Big Biker Santo Antonio do Pinhal 2014, minha jornada de herói

Depois de 4 anos volto a competir no Big Biker em Santo Antonio do Pinhal. Eu nem tinha planejado, mas a oportunidade apareceu. Só que o inesperado aconteceu, peguei uma virose, tive diarreia no dia da prova e tive que enfrentar tudo isto e mais o circuito para ter a minha própria Jornada do Herói (mais aqui). Vamos ao relato.

Mundo comum

Um casal de amigos tem um chalé em Gonçalves (MG) e há algum tempo nos convidaram para passar um fim de semana lá. Por algumas razões não tínhamos conseguido uma data até surgir a proposta do fim de semana de 13 e 14 de setembro. Combinamos de ir para lá.

O Chamado da Aventura

No mesmo dia que fechamos a data, recebo um email do Big Biker falando da última etapa em Santo Antonio do Pinhal (SAP). Gonçalves e SAP são bem perto. Esta coincidência quer dizer algo. Entro no site e vejo que as inscrições normais estão fechadas. Reabriria novamente no dia 28 de agosto. Já participei duas vezes do Big Biker SAP, em 2009 (Sport) e em 2010 (Pro). Acho que é a prova de MTB mais bacana do Brasil, pela combinação de percurso e organização. O ziguezague é a cereja no bolo. Se você nunca ouviu falar, dê uma procurada no Youtube (este vídeo de 2013 passa uma boa ideia da prova).

Eu tinha desistido de fazer provas de MTB e me concentrado em cicloturismo, mas resolvi aceitar o chamado do destino. Negocio o alvará com a patroa e faço a minha inscrição na Sport. Serão 46 km com duas características marcantes, uma subida de 13 km e o famoso ziguezague.

Durante a semana anterior à prova, meu filho mais velho pega uma virose que dá uma diarreia. Nem me preocupei e nem me lembrei mais disso.

Chegamos em Gonçalves na sexta. Tempo bom, sábado divertido com as crianças.

Acordei cedo no domingo e fiz um “download” no banheiro, o que não é comum para mim. Foi o primeiro sinal de alerta. Minha mulher acorda e diz que também não está bem. Alerta amarelo.

Mesmo assim, tomo o café e toco para SAP.

Cruzamento do primeiro portal

Altimetria da categoria Sport

Altimetria da categoria Sport

Chego em SAP e é aquele clima de Big Biker, muita gente (1.451 inscritos), ótima organização e adrenalina no ar. Dá tempo de ver a largada da Pro. Esta galera vai pegar muita pedreira.

Destes 1.451 inscritos, depois saberia que somente 1.000 terminariam a prova. Alguns não compareceram e muitos ficariam pelo caminho.

Descubro que agora a Sport tem duas largadas, uma até a categoria sub 40 e outra com a galera over 40 e mulheres. Já estou na terceira idade ciclística.

Largada

Largada

Fui com a minha bike de cicloturismo, com freio v-brake. Olho em volta e só vejo freios a disco. Vi somente mais duas bikes com v-brake. Outra coisa que me chamou a atenção foi a quantidade de pedais Egg Beater. Por alto, uns 70% do pessoal tinha Egg Beater (incluindo o meu mesmo).

É dada a largada guiada pelas motos até o final do asfalto. Quando é dada segunda largada, no fim do asfalto, é a mesma história de outras vezes, o pessoal se aglomera na primeira subida e vai parando, tendo que descer da bike para empurrar. Apesar dos gritos de “Quem empurra vai para a direita!”, ninguém faz isto e depois de um tempo todos descem para empurrar.

O roteiro inicial estava um pouco diferente de 2010, com trechos novos. Agora tem um single-track por uma fazenda. Neste single-track um ciclista cai sobre cerca de arame farpado. Por sorte não se machucou muito e pode continuar na prova. Aliás, não vi acidentes sérios este ano, diferente de outras edições que participei.

Provações

Nos primeiros quilômetros vou bem, procurando achar o meu ritmo de cruzeiro. Lá pelo 7 km começo a ouvir uns barulhos estranhos vindos do meu intestino, o maldito chamado da latrina. Tento me concentrar no pedal. O chamado aumenta. Fico de olho em lugares para parar.

Lá pelo pelo km 9 encontro um vilarejo com um mercadinho. Paro e pergunto se posso usar o banheiro. Para a minha sorte, o banheiro tinha acabado de ser limpo. Começo o ritual de exorcismo para botar o capeta para fora. Só faltou torcer as tripas. Enquanto isto, ouço o pessoal passar. Fico uns 10 minutos no banheiro. Já não passa mais ninguém. Acabo o serviço e pego um maço de papel higiênico para qualquer eventualidade.

Aproximação

A parada me fez bem. Volto muito melhor. Mas estou na turma do fundão. Tento ver alguma vantagem nisto (oba, vou ultrapassar muita gente!). Penso naquelas corridas de recuperação do Ayrton Senna. Musiquinha da vitória tocando na cabeça. Rapidamente volto à realidade e lembro que tem muito perrengue pela frente.

Vou num ritmo bom e encontro um grupo que pedala na mesma velocidade. É sempre bom andar com gente por perto e, quando dá, ultrapassar alguns.

A prova entra numa planície, no meio de um vale. Dá para ver a imponente Pedra do Baú à esquerda. Também é o começo da longa subida da prova, uns 13 km sem descanso. Apesar de longa, ela tem uma inclinação suave, o que a torna completamente pedalável.

Vou ultrapassando alguns ciclistas e apreciando a paisagem, com a Pedra do Baú ao fundo. Pego a roda de uma mocinha. Mas ela pedala bem menos do que eu e tenho que passá-la.

