só que a água é muito fria. Não dá para ficar mais do que alguns minutos.

lagos-andinos-dia1-img_20161121_143148007

Valle Encantado, Ruta 237

Um coisa muito bacana nessa estrada é que muitos carros passavam e buzinavam, nos incentivando na viagem. Isso além de passar bem longe, praticamente na pista contrária da estrada. Fiquei imaginando se no Brasil aconteceria o mesmo.

lagos-andinos-dia1-img_20161121_130444516

Rio Limay, Ruta 237

Chegamos  à Confluência, onde tem um posto de gasolina da ACA, com um restaurante. Tomamos um refrigerante e enchemos as caramanholas com uma água de torneira, que depois, descobrimos ter um cheiro e gosto de gasolina insuportável. Tivemos que jogar tudo fora. Por sorte, essa região toda tem muitos riachos cristalinos, onde nos abastecíamos. Para não arriscar, sempre colocávamos gotas de purificador de água (Hidrosteril). Não tivemos problemas.

lagos-andinos-dia1-img_20161121_153011869

Ruta 65

Finalmente entrávamos numa estrada de terra, a Ruta 65. Agora estávamos no vale do Rio Traful, que por sua vez é o vazante do Lago Traful. O vento também desapareceu. A paisagem era mais agreste e ainda mais impressionante. Qualquer lado que olhássemos era bonito. Meu irmão estava embasbacado com visual.

Pegamos algumas subidas mais chatas e rapidamente chegamos ao Lago Traful. Na minha opinião esse é o lago mais bonito (que conheci) na região de Bariloche. A cada curva era uma parada para tirar uma nova foto, pois a paisagem era mais bonita do que a da foto anterior.

Este slideshow necessita de JavaScript.

Já eram 18:00 quando finalmente chegamos na Villa Traful, já cansados pelo longo pedal e pelo vento frontal. A vila tem em torno de 700 habitantes fixos, mas tem várias opções de hospedagens (cabanas, campings, quartos, etc). Mesmo assim deu um pouco de trabalho para achar um lugar com vaga e que não fosse caro.

Vista da cabana em Villa Traful

Vista da cabana em Villa Traful

Depois de um merecido banho, fomos tomar uma cerveja na mercearia ao lado da cabana. O fato de ser estrangeiro e ciclista num lugar pequeno sempre desperta a curiosidade das pessoas.

O filho do dono da mercearia estava com um bicicleta com um problema, com a roda traseira travada. Pedi para dar uma olhada e conseguimos consertar a magrela dele. Demos a nossa contribuição para a amizade entre os povos.

Logo um senhor argentino, o Sr. Suksdorf, de Carmen de Patagones, puxou conversa. Ele era o tipo de pessoa que você não precisa se preocupar com inventar assuntos numa conversa, ele resolve isso. Foi um bom papo onde ele nos contou sobre pumas, de seus parentes em Ponta Grosa (PR) e de um episódio da história que pouco sabemos no Brasil. Durante a Guerra da Cisplatina (1825-1828, que os argentinos conhecem por Guerra do Brasil), a marinha imperial brasileira tentou desembarcar em Carmen de Patagones, a mais de 1.000 km ao sul de Buenos Aires, nas margens do Rio Negro. A tentativa de invasão foi fracassada e até hoje existe uma bandeira imperial brasileira na igreja da cidade, guardada como um troféu da batalha. Mais sobre essa batalha aqui no Wikipedia.

Dados úteis

Dados do pedal

  • Distância pedalada: 107 km
  • Média: 14,4 km/h
  • Ascensão: 1750 m

Onde ficar

Cabana que ficamos – Não tem nome. É do proprietário do mercado que fica logo após o posto de gasolina da Villa Traful. Custou AR$ 700, 2 quartos, banheiro, sala e cozinha mobiliada. Muito boa.

Coisa importante, na Villa Traful não tem internet. Mas tem rede de celular e consegui mandar SMS ao Brasil.

Outras opções:

Algumas fotos do dia

Este slideshow necessita de JavaScript.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s