Provação suprema

La pelo km 23, na metade da prova, sinto o chamado das entranhas novamente. Tento segurar a dor de barriga e me concentrar na subida. Não dá. Ou seguro a dor de barriga ou pedalo. Só que agora estou no meio do nada. Sem chance de encontrar algum banheiro nos próximos quilômetros.

A coisa aperta. Procuro um lugar escondido, no meio do mato. Encosto a bike e faço o serviço. Aquele maço extra de papel higiênico veio a calhar. Só que diferentemente da primeira parada, volto sem energia, meio aéreo e com uma sensação de pressão baixa. Não tenho nada salgado para comer. Somente o Gatorade numa das caramanholas tem um pouco de sal.

Está foda de continuar. A tentação de desistir me ronda. Mas estou no meio do nada e será demorado voltar até Santo Antonio do Pinhal. A ideia de desistir não é para mim.

Decido continuar como dá. Se tiver que empurrar até a linha de chegada, assim será. Se tiver que demorar 10 h para chegar, é o que tem para hoje. Se piorar muito, aí sim, paro.

Para a minha sorte, tinha muita gente empurrando, o que deixa o lado psicológico melhor. Depois de algum tempo, melhora a sensação de tontura.

Acaba a subida lá pelo km 29. Logo em seguida encontro um ponto de apoio com água e Nuun. Era tudo o que precisava, eletrólitos! Encho a caramanhola de Nuun. O moral melhora mais quando paro no ponto de apoio do Pedal Urbano e o pessoal gentilmente me oferece Coca-Cola. Nuun e Coca-Cola foram uma dádiva dos deuses. Me sinto bem melhor e pedalo forte até a entrada do ziguezague (zigzag, sei lá).

Caminho de Volta

Minha preocupação durante a subida era estar bem para a descida do ziguezague, pois tem que estar atento e em boas condições. Ele exige bastante técnica. Qualquer deslize pode resultar num tombo bem feio. Resgate ali é difícil.

Segundo o pessoal do Big Biker, o ziguezague é “uma descida de nível técnico elevado”. É muito mais do que isto. São uns 5 km de descida alucinante, cheio de pedras, raízes, buracos, curvas, valetas, barrancos, um parque temático de MTB. Quase não dá para sentar no selim, pois a trepidação é enorme. Isto deixa as pernas bem cansadas, apesar de ser descida. Os braços tem que absorver a trepidação, o que cansa bastante também. Os freios são acionados o tempo todo, fico com as mãos doendo de tanto frear.

Me sinto bem na descida e ganho confiança. Ultrapasso várias pessoas. Vejo um cara levar um tombo na minha frente. A mocinha que estava na frente dele freia num lugar inesperado e ele é que vai para o chão para evitar a colisão com ela. Pergunto se está tudo bem (sim, só dores) e sigo. Grito “abre” para a mocinha, que  dá um cavalo-de-pau na bike e deixa a roda no meio do traçado, na minha frente. Não dá para desviar. Quase caio e discuto com a Dona Maria (mulheres, me perdoem, é o calor da prova). “Vai pedalar na ciclovia, minha filha!”. E toco a descida.

Passo umas dez pessoas, todas solícitas em abrir passagem. Agradeço a cada uma. Finalmente acaba o ziguezague. Fico orgulhoso de minha performance. Desci todo ele em cima da magrela e em boa velocidade.

Ressurreição

Com o ânimo ganho no ziguezague, junto uma energia extra para fechar a prova. Agora falta pouco. Bem, tem duas subidinhas traiçoeiras até entrar no single-track final. Minha lembrança de outras provas é de ter sentido princípio de câimbra neste trecho. Começam a aparecer as placas de contagem regressiva da quilometragem: excelente para o moral deste ciclista combalido.

A primeira subida está asfaltada. Me lembro dela de terra. Tanto melhor. Pedalo até onde dá e empurro um outro tanto. Usar um outro conjunto muscular (para caminhar) é um alívio. Quando volto para a bicicleta estou bem melhor. Como o meu último sachê.

Dou um gás na bike e chego à segunda subida, de terra, antes da entrada do single-track. Faltam 3 kms somente.  Pedalo metade dela e empurro a outra metade. Ultrapasso uns caras empurrando. Pode isto?

Mais uma descida e chego à entrada da trilha. Agora é aproveitar a última diversão da prova e cruzar a linha de chegada.

O retorno com o elixir

Nunca uma medalha me foi tão merecida. Saio sorridente. Quem me visse ali não imaginaria o que passei durante o percurso.

Fecho a prova com 4h32m. É bem mais do que eu gostaria, mas, dada a circunstância, fico feliz com o resultado!

Volta ao mundo comum

Hora de botar a bicicleta no carro e rumar para Gonçalves, onde estão a família e os amigos.

Quem sabe eu volto em 2015 para passar esta história a limpo!

Dicas para mim mesmo e para outros

  • Ir com uma bandana na cabeça. A subida faz suar muito. O suor se mistura com o protetor solar e cai nos olhos provocando muita ardência. Tive que parar várias vezes.
  • Levar somente uma caramanhola. Levei duas de 700 ml. Não precisava. Foi somente peso extra. Os pontos de apoio da prova são a cada 10 km, o que não te deixa sem água. Na longa subida também tem algumas bicas com água potável.

Informações do Strava

  • Distância: 46,3 km
  • Tempo em movimento: 4:07:59
  • Tempo total: 4:32:50
  • Gasto calórico: 3.359 kcal
  • Velocidade média: 11,2 km/h
  • Velocidade máxima: 56,2 km/h
  • Ascensão acumulada: 2.123 m (* Acho este número do Strava exagerado, o site do Big Biker fala em 1.289 m. O BikeMap dá 1.420 m)
BigBiker SAP Altimetria

BigBiker Santo Antonio do Pinhal

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